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Hotaru

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Em uma flor de lótus em uma grande lagoa, vivia uma família de vaga-lumes, pai, mãe e filha. Esta última era chamada “Pequena Hotaru”. Ela era uma criatura muito agradável.
Quando a tarde estava fresca e bela, e ia até a grande folha de lótus, que para eles era um adorável jardim, para um passeio. Eles costumavam ouvir o concerto dos sapos que viviam na mesma lagoa. Como era escuro, eles acendiam suas lanternas.
A lanterna da pequena Hotaru brilhava tão lindamente, com uma luz tão pura, que a lua tinha que se esconder de vergonha. A jovem Hotaru era uma coisinha adorável, então era inevitável que ela fosse cercada de pretendentes. Durante o dia, ninguém se ninguém se aproximava dela, mas à noite, quando ela se sentava, sonhadora, no escuro, ela era deixada em paz, mas podia ver os seus inúmeros pretendentes por perto. Eles acendiam suas lanternas.
Eles zumbiam e assobiavam, revoavam e então zumbiam um pouco mais. Todos desejavam que Hotaru fosse sua esposa. Havia borboletas, besouros, abelhas, moscas e muitos outros tipos de insetos. Todos os insetos estavam presentes e mostravam suas habilidades para tentar conquistar Hotaru. Embora ela os ignorasse, aquilo a agradava, e ela ficava feliz em ser admirada assim. Mas eventualmente o zumbido dos animaizinhos deixou de ser divertido e passou a ser um incômodo constante. Então ela decidiu se livrar dos pretendentes.
 Ela disse a eles: – Quero escolher um de vocês para ser meu marido, mas primeiro ele deve me trazer uma luz que brilhe pelo menos tanto quanto a minha. Todos ouviram e decidiram buscar uma luz como a pedida, e trazê-la o mais rápido possível. Todos queriam ser o primeiro a conquistar Hotaru. Era cada inseto por si. Foi uma confusão terrível. Na confusão, alguns insetos caíram na lagoa e foram engolidos por um sapo. Pernas e antenas foram perdidas.
 Em resumo, foi uma bagunça indescritível. Cada um avançava para seu próprio objetivo. Onde quer que se visse um raio de luz, um bando de pretendentes corria para lá. Uma mariposa foi a primeira vítima. Ela voou por uma janela aberta para dentro de uma sala onde um estudioso estava lendo à luz de uma lâmpada. A mariposa se queimou no fogo da lâmpada. Apesar da dor, ela tentou de novo. Finalmente ela conseguiu entrar por um dos orifícios da lâmpada, mas, que pena!
A chama queimou suas asas, e logo ela morreu. Esse foi o destino de milhares dos insetos. Um morreu nos carvões de um braseiro, outro na chama de uma vela, alguns até mesmo voaram nos olhos das pessoas e foram mortos. Não importava quantos morressem, havia outros para tomar seu lugar, todos queriam conseguir uma luz brilhante e levar Hotaru para casa com eles.
 Entre todos os insetos, um deles, chamado Hitaro, pensou consigo mesmo que, se havia tantos pretendentes morrendo na tentativa de desposar Hotaru é porque ela deveria ser mesmo muito bonita. Assim, uma noite, ele foi procurar Hotaru. Ele morava a apenas oito flores de lótus de distância da casa de Hotaru. Quando ele a viu, ficou tão encantado que voltou rapidamente para casa e enviou um representante¹ falar com os pais de Hotaru, dizendo que ele podia cumprir a condição de Hotaru, pois ele tinha uma linda lanterna, e era também um sujeito bem-apessoado.
Depois disso, tudo ficou bem. O casamento foi celebrado com grande esplendor. Eles viveram felizes para sempre, e tiveram muitos filhos. Entretanto, a condição de que qualquer um que quisesse se casar com um dos seus descendentes deveria ter uma luz brilhante permaneceu.
Eles davam muita importância a isso, e se tornou uma lei familiar a partir de então. É por isso que quando os insetos se queimam nas chamas das velas e lanternas as pessoas dizem: “São os pretendentes dos vaga-lumes".

  1. O costume japonês requer que um pretendente seja apresentado por meio de um intermediário. Seria indelicado se o pretendente apresentasse a si mesmo.
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Punindo aqueles que abusam dos animais

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Muitos anos atrás, em Edo¹, vivia um fabricante de guarda-chuvas, com tão pouco talento que ele vivia em dificuldades.
Em um belo dia, ele viu um tigre sendo exibido em uma feita. Ele assistiu, como todas as pessoas reunidas ali, e percebeu que o dono do tigre conseguia um bom dinheiro vendendo ingressos para as pessoas que queriam ver o tigre.
Nesse momento, o fabricante de guarda-chuvas teve a ideia de também exibir um tigre. Mas onde ele iria encontrar um tigre? No Japão não há tigres selvagens, e ele não tinha dinheiro para comprar um. Entretanto, ele viu uma pele de tigre em uma loja. Ele a comprou e a costurou sobre um jovem bezerro. Para que ele não mugisse e entregasse o segredo, ele amordaçou a boca do animal. Ele levou seu falso tigre para feiras e mercados, e era extremamente popular, pois as pessoas nunca haviam vido um tigre tão bem domado e pacífico.
 As pessoas não paravam de vir ver o falso tigre de manhã até a noite, de modo que não foi possível alimentar o bezerro por vários dias, e por isso ele morreu. Então, ele comprou outro bezerro. Ao longo dos anos, ele deve ter sacrificado pelo menos dez bezerros em nome da sua cobiça. Mas os deuses não dormem, e vingam qualquer pecado cometido contra suas criaturas.
 Um dia o homem ficou doente, perdeu a voz e apenas um patético balido saía quando ele tentava falar. Então, ele enlouqueceu, rasgou suas roupas, vestiu a pele de tigre e correu para a estrada, saltando comicamente e balindo o tempo todo.
Os jovens o ridicularizaram e jogaram pedras e lixo. Ele ficou assim por três dias, e não conseguia comer nem beber, até que finalmente morreu uma morte miserável.

 Esse foi o castigo dos deuses por sua crueldade com os animais.


  1. Edo é o nome antigo de Tóquio.
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O amor recompensa um filho

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Cerca de duzentos anos atrás existia a cidade de Dor, na província de Mino, entre Inaba e Harima. Perto da cidade, vivia Tarni, um lenhador que tinha apenas um filho. Os dois eram muito pobres, e todos os dias eles iam até as montanhas para ganhar seu pão trabalhando duro.
Enquanto eles fossem ambos saudáveis e fortes, eles conseguiram continuar ganhando a vida. Mas o pai estava envelhecendo, e sofria de artrite. Logo, seu filho teria que ir para a floresta sozinho, enquanto ele ficava em casa. Para o jovem, isso não era um grande problema, porque ele era forte e vigoroso. Ele se esforçava muito, e ficava feliz sempre que ganhava algumas moedas a mais do que suas necessidades diárias exigiam, porque então ele podia comprar para o pai uma garrafa de saquê. O velho gostava muito de saquê.
 Quando o inverno chegou, o frio foi forte, e a neve cobriu os campos até a primavera, tornando as estradas intransitáveis, de modo que o jovem lenhador conseguia apenas pouco dinheiro, e não podia comprar saquê para o pai. Além disso, é claro que ele estava muito triste, e rezava muito para os deuses acabarem com aquele inverno terrível ou enviar-lhes alguma ajuda.
 Um dia, ele só conseguiu levar uma pequena quantidade de madeira para a cidade. Os lucros não foram suficientes nem para as necessidades básicas, muito menos para uma garrafa de saquê para seu pai. Embora ele quisesse pedir emprestado o dinheiro para comprar o saquê, ele pensou no provérbio “é melhor comprar do que emprestar”. Então ele foi para casa, e durante a viagem pensou sobre como fazer seu pai ficar mais forte.
Quando ele chegou ao pé do Monte Tagiyama, ele se sentou para descansar um pouco, mas ele não conseguiu descansar das suas preocupações, então ele rezou com fervor. De repente, ele ouviu um ruído estranho, e vapor se elevou do lado da montanha e um odor estranho, parecido com o de saquê aquecido, tomou o ar. O cansaço do jovem logo desapareceu, ele levantou-se de um salto e correu para o lugar de onde o vapor subia. E o que ele encontrou lá? Que milagre se apresentou diante dos seus olhos? Onde antes havia rochas nuas, agora jorrava uma fonte. O jovem pegou um pouco de água na mão. Ela estava morna. Ele a experimentou.
Que gosto estranho! Ele nunca experimentara nada como aquilo antes. – Este é um presente seu, oh, deuses! – Ele exclamou. Ele encheu sua garrafa de água com o estranho presente, e depois de dizer uma prece de agradecimento, continuou sua viagem. Alegremente, ele correu para casa, onde serviu aquela maravilhosa poção para seu pai. Era realmente uma poção miraculosa, pois o velho sentiu seu corpo ficar mais forte. No dia seguinte, ele já estava tão forte que se levantou e, apoiando-se no filho, pediu que ele o levasse até a fonte. – Será que este presente dos deuses é bom apenas para beber? – ele perguntou ao filho quando chegaram lá. O pai banhou-se na fonte, e quando fez isso, percebeu que o banho havia feito a dor em seus membros melhorar. Eles iam à fonte todos os dias, e depois de pouco tempo o velho estava tão recuperado que ele podia voltar a ir com o filho para a floresta e ajudar o trabalho.
 Por isso, eles se libertaram da ansiedade, e podiam viver e trabalhar felizes e satisfeitos. É claro que a notícia desse milagre se espalhou rapidamente, e pessoas de toda a região trouxeram os doentes e enfermos até a fonte, em busca de uma cura para seu sofrimento. Dizia-se que até mesmo o imperador viera visitar a fonte curadora. A fonte – uma fonte mineral – mantém seus poderes de cura até hoje.
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A ostra

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No fundo do mar vivia uma ostra. Como todas as ostras, essa tinha uma concha forte, que se fechava firmemente quando ela ouvia um ruído suspeito.
Por isso, ela achava que nada de mal podia lhe acontecer. Os peixes do mar a invejavam, e assim um deles lhe disse – Senhora ostra, você tem uma linda fortaleza, e quando ela se fecha, você fica segura e pode assim viver uma vida muito boa! – Não completamente, disse a ostra, com orgulho e ao mesmo tempo humildade. – Eu estou segura dos perigos externos, mas não vivo sem dificuldades, porque esta é uma vida muito maçante.
 Nesse momento, a água se agitou, e os peixes ficaram muito alarmados. Rapidamente, a ostra fechou sua concha e pensou “Oh, os pobres peixes! De qualquer modo, uma rede ou vara de pescar não pode me capturar.
Estou feliz por estar segura em minha concha!
Sim, sim, deve-se sempre ter cuidado!”. A ostra continuou calma, e depois que o ruído se acalmou, ela quis ver o que havia acontecido, e abriu cuidadosamente a concha, mas para seu terror ela se viu dentro de um pote, ao lado de uma placa que dizia: “Ostras, 2 sen”.

 Ela estava na loja de um peixeiro. Com isso você deve aprender a não se deixar enganar pela falsa segurança, e a nunca fechar os olhos para um perigo.
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Os sapos de Osaka e Kyoto

Posted by : Redação

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Em Kyoto vivia um sapo, muito rico e erudito. Um dia, ele ouviu falar de Osaka e das obras de arte locais, e desejou vê-las. 
Um belo dia de primavera, ele partiu para Osaka a pé, porque se pode ver muito mais viajando a pé, e aprender muito. Ele caminhou até Osaka porque queria percorrer a pé o caminho até Myosin e Yamasaki, de onde ele poderia ver a famosa montanha, Tennoyama. Como Tennoyama fica entre Kyoto e Osaka, o sapo decidiu escalar a montanha, uma tarefa muito difícil, então ele parou para descansar depois de atingir o topo.
 Mas em Osaka também vivia um sapo, que desejava conhecer Kyoto, e, no topo do Tennoyama, os dois sapos se encontraram. Os dois se cumprimentaram, e conversaram sobre suas viagens. Finalmente, eles disseram – Aqui, completamos apenas metade da nossa jornada, e a outra metade ainda está por vir. Mas nossas pernas e quadris estão doendo.
Daqui, se ficarmos na ponta dos pés, podemos os dois ver os lugares para onde queremos ir. Assim podemos evitar mais esforço e cansaço! E foi o que eles fizeram. O sapo de Osaka olhou para Kyoto. O sapo de Kyoto olhou para Osaka.
Cada um deles, na ponta dos pés, olhou atentamente para a cidade que eles queriam conhecer. Entretanto, os sapos têm os olhos no topo da cabeça (eles não pensaram nisso), então quando eles olharam para cima, seus olhos estavam apontados para trás.
Então, o sapo de Osaka não estava olhando para Kyoto, mas sim para Osaka, e o sapo de Kyoto estava na verdade olhando para Kyoto. Então, cada um dos sapos estava na verdade olhando para a cidade de onde viera. Quando viram o bastante, o sapo de Kyoto disse: – Ouvi dizer que Osaka era uma cidade das artes, mas vejo que não é nada diferente de Kyoto.
Já que elas são iguais, posso muito bem ir para casa! O sapo de Osaka disse, com um sorriso de zombeteiro: E eu ouvi dizer que a capital¹ era a cidade mais bela do país, como uma flor, mas agora vejo que ela é exatamente igual a Osaka. Também vou dar meia-volta e ir para casa! Eles se despediram e voltaram cada um para sua cidade natal. Podemos aprender com este exemplo o que é um falso julgamento. Como seus olhos não foram usados corretamente, eles não sabiam o que estavam vendo. Há muitas pessoas que são como esses sapos.

  1. De 794 a 1869, Kyoto foi a capital do Japão.
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Yakushi, o abade do monastério

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Na estrada para Osaka há um velho convento chamado Kei Nara, que hoje é conhecido como Nishi no Kiyo¹, embora seu nome real seja “Yakushi-ji”².
 Neste monastério havia um abade piedoso e temente a Deus, que tentava dar um bom exemplo com o modo que levava sua vida.
Por exemplo, ele não acumulava riquezas, mas distribuía presentes feitos no monastério para os pobres, e não guardava nenhum dinheiro para si mesmo. Ele esperava que quando chegasse o momento de sua morte, ele pudesse se tornar um servo no paraíso de Buda. Quando chegou a hora da sua morte, ele esperou resignadamente pelos mensageiros de Buda. Em vez dos mensageiros de Buda, o que chegou foi uma carruagem em chamas, puxada por todo tipo de fantasmas do inferno. O abade ficou profundamente chocado e perguntou o porquê daquilo, pois ele não sabia de nenhum mal que tivesse cometido. O mensageiro do inferno respondeu: – Muitos anos atrás, você tirou uma medida de arroz de propriedade do monastério, e ela ainda não foi devolvida.
Por causa do seu pecado, o inferno o espera! O abade pediu mais tempo para poder pagar essa dívida há muito esquecida. Seu pedido foi atendido.
 O abade chamou então todos os monges e estudantes do monastério para perto de si e contou a eles do perigo que corria por causa de uma há muito esquecida medida de arroz. Ele disse: – Peguem tudo o que tenho, vendam tudo e deem o dinheiro arrecadado para o monastério, para que minha dívida seja paga e eu possa morrer em paz. Peço a todos vocês, nunca deixem esta doutrina abandonar seus corações, porque se eu tenho que enfrentar o inferno por causa de uma única medida de arroz, qualquer um pode ter cometido uma ofensa sem saber. Este é um bom monastério. A boa vida se aproxima. Depois de dizer isso, ele se reclinou, e murmurou:
 – O mensageiro da paz se aproxima! Namida Butsu. Santo Buda me ajude! Um sorriso iluminou seu rosto e ele morreu, e entrou no paraíso como servo fiel do Senhor.

  1. Abrigo do Oeste, mundo de Nishi. 
 2. Yakushi = nome do deus da cura. Ji = monastério. Esse monastério ficava antes na parte oeste da cidade. A localização do monastério agora é fora da cidade, perto da estrada.
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A inveja trás sofrimento

Posted by : Redação

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Isso aconteceu há muito, muito tempo! Em uma pequena vila vivia um velho. A vida inteira, ele fora piedoso e bom. Portanto, todos o amavam, embora ele fosse pobre.
Na casa em frente à desse bom velho vivia outro velho, muito rico, mas mau e ambicioso, que queria possuir tudo o que via. O homem bom não tinha filhos nem família, e vivia sozinho, mas ele queria ter em casa alguém que ele pudesse amar e que também o amasse. Então, ele conseguiu um adorável cachorrinho. Ele o criou com carinho, e o cômico animal retribuiu todo o amor do seu dono, era muito leal e devotado, estava sempre ao lado do seu dono. Um dia, durante uma caminhada, o homem e o cachorro chegaram a um campo abandonado.
De repente, o cachorro começou a latir, correu para o ponto no centro do campo e começou a arranhar seu mestre, implorando com os olhos, como se dissesse “Aqui, cave aqui, há algo para você aqui”. O velho conhecia bem seu cachorro, então voltou para casa, trouxe uma pá e cavou no ponto que o cachorro indicou.
Depois de cavar um pouco, ele encontrou uma pilha de ouro no buraco! Ele ficou muito feliz por encontrar o dinheiro. Ele levou o dinheiro para casa e doou uma grande parte dele para os pobres. Mesmo sendo rico agora, ele continuou humilde e amigável como antes, e ele e o cachorro se davam melhor do que antes. O vizinho mau invejou a felicidade do velho, e, como sabia como ele havia conseguido sua fortuna, tentou atrair o cachorro para sua casa.
Mas o cachorro não se deixava enganar, e continuou junto ao seu mestre. Como o invejoso não conseguira nada com a astúcia, ele apelou para a violência. Um dia, quando o cachorro dormia em frente de casa, o invejoso o cap- turou e arrastou para sua casa, o amarrou com uma corda, e o levou até o campo, para que ele lhe mostrasse outro tesouro escondido.
O cachorro indicou muitos lugares diferentes, mas sempre que o homem tentava cavar, era apenas solo duro, e ele não encontrava nada além de lixo fedorento. Então ele ficou furioso, matou o cachorro com um machado e jogou o corpo no jardim do homem bom. O velho ficou muito triste, e enterrou o cachorro sob uma árvore no jardim, e, embora soubesse quem era o culpado, suportou tudo em silêncio, e não exigiu reparação pelo crime cometido. Pouco tempo depois, o cachorro apareceu-lhe em sonho uma noite e lhe disse: – Não chore mais, minha morte vai lhe trazer uma sorte ainda maior se você seguir meus conselhos.
Corte a árvore sob a qual fui enterrado e com a madeira, faça um pote e um pilão de arroz! O velho fez como instruído, e quando usou o pilão, que milagre! Arroz começou a aparecer dentro do pote, e ele nunca mais ficou sem bolinhos de arroz! O velho parou para dançar de alegria! Ele estava felicíssimo, porque ele nunca mais precisaria comprar arroz, e podia também abastecer os pobres da vila com alimento. Mas o vizinho mau viu sua felicidade, e estava determinado a ter o pilão. Então ele foi até a casa do velho e pediu o pote e pilão emprestado, para devolver no dia seguinte.
O velho era bondoso o bastante para acreditar, e emprestou o pilão. O invejoso dançou alegremente enquanto usava o pilão para encher sua casa de arroz. Mas, que horror! Em vez de arroz, a casa ficou cheia de sujeira e um fedor nauseabundo. O invejoso pegou então um machado e cortou o pote e o pilão em pedaços, e os queimou. Mas nem mesmo essa maldade impediu os conselhos do fantasma do cachorro. Em um sonho, ele disse ao velho para guardar as cinzas do pilão em um pote.
 Um dia, no fim do outono, quando todas as árvores e arbustos haviam perdido as folhas, o daimyo¹ veio até a vila com seus seguidores, e viu o homem bom no lado da estrada. O velho subiu em uma cerejeira perto da estrada, tomou um pouco das cinzas e as espalhou. O daimyo e seu séquito ficaram a princípio petrificados e furiosos, e quiseram prender o velho. Mas que deleite os tomou! Tudo o que as cinzas tocaram se tornou verde e floresceu, os galhos ficaram cheios de folhas e flores, e, ao invés de cinzas, uma fina chuva e botões de cerejeira caíram sobre o daimyo e seu séquito.
Todos gritaram de alegria por ver tal milagre, e, em vez de castigar o velho, eles o abraçaram e elogiaram o milagre.
 O daimyo ficou tocado por tanta consideração e deu ao velho ricos presentes, e ouviu a história do adorável cachorro. O vizinho mau quase explodiu de inveja e raiva, mas mesmo assim ele foi até o homem bom e perguntou se ele ainda tinha um pouco das cinzas. O velho lhe deu um pouco do que ainda restava. Quando o homem mau soube que o daimyo e seu séquito estavam indo embora pelo mesmo caminho, ele correu para subir uma árvore com as cinzas.
Quando o daimyo passou sob a árvore, o homem jogou as cinzas sobre ele, mas não se viu nenhuma folha nem flor, as cinzas continuaram sendo cinzas, e caíram sobre os olhos, ouvidos, narizes e bocas do daimyo e seu séquito, e todos ficaram furiosos e rapidamente prenderam o homem, colocaram-no a ferros e o jogaram na prisão, onde ele morreu depois de sofrer um longo tempo. É isso que acontece com aqueles que preferem usurpar a boa fortuna de um vizinho ao invés de se alegrar com sua boa sorte.

  1. Senhor feudal (Nota do tradutor para o português)
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Se você dançar com duendes!

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Em tempos antigos vivia um fazendeiro que tinha um tumor do tamanho de uma pera na bochecha direita. Um dia, quando foi até a floresta buscar lenha, ele foi surpreendido por uma tempestade e se abrigou dentro do oco de uma árvore, onde ele pode se proteger da chuva.

Quando a tempestade finalmente parou, já era noite, e o fazendeiro não conseguiu encontrar o caminho para casa, então ficou no oco da árvore, esperando que amanhecesse. Era muito solitário e assustador na floresta, e o homem não conseguia dormir de medo e ansiedade.
Por volta da meia-noite, ele ouviu vozes e risos. Surpreso, ele colocou a cabeça para fora e viu diversos duendes, de muitas formas diferentes e rostos estranhos. Os duendes estavam perto da árvore do fazendeiro, se sentaram no tronco e começaram a beber.
Quando beberam o bastante, começaram a cantar e dançar. O fazendeiro, que gostava de dançar e beber bom saquê, não pode ficar mais tempo escondido, pois o prazer dos duendes o contagiara. Então ele saiu do esconderijo e se aproximou dos dançarinos, que ficaram alarmados quando o viram e fizeram menção de fugir. Ele gritou para eles: – Fiquem, vou lhes mostrar como dançar melhor – e imediatamente ele começou a dançar, girando. Os duendes ficaram contentes com essa dança e tentaram imitá-lo, e lhe deram comida e bebida. Quanta alegria! A festa durou até de manhã. Então os duendes disseram – Você nos alegrou com sua companhia.
Por favor, volte amanhã à noite! O fazendeiro disse que voltaria, mas os duendes queriam um juramento de que ele o faria. – Sabe – um dos duendes lhe disse – podemos tirar seu tumor, e você pode tê-lo volta amanhã quando voltar.
 Dizendo isso, o duende tocou a bochecha do fazendeiro e tirou o tumor. Então eles correram para longe, rindo e gritando para que ele não se esquecesse de voltar na noite seguinte. O fazendeiro tocou seu rosto, que estava liso e sem nenhum traço do tumor, nem mesmo uma cicatriz, e fez uma nota mental para ficar longe daquele lugar e evitar os duendes, pois ele não queria o tumor de volta. Assim, ele voltou para casa satisfeito, e todos os aldeões que ele encontrou ficaram surpresos em ver que ele havia perdido o tumor sem deixar nenhum traço. Então ele contou como os duendes gostaram da sua dança, mas não disse nada sobre o fato de eles terem tirado o tumor como garantia de que ele voltaria. Nessa mesma vila vivia outro homem com um tumor no rosto, mas o seu ficava na bochecha esquerda. Quando soube da felicidade do seu vizinho, ele também quis se livrar do seu tumor e descobriu exatamente onde o primeiro fazendeiro havia encontrado os duendes. À noite ele foi até o local onde os duendes se reuniam.
Mas ele só queria ouvir o que eles diziam, então se escondeu na mesma cavidade onde o outro fazendeiro se escondera antes. Os duendes não falaram muito, mas pareciam estar esperando alguém, até que um deles finalmente disse – Parece que nosso amigo de ontem não virá hoje! Quando o homem ouviu isso, começou a dançar e gritou: – Aqui estou eu! Todos se alegraram, deram-lhe uma bebida e disseram para que ele mostrasse sua arte de novo. Mas ele era um mau dançarino, e não aguentava beber muito saquê, então sua dança era desajeitada e rígida. Os duendes não acharam divertido ver o homem dançar, e gritaram: – Você não está dançando tão bem quanto ontem, e hoje sua companhia não nos agrada.
Vá embora e nunca volte aqui, não queremos nem nos lembrar de você. Pegue seu tumor de volta, tome! Um dos duendes pegou algo no bolso e o jogou no rosto surpreso do homem, atingindo-o na bochecha direita. Então eles o empurraram para longe e ele teve que voltar para casa com dois tumores. É isso que acontece quando sua mente invejosa deseja ter a mesma sorte que outros tiveram!
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A Raposa Branca

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Há muitos anos, o filho de um príncipe foi caçar na floresta de Shimoda¹. Ele teve a rara boa fortuna de capturar uma raposa fêmea, branca como a neve.
Ele queria matar o animal, mas Yasuna, o filho do zelador de um templo que tomara parte da caçada, pediu que ela lhe fosse dada de presente, pois sabia que raposas de pelo branco têm poderes mágicos, vivem por milhares de anos, e podem mudar de forma.
Mas o filho do príncipe queria a bela pele do animal para si, e ordenou aos seus homens que matassem a raposa. Yasuna tirou a raposa dos caçadores à força, e, sangrando de muitos ferimentos, fugiu com o animal. Depois de correr por algum tempo, ele caiu exausto e soltou a raposa, que desapareceu rapidamente entre as árvores.
Misteriosamente, sua noiva, Kuzunoha, apareceu de repente. Quando ela viu que ele estava ferido, o ajudou a voltar para casa. Yasuna estava surpreso em ver sua noiva ali, pois ele achava que ela estava com seus pais, que moravam na província de Kumamoto², que ficava longe de Shimoda, e por isso perguntou como ela chegara ali, e como o encontrara na floresta. Kuzunoha respondeu: – Não me pergunte nada ainda. Não é hora de explicar.
 No momento certo, você saberá de tudo! Isso acalmou Yasuna, que estava feliz por ter a noiva ao seu lado. Eles se casaram alguns dias depois. Eles viveram felizes por anos depois disso, e Kuzunoha lhe deu um lindo filho, que os abençoou ainda mais. Ela batizou o menino de Dokyo. Um dia, Yasuna foi até a floresta, e voltou tarde da noite. Quando ele chegou à porta de casa, ficou muito surpreso em encontrar sua esposa seus pais conversando, muito agitados.
Ele aproximou, os saudou, e perguntou por que eles ficaram do lado de fora em vez de entrar na casa. Seu sogro, entretanto, perguntou com raiva por que ele não procurara sua noiva por tantos anos, e agora estava vivendo com outra mulher. Yasuna não sabia o que dizer, e ficou ainda mais surpreso quando sua noiva fez a mesma acusação.
Ele abriu a porta da casa e convidou todos a entrarem. – Podemos conversar mais aqui dentro, para que eu possa entender suas acusações! Aqui na rua não é lugar para isso – ele disse, e fez menção de entrar, mas parou, porque sua esposa estava sentada na sala, costurando! E aqui fora, também estava sua esposa, mas que dizia, entretanto, não ser sua esposa, mas sua noiva!
Quem era a Kuzunoha real, e quem era a falsa? Ele fechou a porta em completo silêncio, deu um passo para trás e disse: – Esperem aqui um minuto, eu já volto! Ele então entrou na casa, cumprimentou a esposa e lhe disse: – Seus pais chegaram, prepare-se para recebê-los!
Voltaremos em uma hora! Depois que a mulher prometeu comprar o que houvesse de melhor para o jantar, Yasuna voltou para os sogros e os convidou para uma caminhada, pois depois de uma hora ele os traria de volta. No caminho, ele contou aos sogros que a mulher na casa era na verdade sua filha Kuzunoha, sua noiva. Yasuna contou sobre sua aventura e sobre seu casamento feliz. Durante a conversa, passou-se uma hora, e eles retornaram à casa, mas a mulher não estava mais lá, só a criança, deitada na cama e chorando.
Foi Kuzunoha que pegou o menino no colo e brincou com ele. Então o menino contou a ela que tivera um sonho muito estranho, e ela perguntou qual fora. Ele disse: – Antes, quando eu estava dormindo, você me disse que não era humana, mas sim uma raposa encantada.
Disse que Papai salvou sua vida, e que por isso você assumiu for- ma humana e apareceu diante dele para agradecer. Mas que agora a noiva verdadeira dele voltou e você tinha que ir embora. Que eu devia dizer isso ao Papai, e que devia ficar e ser bom e valente. Não foi um sonho estúpido! Todos olharam surpresos, mas agora o mistério fora esclarecido. A Kuzunoha real continuou na casa como esposa leal, e educou o filho de Yasuna, Dokyo, para ser um homem inteligente e valente. O filho da raposa branca.

  1. Shimoda fica na península de Izu, perto de Yokohama. 
 2. Kumamoto é uma cidade e província no sul do Japão, perto de Nagasaki.
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A Mulher da Neve

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Havia dois lenhadores: um se chamava Nishikaze, já idoso, e o outro, Teramichi, ainda era jovem. Os dois viviam na mesma vila, e iam juntos para a floresta todos os dias, cortar lenha.
Para chegar à floresta, eles tinham que cruzar um grande rio, no qual havia uma balsa. Um dia, quando terminaram o trabalho mais tarde do que de costume, eles foram surpreendidos por uma terrível nevasca. Eles correram para a balsa, mas ficaram desapontados quando viram que o barqueiro já estava do outro lado do rio, pois ele não poderia retornar até que a tempestade passasse, porque ela havia deixado o rio muito agitado.
Como eles não tinham abrigo e não podiam esperar pelo fim da tempestade, decidiram ir até uma cabana que ficava ali perto e esperar pelo retorno da balsa.
Dito e feito! Eles chegaram à cabana, se jogaram no chão depois de fechar bem a porta e as janelas, e ficaram ouvindo o rugi- do da tempestade. O homem mais velho, cansado por causa do dia de trabalho, logo caiu no sono, mas o mais jovem não conseguia dormir, pois o uivo da tempestade era assustador, e toda a cabana tremia.
 De repente, ele ouviu um som terrível, como se a tempestade estivesse golpeando a casa, a porta se abriu e um vento gelado e uma grande nuvem de neve en- traram. Teramichi olhou para a nuvem, horrorizado, porque ela estava se movendo de um lado para outro, e finalmente, assumiu forma humana, a forma de uma mulher usando um quimono branco.
Ela se voltou para o lugar onde Nishikaze dormia, inclinou-se sobre o velho, e de sua boca saiu uma névoa branca que se espalhou sobre o rosto do homem. Então, ela se levantou e caminhou na direção de Teramichi, que não conseguia mover nem um músculo, olhos arregalados de pavor. Ela se aproximou dele, aproximou o rosto do dele, esperou um pouco para que ele se acalmasse, então disse suavemente, sua voz doce e seu rosto amigável – Eu matei seu amigo, como mato tudo ao meu alcance.
Você deveria compartilhar o destino dele, mas você não é ainda um homem, você não viveu ainda. Então, será poupado! Mas você só estará protegido enquanto mantiver silêncio sobre o que aconteceu aqui. Nem uma palavra sobre o que se passou aqui, para ninguém, seu pai, sua mãe, sua esposa e filhos, ninguém, ouviu, ninguém deve saber o que aconteceu aqui, ou eu o encontrarei na mesma hora. Lembre-se disso! Depois disso, ela deslizou suavemente para longe e desapareceu pela porta.
 O jovem recuperou os movimentos, levantou-se de um salto, correu para a porta e a trancou. Então ele se voltou para o companheiro e o chamou, mas ele não se moveu, ele estava duro e rígido, estava morto, sua face transfigurada em um sorriso feliz. Afinal a tempestade terminou e o dia amanheceu, e o barqueiro retornou e encontrou os dois na cabana, e achou que os dois estivessem mortos, congelados, mas quando ele tocou Teramichi, este deu um longo suspiro, abriu os olhos e logo acordou, enquanto Nishikaze continuou morto.
 O jovem voltou ao trabalho, e todos os dias caminhava pela floresta. Ele não contou a ninguém sobre a aventura da mulher da neve. Dois anos se passaram. Uma noite, depois de um dia de trabalho, ele estava caminhando para casa quando encontrou uma linda moça, com quem começou a conversar. A moça disse a ele que era órfã e estava migrando para uma vila distante para morar com alguns parentes. Quando eles chegaram perto da vila onde Teramichi morava, ele disse à moça: – Já está de noite, e frio, e as estradas não são seguras. Venha até minha casa, e me acompanhe no modesto jantar que minha mãe preparou! Depois, descanse o quanto quiser.
Você pode continuar sua viagem amanhã de manhã! A moça, que se chamava “Yuki”, aceitou sua oferta, e acompanhou o jovem até sua casa, onde sua mãe estava preparando o jantar. Na manhã seguinte, quando acordou, ela quis retomar a viagem. A mãe de Teramichi perguntou se ela não poderia ficar mais alguns dias, porque ela já estava velha e gostaria de descansar um pouco. Como Teramichi e a moça haviam se apaixonado, ela ficou na casa. Yuki e Teramichi declararam seu amor e se casaram. Yuki era uma boa esposa, e cuidou da mãe do seu marido até sua morte. De- pois, se devotou apenas ao marido e aos filhos. Ao longo dos anos, ela teve dez filhos. As crianças floresceram, prosperaram e cresceram, e nenhuma doença ou infortúnio perturbou a paz e felicidade daquele casamento, que todos diziam ser o mais feliz da região. Milagrosamente, Yuki parecia sempre jovem. Ela continuava bela e ativa, e não era possível perceber nela sinais de envelhecimento. Assim os anos se passaram, até que uma noite de inverno o casal conversava, enquanto uma terrível tempestade de neve castigava a região.
O homem tremia, pensando em sua experiência na cabana do barqueiro, quando olhou para sua esposa e pensou que ela parecia mais bela do que nunca, e, de repente, percebeu em seu rosto uma semelhança com a mulher da neve.
Essa semelhança ficou ainda mais evidente, de tal modo que ele não pôde evitar gritar – Não, você é linda! Essas palavras chamaram a atenção de Yuki e ela perguntou o que ele queria dizer. Sem hesitar, como em um sonho, ele contou sobre sua aventura com a mulher da neve e concluiu a história dizendo: – Ela era linda, mas de um modo assustador.
Você, é claro, é humanamente linda! Yuki se levantou, assustando-o, pois ele viu o rosto dela se iluminar, suas roupas se tornarem de um branco brilhante, e ele finalmente percebeu que ela era a mulher da neve. E caiu de joelhos, estendeu os braços, e gritou – Sim, é você! Perdoe-me, por favor! Mas ela balançou a cabeça e gritou: – Sim, seu eu! Como pôde não manter a boca fechada depois de ter ficado em silêncio tanto tempo? Eu poderia matá-lo, um sopro meu congelaria seus membros, e isso seria uma punição justa, pois você destruiu não só a sua, mas também a minha felicidade! Pois entenda – sua voz assumiu um tom mais gentil – eu vi naquela cabana que você seria um homem belo, você parecia tão cansado e indefeso contra mim, e eu senti o desejo nascer em mim, eu quis sentir a felicidade humana em vez de sempre destruí-la. Sim, eu o amei, e me aproximei de você em forma humana, e vivi anos de felicidade ao seu lado.
Agora, você destruiu tudo isso, e devo voltar para meu reino congelado. E você? Eu me lembro da felicidade que vivi, e as pobres crianças, dormindo. Não vou tirar também o pai delas. Viva, e seja um bom pai para nossos filhos, e procure pagar pelo erro que cometeu hoje! Com isso, ela o beijou na testa, um beijo frio, mas que queimou como fogo.
A porta se abriu, um golpe de vento entrou pela casa e levou a mulher da neve, deixando o homem sozinho. A partir desse dia, ele viveu apenas para seus filhos, tornou-se uma pessoa honesta e trabalhadora, e sempre que uma tempestade de neve rugia, ele entendeu que aquilo também era a alma da sua "Yuki-onna"¹. Dizem que quando ele morreu, seu corpo foi encontrado congelado.


1. Yuki-onna significa “Mulher da Neve”. “Yuki” = neve (é também um nome feminino comum), e “onna” = mulher (Nota do tradutor para o português).
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