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Eco e Narciso

Posted by : Redação

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— Não agüento mais essa tagarela da Eco — segredou um dia a deusa dos bosques a uma das suas ninfas.
De fato, não era só Diana que não suportava mais o falatório da ninfa nenhuma das suas amigas podia mais vê-la pela frente sem fugir de sua língua incansável. Apesar de ser tão bela quanto a mais bela das ninfas, Eco tinha a mania incontrolável de falar pelos cotovelos.
 — Por que não se cala de vez em quando? — diziam-lhe as amigas.
— Homem algum suportará uma mulher que fale sem parar, mesmo sendo tão bela como você.
Mas Eco não se corrigia e prosseguia falando, até a exaustão. Um dia, porém, meteu-se com Juno, a esposa de Júpiter, e isto foi a sua ruína.
O deus dos deuses havia dado mais uma de suas escapadas, e Juno andava por perto, farejando o seu rastro. A própria Eco já gozara dos favores de Júpiter e prometera ocultar, a pedido do grande deus, os amores que ele agora mantinha com outra ninfa.
A deusa dos bosques não queria saber de fofocas e por isso fazia vistas grossas ao namoro. Afinal, meter-se com o deus supremo podia trazer-lhe problemas funestos. Certo dia, porém, Juno, tomada pela cólera, chegou quase a tempo de flagrar o esposo nos braços da tal ninfa.
Eco, após alertar o casal, dissera a Júpiter:
— Deixem comigo, eu a distrairei enquanto vocês escapam. E assim fez, realmente.
Tão logo Juno chegou, Eco apoderou-se dela com uma longa conversa, repleta de digressões e subterfúgios. Mas Juno, acostumada as desculpas esfarrapadas do marido, compreendeu logo a intenção da ninfa, que se achava mais esperta do que realmente era:
— Cale a boca! — disse, empurrando-a. — Pensa que me engana com sua conversa mole, sua atrevida?
Eco, assustada e com as mãos da furiosa deusa impressas nos ombros, calou-se. Mas era tarde demais.
— Porque pretendeu me fazer de boba a punirei, fazendo com que nunca mais possa dizer nada a não ser as últimas palavras que escutar — amaldiçoou Juno.
— ... as últimas palavras que escutar... —repetiu Eco, em cuja boca o feitiço já começava a atuar.
 — Ai está o que ganhou com seu atrevimento — disse Juno, vingada. — Adeus, idiota!
 —... adeus, idiota... -repetiu Eco e tapou rapidamente a boca com as duas mãos.
A notícia da maldição de Juno espalhou-se ligeiro por entre as ninfas:
— Bem-feito, sua ordinária — disse um dia uma rival a Eco.
— ... sua ordinária... — respondeu Eco, que ao menos podia, às vezes, responder à altura os desaforos que escutava.
Assim vagou a ninfa por entre os bosques durante muitos anos, até que um dia, caminhando pelas montanhas, encontrou Narciso, um jovem caçador que havia se extraviado de seus colegas.
Eco, ao colocar os olhos sobre a beleza do jovem, tomou-se imediatamente de amores por ele. Seguiu-o por um longo tempo imaginando qual o melhor meio de se aproximar dele, até que, ao pisar num galho solto, despertou finalmente a atenção do moço.
— O que foi isto? — perguntou o rapaz. — Há por aqui mais alguém?
— ... mais alguém... — repetiu Eco.
— Chegue mais perto — disse Narciso, sem ver ninguém.
— ... mais perto... — disse Eco e mostrou-se, finalmente, tendo antes o cuidado de ajeitar os cabelos. Decepcionado por ver que não era nenhum de seus companheiros, Narciso simplesmente perguntou:
— Diga-me, ninfa, como faço para sair daqui?
— ... sair daqui — replicou Eco, agoniada, pois a última coisa que desejava era que ele fosse embora.
Não podendo expressar com suas próprias palavras o seu amor, sem que antes o estranho o declarasse para ela, a ninfa desesperou-se e resolveu tomar uma medida drástica. Estendendo os braços, lançou-se para ele num frenético abraço. "Talvez ele entenda os meus sentimentos", pensou.
— O que está fazendo? — exclamou Narciso, atirando-a ao solo com um empurrão. — Não quero o seu amor!
— ... quero o seu amor... — repetiu a ninfa, vendo Narciso dar-lhe as costas e escapar rapidamente por uma vereda do bosque.
Mas em matéria de amor Eco era um desastre. Consciente de seu fracasso, a pobre ninfa recolheu-se para o interior de uma caverna no bosque. Ali, após enfadar durante longos anos as paredes da gruta com seus lamentos e lágrimas, viu seu corpo, aos poucos, dissolver-se na escuridão da caverna, até passar a fazer parte dela.
Da pobre ninfa só restou sua voz cava e profunda, a repetir sempre as últimas palavras que os passantes pronunciassem. Narciso prosseguiu com suas caçadas e a tratar com rudeza as ninfas que o perseguiam. O jovem caçador era pretensioso e arrogante, e mulher alguma parecia bastar à sua vaidade. Inclusive corria uma lenda que dizia que quando Narciso nasceu, um oráculo teria anunciado que ele poderia viver muito tempo, se jamais enxergasse a si próprio.
Seu pai, por via das dúvidas, quebrou todos os espelhos da casa. Temendo que o filho procurasse o próprio reflexo em alguma outra parte, adquiriu um espelho mágico, no qual Narciso via sua imagem sempre distorcida. Mesmo assim, sua beleza era tal que o arrogante rapaz não desgrudava do bendito espelho.
— Como sou lindo... — dizia, sempre que tinha o espelho nas mãos.
Um dia, porém, durante uma caçada mais agitada, o espelho que trazia sempre em seu bolso partiu-se. Juntando os cacos pôde ver apenas, com lágrimas nos olhos, o reflexo estilhaçado da própria beleza.
— Que lindos pedaços! — ainda se admirou, numa vaidade residual e fragmentária.
Abalado e cansado da caça, Narciso meteu-se para dentro das profundezas do bosque, próximo da gruta onde Eco vivia. Ah perto havia um pequeno lago. absolutamente deserto e silencioso. Sobre suas plácidas águas nem um único cisne deslizava.
As árvores, nas margens, inclinavam-se para longe do espelho cristalino de suas águas, como que tentando escapar de seu intenso reflexo. Narciso, chegando à margem, debruçou-se para tomar alguns goles I límpida água. Ao fazê-lo, percebeu que alguém o observava de dentro da água. Fascinado com a beleza daquele semblante inigualavelmente belo, Narciso teve de admitir que era mais perfeito ainda do que o seu próprio rosto.
— Quem é você, rosto adorável, que me contempla deste jeito? — perguntou à efígie encantadoramente bela, que o mirava apaixonadamente nos olhos.
O rosto lindo, porém, não lhe respondia, nem a esta nem às outras solicitações. Por várias vezes Narciso tentou, sem sucesso, seduzir aquele rosto magnífico. Um dia debruçou-se a ponto de encostar os lábios à liquefeita boca da imagem. Porém, ao fazê-lo, viu o belo estranho turvar-se, o que o encheu de pânico.
— Não, não fuja! — exclamou, assustado, descolando rapidamente os lábios da água, o que fez a imagem retomar, aos poucos, a sua anterior nitidez.
— Por que rejeita meus beijos? Pela primeira vez Narciso descobria o que era a dor do amor não-correspondido. Apesar do jovem erguer cada vez mais a voz, Eco, que ouvia tudo, excepcionalmente não lhe repetia as últimas palavras.
Vítima da crueldade de Narciso, gozava agora, secretamente, a sua vingança. O único ruído que escapava da caverna era um riso baixinho, que o vento produzia ao passar pelas fendas das pedras.
O jovem caçador foi perdendo a sua cor. Suas faces murchavam, seu cabelo crescia desmesuradamente — a ponto da franja cair-lhe pelos olhos — e seu nariz, perfeitamente aquilino, apresentava uma coriza continuamente a escorrer.
Mas nada disso era o bastante para fazer com que ele deixasse de amar aquele rosto magnificamente belo. Assim foi definhando lentamente o pobre Narciso, às margens do lago. Sem poder consumar o seu amor, acabou se transformando numa bela flor roxa de folhas brancas, sempre debruçada sobre o leito das águas.
Sua sombra infeliz embarcou no mesmo dia na barca de Caronte, atravessando o Estige rumo ao país das trevas. Mas nem o severo barqueiro pôde impedi-lo de, enquanto fazia a travessia, reclinar-se outra vez para mirar-se nas águas do rio infernal. 
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Dafne e Apolo - Mitologia Grega

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Apolo era considerado um ás da pontaria, desde que abatera a serpente Tifão, a fera que perseguira sua mãe, Latona, quando o deus era ainda criança. Um dia Apolo caminhava pela estrada que margeava um grande bosque, quando se encontrou com Cupido.
O jovem deus, filho de Vênus, estava treinando a sua pontaria, solitariamente, em cima de uma pedra. Sem ser notado, Apolo parou para observar a postura do jovem. Com um dos pés escorado sobre uma saliência da rocha, o deus do amor procurava ganhar o máximo de equilíbrio para assestar com perfeição a pontaria.
Seu braço esticado, que segurava o arco, era firme sem ser demasiado musculoso; o outro, encolhido, segurando a flecha, tinha o cotovelo apontado para suas costelas, enrijecendo o seu bíceps; todo o conjunto, desde o porte até a dignidade dos gestos, demonstrava grande elegância, e mesmo os músculos das pernas pareciam distendidos, como a corda presa às duas extremidades do arco.
 Apolo não conseguiu deixar de sentir uma certa inveja diante da graça do seu involuntário rival. Não podendo mais se conter, saiu das sombras e revelou ao deus do amor a sua presença.
— Olá, jovem arqueiro. Treinando novamente a sua pontaria?
— disse Apolo, pondo um indisfarçado tom de ironia na voz.
— Sim — disse Cupido, sem virar o rosto para o outro.
— Quer treinar um pouco, também? Apolo, imaginando que o outro debochava dele, reagiu com inesperada rudeza:
— Ora, moleque, e quem vai me ensinar alguma coisa? Você?
Cupido, guardando suas setas, já se preparava para se retirar, quando Apolo o provocou novamente:
— Vamos, treine, treine sempre, garotinho, e um dia chegará a meus pés! — disse o deus solar, com um riso aberto de triunfo.
Cupido, no entanto, revoltado com a presunção do deus, sacou de sua aljava duas flechas: uma de ouro e outra de chumbo. Seu plano era acertar em cheio o peito de Apolo, com a primeira flecha.
— Vamos provar agora, um pouco, da minha má pontaria! — disse o deus do amor, mirando o coração de Apolo.
Num segundo a seta partiu, assobiando ao vento e indo cravar-se no alvo com perfeita exatidão. Apolo, sem perceber o que atingira seu peito — pois as flechas do deus do amor tornam-se invisíveis assim que atingem as vítimas —, sentou-se ao solo, abatido por um langor nunca antes sentido. Mas Cupido ainda não estava satisfeito.
Por isso, enxergando Dafne, a filha do rio que se banhava no rio Peneu, mirou em seu coração a segunda flecha, a da ponta de chumbo, e a disparou. Enquanto a primeira seta provocava o amor, esta, endereçada a Dafne, provocava a repulsa. Assim, Cupido dava início à sua vingança.
— Divirta-se, agora! — disse Cupido, sumindo-se no céu com seu arco.
Apolo, após recuperar suas forças, ergueu-se e entrou no bosque, como que impelido por alguma atração irresistível. Tão logo atravessou as primeiras árvores, seus olhos caíram sobre a bela ninfa, que secava os cabelos, torcendo-os delicadamente com as mãos.
— Se são belos assim em desalinho, como não serão quando arrumados? -perguntou ele, já bobo de amor.
A ninfa, escutando a voz, voltou-se para o lugar de onde ela partira. Assustada ao ver que aquele homem de louros cabelos a observava atentamente, juntou suas vestes e saiu correndo, mata adentro. Apolo, num salto, ergueu-se também.
— Espere, maravilhosa ninfa, quero falar com você.
Nunca em sua vida Dafne havia sentido tamanha repulsa por alguém como sentia pelo majestoso deus solar. O pior e mais feio dos faunos não lhe parecia no momento mais odioso do que aquele homem que a perseguia com fúria.
— Afaste-se de mim! — gritava Dafne, enojada.
Apolo, acostumado a ser perseguido por todas as mulheres, via-se agora repelido de forma tão definitiva.
— Por que foge assim de mim, ninfa encantadora? — dizia, sem compreender.
Sem saber como agir diante de uma situação tão inusitada, o desnorteado deus pôs-se a falar de si, da sua beleza tão elogiada por todos, de seus dotes, suas glórias, seus tributos e as infinitas vantagens que Dafne teria em juntar-se a ele, o mais cobiçado dos deuses.
Mas o mais belo dos deuses desconhecia um pouco a mentalidade feminina, senão teria falado mais da bela deusa em vez de falar tanto de si próprio. Ao perceber, porém, que a corrida desenfreada da jovem acabaria por deixá-la extenuada, o deus gritou:
— Espere, diminua o seu passo que diminuirei também o meu!
A ninfa, reconhecendo a gentileza de seu perseguidor, diminuiu um pouco o ritmo. Apolo, no entanto, que diante da diminuição da distância vira aumentar os encantos da sua amada, acelerou involuntariamente o seu passo, renovando o terror na amedrontada Dafne.
 — Mas que canalha! — indignou-se a ninfa, tomando novo impulso para a corrida, mas já estava exausta e não era páreo para Apolo, o deus do astro que jamais se cansa de percorrer o Universo, todos os dias.
Sentindo um peso nas pernas, Dafne voltou o rosto aterrado para trás e percebeu que as mãos do deus quase tocavam os seus fios de cabelo. Contornando a mata, retornou outra vez à margem do rio Peneu, clamando pela ajuda do velho rio:
— Socorro, Peneu! Faça com que eu perca de vez esta beleza funesta, já que ela é a causa de todos os meus sofrimentos! — disse, disposta a entregar à natureza todos os seus dons em troca da liberdade. Dafne, a alguns passos do rio, deu um salto, pretendendo atingir a água. mas seu tornozelo foi agarrado pela mão firme de Apolo, fazendo com que seu corpo caísse sobre a grama verde e fofa das margens. Um suspiro forte escapou de seus lábios entreabertos, com o impacto da queda.
Ainda tentou rastejar em direção à água, porém sem sucesso. Apolo, cobrindo-a de beijos, recusava-se a largá-la.
Finalmente, com um suspiro de alívio, a ninfa sentiu que seu corpo começava a se recobrir com uma casca áspera e grossa, enquanto seus cabelos viravam folhas esverdeadas. Descolando finalmente seus pés da boca do agressor, Dafne sentiu que eles se enterravam na terra, transformando-se em sólidas e profundas raízes. Apolo, ao ver que sua amada estava para sempre convertida numa árvore — um loureiro -, ainda tentou extrair do resto de seu antigo corpo um pouco do seu calor, abraçando-se ao tronco e procurando-lhe os lábios. Não encontrou a suavidade do antigo hálito da ninfa, mas apenas o odor discreto da resina.
Apolo, desconsolado, despediu-se levando consigo, como lembrança, algumas folhas, com as quais enfeitou sua lira. Enfeitou também a fronte com estas mesmas folhas, em homenagem a Dafne — a mulher que nunca foi nem jamais será sua. 
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Juno, a rainha do céu

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— Sim, agora minha pequena Juno está a salvo... Mas até quando?
Assim dizia Cibele, após ver resgatada, do ventre de seu cruel esposo Saturno, a sua filha querida. O velho deus havia engolido um a um os seus filhos, tão logo estes haviam nascido; Júpiter, porém, lhe ministrara uma bebida encantada, obrigando-o a regurgitá-los de volta para os braços da mãe.
Cibele, a precavida, imaginava agora um meio de manter a salvo a sua filha dileta. "Tenho um pressentimento de que a ela está destinado um lugar de honra na corte celestial!", pensava a deusa, acariciando os cabelos de Juno. Imaginava Cibele, como todas as mães, divinas ou não, que sua filha excederia em beleza e poder todas as outras filhas da face da Terra ou da imensidão do céu. De repente seus olhos avistaram, para o ocidente, um fulgor intenso.
— É isto! — exclamou Cibele, feliz.
— Levarei-a para o país das Hespérides! Hespérides eram três encantadoras deusas que governavam um país paradisíaco, onde a primavera era eterna e a necessidade não existia.
— Queridas amigas, preciso entregar a minha bela Juno aos seus cuidados, pois somente aqui ela estará em segurança. Abriram um largo sorriso, enquanto uma delas envolvia a deusa em suas vestes esvoaçantes.
— Vá em paz, Cibele — disse esta. — Nós faremos da sua filha a mais poderosa das deusas. Juno respondeu apontando o dedo para o céu. O tempo passou e Juno tornou-se uma deusa de maravilhosa beleza. As Hespérides eram unânimes em reconhecer este seu atributo, que fazia par com o da perfeita sapiência.
— Vejam: os animais e mesmo as flores parecem ficar felizes tão logo sua presença se anuncia — diziam alegremente as irmãs, todos os dias, umas às outras. Juno, contudo, apesar de estar satisfeita naquele lugar paradisíaco, ambicionava mais alto. Com olhos postos no céu, suspirava todos os dias:
— Tudo é belo... mas eu queria mesmo era ser rainha do céu. Por uma natural inclinação, a moça procurava sempre os lugares mais altos da ilha para dar largas à sua imaginação. Havia um rochedo, à beira-mar, que era o seu refúgio especial.
— Mais um passinho e posso quase tocar o céu... — dizia ela, brincando e esticando seu alvo dedo. Um dia, estando ali sentada, sentiu muito calor. Então avistou no horizonte uma nuvem que vagava meio sem jeito, como que perdida das outras.
— Adoro chuva! — pensou, esticando o pescoço na ânsia de ver as companheiras daquela comparsa extraviada.
— O único defeito deste país encantador, se há algum, é o de chover tão pouco! Então pôs-se em pé, cerziu os olhos e começou a pensar com toda a força:
— Quero muito que chova! Que chova muito! E o que quero!
Juno reabriu os olhos e viu que agora aquela nuvem mal-esboçada e solitária, lá adiante, havia ganho uma inesperada e rechonchuda companheira. A jovem fechou os olhos outra vez e repetiu com toda a força:
— Quero muito que chova! Que chova muito! É o que quero!
Quando reabriu outra vez os seus olhos, viu que um exército de outras nuvens havia se juntado à primeira, engolfando-a num turbilhão escuro e barulhento. Juno colocou-se na ponta dos pés e aspirou profundamente.
— Hmmm.... Perfume de chuva, não há outro igual. Num instante as nuvens chegaram, e a jovem deusa comandou do alto ma tremenda tempestade, como nunca as Hespérides haviam visto. Os raios miam ao redor da jovem os seus espadins recurvos, porém sem nunca atingi-la, enquanto a água da chuva a envolvia num frescor delicioso.
Depois que a chuva passou e um vento fresco secou suas roupas, afastando-o para longe as nuvens tempestuosas, Juno olhou para o céu, novamente azul.
— Tudo é belo... Mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.
Neste instante uma águia de asas imensas surgiu das alturas. A ave, após rodopiar ao redor da deusa, agarrou-a delicadamente e suspendeu-a no ar. Juno, embora surpresa, não se assustou; algo lhe dizia, secretamente, que o seu sonho começava a se concretizar.
— Para onde me leva, águia sutil? Foram ambas subindo, a águia e a deusa, até que, adentrando o próprio céu. Juno viu-se diante do jovem Júpiter.
— Estou no céu! — gritou Juno, de olhos brilhantes. O pai dos deuses explicou então a Juno tudo o que havia ocorrido e como ele a havia salvo do ventre do tirânico pai de ambos, Saturno. Juno, agradecida, abraçou os joelhos de Júpiter. Depois disse a ele, radiante de esperança:
— Tudo o que você diz é belo... Mas eu queria mesmo... O pudor, entretanto,impediu-a de repetir pela milésima vez o seu desejo.
— Sim, adorada Juno, você será, sem dúvida, rainha do céu — completou Júpiter, sorridente, que escutara diversas vezes, ali do alto, a jovem clamar por seu desejo.
 — Desde que a vi manejando a tempestade e orquestrando os raios, decidi que seria a esposa ideal para mim.
E foi assim que Juno casou-se, tornando-se Rainha do Céu e dando início à história do casal mais famoso da mitologia antiga. 
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Pomona e Vertuno - Mitologia Romana

Posted by : Redação

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Pomona era a deusa que presidia a floração dos frutos, e seu maior prazer era fazer a guarda e proteger as árvores frutíferas.
Seu bosque, no entanto, vivia fechado à entrada de seus incansáveis cortejadores — na sua maioria faunos e sátiros que, tomados pela mais ardente paixão, queriam por todo modo possuí-la. De fato, alimentada somente pelos mais tenros frutos, a deusa dos pomares tinha um corpo invejável e uma pele perfeita.
Julgando-se em segurança, andava só por entre os troncos das suas adoradas árvores, o que fazia excitar ainda mais o desejo dos seus pretendentes. Dentre todos, o mais apaixonado, sem dúvida alguma, era Vertuno, o deus cujas atribuições mais se assemelhavam às da bela deusa: Vertuno era o deus protetor dos frutos e dos legumes.
— Nós temos tudo em comum — dizia ele a si mesmo, sem conseguir compreender por que a deusa fugia dele.
Mas Pomona não queria, definitivamente, saber de amores. E como Vertuno parecia ter mais possibilidade de vencer a sua resistência, era justamente dele que ela fugia com mais ardor. Vertuno, porém, era mestre em disfarces e, por diversas vezes, apresentou-se diante da deusa, mas esta estava sempre ocupada em podar ou fazer algum enxerto nas árvores.

Certa vez apareceu como um ceifador, pôs no chão a foice e sentou-se aos pés de Pomona, que permaneceu, absorta, totalmente envolvida com sua tesoura a cortar os galhos e a retirar os fungos acumulados, sem lhe dar a mínima atenção.
— Suas árvores estão cada vez mais belas — disse-lhe o deus, sem arrancar dela nenhuma expressão. Com os braços erguidos, ela prosseguia em sua tarefa. Noutra ocasião, Vertuno apareceu como um pescador, num disfarce infeliz.
A deusa não queria nada com pescadores e detestava esta atividade, chegando mesmo a expulsá-lo de sua presença, com um ar enfastiado. Outra vez surgiu munido de uma escada, com um longo bigode de colhedor de maçãs. Aproximando-se da deusa, que tentava inutilmente alcançar um dos frutos para colocar na cesta, ele lhe disse:
 — Deixe que eu as alcanço para você! Colocando a escada encostada ao tronco, Vertuno começou a escalar os degraus, quando sentiu a mão cálida da deusa tomar-lhe o pulso.
— Deixe que eu mesma o faço — disse ela, subindo degrau por degrau até alcançar os frutos mais distantes.
Depois de arrancar dos galhos as maçãs, ia jogando-as uma a uma a Vertuno, que, no chão, as ia recebendo. A maioria das frutas, porém, o acertava em cheio na cabeça, arrancandolhe breves gritos de dor.
— O que há com você, afinal? Não está enxergando direito? — reclamava a deusa, impaciente. — Veja, está estragando todos os meus frutos!
Se Vertuno, no entanto, tinha alguma coisa em bom estado naquele momento, era justamente a visão: cobiçava ardentemente as perfeitas formas de Pomona.
— Tome, leve de volta a sua escada — disse a deusa, ao perceber finalmente as intenções de Vertuno.
Quanto mais Vertuno persistia em seus estratagemas, mais a deusa permanecia irredutível, terminando sempre por expulsá-lo de seu bosque sagrado, com maior ou menor delicadeza. As coisas estavam nesse pé quando, um dia, uma velha encarquilhada apareceu diante de Pomona. Estava extremamente quente, e Pomona estava mais i vontade.
Um suor delicado como o orvalho brotava de sua pele clara; na poma dos pés, a deusa tentava alcançar um galho mais alto, deixando à mostra as axilas que uma minúscula penugem dourada protegia. O que nas mulheres comuns poderia parecer um desleixo, na encantadora deusa era, porém, um atributo a mais para a sua beleza. A velha — que outro não era senão o próprio Vertuno — aproximou-se lentamente, mancando em seu passo senil.
Quando chegou aos pés da deusa. sentou-se, enquanto a observava entregar-se à sua tarefa. Após algum tempo, Pomona finalmente, acordou para a presença da intrusa.
— Bom-dia, senhora — disse a deusa, estendendo a mão, de modo afável.
— Bom-dia, bela jovem! — respondeu a velha, dando um beijo na deusa, que recuou um pouco, de modo instintivo, diante daquele gesto inesperado e surpreendente.
Pomona estava podando uma vinha, e Vertuno aproveitou a ocasião para fazer uma comparação que em tudo servia aos seus objetivos:
— Está vendo como os galhos da vinha se enroscam no tronco?
— Certamente — respondeu a deusa.
— Por que não lhe segue o exemplo?
 — Como assim?
— Bem, a vinha não cresce jamais se não puder enroscar-se a um tronco forte e viril. Estive observando você desde muito tempo e percebi que foge de todos os seres que buscam unir-se a você.
— Ora, são todos uns boçais! — exclamou Pomona, lançando para trás os cabelos e retomando sua tarefa.
— Talvez nem todos o sejam — disse Vertuno, acariciando as costas da deusa com sua mão enrugada, o que renovou o espanto da moça.
— Senhora, que modos são esses? — disse Pomona, com um sorriso, tentando mostrar de modo gentil e descontraído a sua insatisfação com aquelas pequenas e desconfortáveis intimidades.
— Existe alguém que está muito acima de todos os seus outros pretendentes — disse Vertuno, sob o disfarce da velha, ignorando a advertência da deusa.
-Você sabe quem é, e somente ele merece o seu amor.
— Já sei, já sei, a senhora refere-se ao importuno Vertuno — disse Pomona, com ar de enfado.
— Sim, é ele mesmo. Ninguém mais poderá lhe fazer feliz, pois ninguém a ama mais do que ele! — insistiu a velha, abraçando o corpo que tinha à sua frente, num transporte de desejo que encheu de assombro a deusa dos pomares.
— Agora chega! — esbravejou Pomona, afastando a velha descontrolada.
De repente, porém, ela deu-se conta do que se passava:
— Então é você, novamente!
A velha lançou fora o véu que cobria a sua cabeça e disse:
— Sim, sou eu, Pomona querida, e venho mais uma vez tentar obter o seu amor!
— Por que não experimenta aparecer sob a sua própria forma, ao menos uma vez?
Às vezes as coisas óbvias não ocorrem, mesmo aos deuses. Vertuno, sabendo que a deusa não tinha olhos para ninguém, procurara nas mais diversas formas convencer a sua amada, sem dar-se conta de que talvez conseguisse seu objetivo se aparecesse diante dela como realmente era.
Desfazendo-se de seu disfarce, Vertuno surgiu diante da moça, em sua forma esplendorosa. Pomona, acostumada ao assédio dos faunos e do horrível deus Pã, ficou deslumbrada com sua beleza.
Ele aproximou-se, então, da dócil Pamona e a cobriu de beijos, que foram generosamente retribuídos.
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