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A Máscara da Morte Escarlate - Edgar Allan Poe

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A “Morte Escarlate” havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca ? a cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.

Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesãos trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero do que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, Beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Escarlate”.

Lá pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um magnífico baile de máscaras.

Era um espetáculo voluptuoso, aquela mascarada. Mas antes vou descrever onde ela aconteceu. Eram sete ? um suíte imperial. Em muitos palácios, porém, essas suítes formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do duque pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas da suíte. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul ? e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada ? o quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder à das decorações. AS vidraças, ali, eram escarlates ? uma violenta cor de sangue.

Ora, em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da seqüência de salões. Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante do que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali penetrar.

Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro e alto e grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.

Apesar disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gosto do duque eram estranhos. Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas idéias brilhavam com um esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.

Para essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia e fantasia ? muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza, muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles ? os sonhos ? giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão. Mas os ecos das batidas extinguem-se ? duraram apenas um instante ? e risos levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às alegrias nos salões mais afastados.

Mas nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio. Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, tudo ficou intranqüilamente imobilizado. Mas agora iriam ser doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou murmúrio que expressava a reprovação e surpresa ? e, finalmente, terror, horror e repulsa.

Numa reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e esquálida, envolta do pés a cabeça em veste mortuárias. A máscara que escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o tipo da Morte Escarlate. Seu vestuário estava borrifado de sangue ? e sua alta testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu semblante tornou-se vermelho de raiva.

– Quem ousa… ? perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto ? quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!

O príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.

O príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado. Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso, que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão, como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o inicio, passando do salão azul para o púrpura ? do púrpura para o verde ? do verde para o alaranjado ? e desse ainda para o branco ? e daí para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para dete-lo. Foi então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo ? e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.

E então reconheceu-se a presença da Morte Escarlate. Viera como um ladrão na noite. E um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um morreu na mesma posição de desespero em que tombou no chão. E a vida do relógio de Ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e da Morte Escarlate estendeu-se sobre tudo.
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O Gato Preto - Edgar Allan Poe

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Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.


No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.


Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.


Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.


Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.


Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.


Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.


Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.


Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.


Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.


Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.


Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando- o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.


Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.


Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.


Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.


Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.


De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.


Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.


No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava- se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava.


Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!


Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta- fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!


Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.


Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.


Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.


Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.


E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.


O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.


Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.


No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.


_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.


Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.


Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.


Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.


Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!







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A Tisana

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LEON BLOY (1846-1917 |  França)

Pintor que virou escritor por influência pessoal de Villiers Barbey d'Aurevilly (e literária a partir dos Contos Cruéis), Leon Bloy foi um católico intolerante, amargo, que em vida se incompatibilizou com todo mundo. Isso se reflete no mundo perverso e mesmo torpe de seus contos. Este A Tisana consta de algumas antologias de mistério, e é considerado um pioneiro do gênero, talvez porque mostre o lado negro e aparentemente inusitado dos normais seres humanos. 


Jacques sentiu-se simplesmente ignóbil. Era um horror ficar ali, na obscuridade, como um espião sacrílego, enquanto aquela mulher, para ele uma total desconhecida, se confessava. Mas então teria sido preciso partir imediatamente, assim que o padre de batina chegara com ela, ou, pelo menos, fazer algum ruído para que eles fossem advertidos da presença de um estranho.
Agora, era tarde demais, e a terrível indiscrição só poderia se agravar. Desocupado, procurando, como as centopeias, um lugar fresco no fim daquele dia canicular, ele tivera a fantasia, pouco de acordo com suas fantasias habituais, de entrar na velha igreja, e sentara-se naquele canto escuro, atrás do confessionário, para ali sonhar, com os olhos fixos na grande rosácea que, aos poucos, ia se extinguindo.
Depois de alguns minutos, sem saber como ou por quê, tornava-se a testemunha inteiramente involuntária de uma confissão. É verdade que as palavras não lhe chegavam claras e que, afinal, ele só ouvia um murmúrio. Mas o colóquio, no final, parecia se animar. Algumas sílabas, aqui e ali, destacavam-se, emergindo do rio opaco daquela conversa penitencial, e o jovem que, por milagre, era o oposto de um grosseirão, receou na verdade surpreender confissões que não lhe eram evidentemente destinadas.
De repente, esta previsão se realizou. Um violento redemoinho pareceu se criar. As ondas imóveis rugiram dividindo-se, como para deixar surgir um monstro, e o ouvinte, aterrorizado, ouviu estas palavras proferidas com impaciência. - Estou lhe dizendo, meu pai, que botei veneno na tisana! Mais nada. A mulher, cujo rosto estava invisível, ergueu-se do genuflexório e, silenciosamente, desapareceu no emaranhado das trevas.
Quanto ao padre, não se movia mais que um morto, e lentos minutos se escoaram antes que ele abrisse a porta e se fosse por sua vez, com o andar pesado de um homem assombrado. Foi preciso o carrilhão persistente das chaves do sacristão e a ordem de sair,
por muito tempo lançada na nave, para que o próprio Jacques se levantasse, tanto estava arrasado com aquela palavra que ecoava nele como um clamor.


Ele reconhecera perfeitamente a voz de sua mãe!
Ah! Impossível se enganar! Ele chegara até a reconhecer seu andar quando o vulto de mulher erguera-se a dois passos dele. Mas então, céus!
Tudo desmoronava, tudo sumia, tudo não passava de uma brincadeira monstruosa! Ele vivia sozinho com aquela mãe, que não via quase ninguém e só saía para ir à missa. Ele se acostumara a venerá-Ia com toda a sua alma, como um exemplar único de retidão e bondade. Até onde ele podia ver no passado, nenhuma perturbação, nada de oblíquo, nenhuma dobra, nem um só desvio. Uma bela estrada branca a perder de vista, sob um céu pálido. Pois a existência da pobre mulher havia sido muito melancólica. Desde o falecimento do marido, morto em Campigny, e de quem o jovem pouco se lembrava, ela não deixara de usar luto, ocupando-se exclusivamente da educação de seu filho, do qual não se afastava nem por um dia.
Jamais quis mandá-lo para as escolas, temendo os contatos; ocupara-se por completo de sua instrução, construíra-lhe a alma com pedaços da sua. Este regime provocou nele uma sensibilidade inquieta e nervos singularmente vibrantes que o expunham a dores ridículas, talvez também a verdadeiros perigos.
Quando chegou a adolescência, as traquinagens previstas, que não podia impedir, haviam-na tornado um pouco mais triste, sem alterar sua doçura. Nem censuras nem cenas mudas. Ela aceitara, como tantas outras, o que é inevitável. Enfim, todos falavam dela com respeito, e somente ele em todo o mundo, seu filho bem-amado, se via hoje forçado a desprezá-Ia de joelhos e com lágrimas nos olhos, como os anjos desprezariam Deus se ele não mantivesse suas promessas!. .. Realmente, era de enlouquecer, era de berrar pelas ruas.
Sua mãe! Uma envenenadora! Era insano, era um milhão de vezes absurdo, era absolutamente impossível e, no entanto, era verdade. Não tinha ela mesma acabado de declarar? Ele poderia arrancar os cabelos!
Mas, envenenadora de quem? Oh, Deus! Ele não conhecia uma única pessoa que tivesse morrido envenenada. Não era seu pai, que recebera uma rajada de metralhadora na barriga. Também não era ele que ela tinha tentado matar. Nunca tinha ficado doente, nunca precisara de tisanas e sabia-se adorado. A primeira vez que ele se atrasara à noite, e certamente não fora por coisas decentes, ela mesma adoecera de inquietação. Seria algum fato anterior ao seu nascimento? Seu pai se casara com ela por
sua beleza, quando ela tinha apenas vinte anos. Teria esse casamento sido precedido por qualquer aventura que pudesse implicar num crime? Não, nem assim. Aquele passado límpido lhe era familiar, havia sido contado cem vezes e os testemunhos eram por demais fiéis. Por que então aquela confissão terrível? Por que, principalmente, oh! por que ele precisara testemunhá-Ia? Bêbado de horror e desespero, ele voltou para casa.


Sua mãe correu imediatamente para beijá-lo.
- Como você voltou tarde, meu filho querido! E como está pálido! Será que está doente?
- Não - respondeu ele -, não estou doente, mas este calor enorme me cansa e acho que não vou conseguir comer. E a senhora, mamãe, não está se sentindo mal? A senhora saiu, com certeza, em busca de um pouco de ar fresco. Achei que a tinha visto de longe no cais.
- Eu saí, sim, mas você não pode ter me visto no cais. Fui me confessar, o que você não faz mais, desconfio, há muito tempo, seu menino mau.
Jacques espantou-se de não ter sufocado, de não cair para trás, fulminado, como se vê nos bons romances que havia lido. Então era verdade que ela tinha ido se confessar!
Então ele não dormira na igreja e aquela catástrofe abominável não era um pesadelo, como ele, por um minuto, tinha loucamente imaginado. Ele não caiu, mas ficou muito mais pálido, e sua mãe ficou assustada.
- Mas o que é que você tem, meu filhinho? - disse ela.
- Você está mal, você está escondendo alguma coisa de sua mãe. Você deveria ter mais confiança nela, que só ama você e só tem você... Está me olhando de um jeito! Meu tesouro querido. .. Mas o que você tem afinal? Você está me deixando com medo!...
Ela o tomou amorosamente nos braços.
- Escute bem, menino grande. Eu não sou curiosa, você sabe, e não quero ser seu juiz. Não me diga nada, se não quiser, mas deixe-me cuidar de você. Você vai imediatamente para a cama. Enquanto isto, vou preparar uma boa comidinha bem leve, que eu mesma trarei, não é? E, se você tiver febre esta noite, eu vou fazer uma TISANA...
Jacques, desta vez, caiu no chão.
- Até que enfim! - suspirou ela, um pouco cansada, estendendo a mão para uma campainha. Jacques sofrera um aneurisma de último grau e sua mãe tinha um amante que não queria ser padrasto. Este drama simples aconteceu, há três anos, nos arredores de Saint-Germain des-Prés.
A casa que lhe serviu de palco pertence a um empreiteiro de demolições
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A música de Erich Zann - H.P. Lovecraft

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Tenho examinado mapas da cidade com o maior cuidado, mas jamais reencontrei a Rue dAuseil.
E não foram apenas mapas modernos, pois sei que os nomes mudam. Pelo contrário, pesquisei também, profundamente, em meio ao que há de mais antigo no lugar e explorei pessoalmente cada região, qualquer que fosse o nome, que porventura pudesse evocar a rua que conheci como Rue dAuseil.
No entanto, apesar de tudo, prevalece o fato humilhante de que não consigo achar a casa, a rua ou sequer a localidade onde, durante os últimos meses de uma miserável vida de estudante de metafísica na universidade, ouvi a música de Erich Zann.
Não me espanto de que minha memória falhe, pois minha saúde – física e mental – ficou gravemente comprometida durante o período em que residi na Rue dAuseil, e me lembro de nunca ter levado nenhum de meus poucos conhecidos até lá. Mas que eu não possa encontrar de novo o lugar é que é singular e estarrecedor, pois ficava a meia hora de caminhada da universidade, além de que se distinguia por algumas peculiaridades que ninguém que tivesse estado lá esqueceria facilmente.

Jamais conheci alguém que tivesse visto a Rue dAuseil. A Rue dAuseil ficava do outro lado de um rio escuro, guarnecido por barracões de tijolos com janelas baças, sobre o qual se estendia uma ponte maciça de pedra negra. Sombras eternas pairavam sobre o rio, como se a fumaça das fábricas vizinhas obstruísse perpetuamente a luz do sol. O rio recendia a odores malignos que jamais senti noutros lugares e que talvez possam algum dia me ajudar a encontrá-lo, já que eu os reconheceria de pronto. Para além da ponte viam-se ruas estreitas calçadas de pedras e protegidas por parapeitos; e então vinha o aclive, no início suave, depois incrivelmente acentuado quando começava a Rue dAuseil.
Nunca vi nenhuma rua tão estreita e íngreme quanto a Rue dAuseil. Era quase um precipício, inviável para qualquer veículo, consistindo, em mais de um ponto, de lanços de degraus e, no topo, terminando num muro alto coberto de hera. Seu calçamento era irregular, às vezes lajes de pedra, às vezes fragmentos de pedra e às vezes terra nua de onde despontavam tufos de vegetação cinza-esverdeada. As casas – de telhados pontudos – eram todas incrivelmente antigas e, em desordem, inclinavam-se para trás, para a frente ou para os lados. Não raro um par oposto, inclinando-se para diante, quase se tocava por cima da rua, formando um arco e certamente impedindo que parte da luz chegasse até o chão. Havia uns poucos passadiços ligando casas de ambos os lados da rua.

Os moradores dessa rua me impressionavam particularmente. No início, pensei que fosse por se tratar de gente silenciosa e reservada, mas depois concluí que era por serem todos muito velhos. Não sei como fui viver em tal recanto, mas pode ser que não foi por vontade própria que me mudei para lá. Tinha estado a habitar em muitos lugares pobres, sendo sempre despejado por falta de dinheiro, até que um dia fui parar naquela casa decadente da Rue dAuseil, gerenciada pelo paralítico Blandot. Era a terceira casa a contar do topo da rua e, de longe, a mais alta de todas. Meu quarto ficava no quinto piso – o único quarto ocupado, já que a casa estava quase vazia. Na noite em que cheguei, ouvi uma estranha música proveniente do sótão sobre minha cabeça, e no dia seguinte inquiri o velho Blandot a respeito.

Ele me falou de um velho tocador de viola alemão, um sujeito estranho, mudo, que assinava o nome de Erich Zann e que se apresentava à noite na orquestra de um teatro barato, acrescentando que o desejo de tocar à noite, após o seu retorno do teatro, era o motivo pelo qual Zann escolhera aquele quarto no sótão alto e isolado, cuja solitária janela de empena era o único ponto da rua a partir do qual se podia avistar, por cima do muro, o declive e o panorama além dele. Desde então, ouvi Zann todas as noites e, embora ele me mantivesse desperto, a esquisitice de sua música me fascinava. Conhecendo pouco dessa arte, ainda assim eu estava certo de que nenhuma de suas modulações tinha qualquer relação com a música que eu ouvira antes e concluía que ele era um compositor de gênio altamente original. Quanto mais eu ouvia, mais ficava enleado, até que depois de uma semana resolvi conhecer o homem pessoalmente.

 Certa noite, quando ele retornava do trabalho, interceptei Zann no corredor e lhe disse que gostaria de conhecê-lo e de estar com ele enquanto ele tocava. Era um indivíduo pequeno e recurvado, vestindo roupas surradas – de olhos azuis, face grotesca de sátiro e uma calva acentuada –, que ao ouvir minhas primeiras palavras se mostrou zangado e amedrontado.
Minha camaradagem franca, no entanto, logo o abrandou, e ele, com relutância, me fez sinal para que o seguisse através da escada escura, rangente e infirme que conduzia ao sótão. Seu quarto, um dos dois únicos que havia no sótão de teto anguloso, ficava no lado oeste, voltado para o muro alto que limitava a extremidade superior da rua. Suas dimensões eram bastante amplas e pareciam mais amplas ainda devido à desarrumação e à nudez do lugar.

De mobília havia apenas um catre de ferro, um lavatório ensebado, uma mesa pequena, uma estante grande, um suporte de ferro para partituras e três cadeiras de desenho antiquado. Folhas de notação musical jaziam espalhadas pelo soalho. As paredes eram de tábuas nuas e provavelmente nunca teriam conhecido nenhum emboço, ao passo que a abundância de poeira e teias de aranha fazia o lugar parecer mais deserto do que habitado.
Por certo o mundo de beleza de Erich Zann existia num distante cosmos da imaginação. Assinalando para que eu me sentasse, o mudo fechou a porta, fixou a grande trava de madeira e acendeu uma vela para aumentar a claridade da que trouxera consigo. Então retirou sua viola do estojo bichado e, segurando-a, sentou-se na cadeira menos desconfortável.
Não utilizou o suporte para partituras, mas, sem pedir opinião e tocando de memória, me enlevou por mais de uma hora com acordes que eu nunca ouvira antes – acordes que deviam ser de sua própria invenção. Descrever sua exata natureza é impossível para alguém não versado em música. Constituíam uma espécie de fuga, com passagens recorrentes de um teor cativante, mas que para mim eram notáveis devido à ausência de quaisquer das notas que eu escutara embaixo, em meu quarto, noutras ocasiões.
Dessas notas arrebatadoras eu me lembrava e não raro as cantarolava ou assobiava com desajeito para mim mesmo, de modo que, quando afinal o músico baixou o arco, lhe solicitei que executasse algumas delas. Mal escutou meu pedido, a face enrugada de sátiro perdeu a placidez enfastiada que exibira durante a execução e pareceu externar a mesma curiosa mistura de raiva e medo que eu notara quando abordei o velho pela primeira vez.
Por um momento estive inclinado a usar de persuasão, levando em conta os possíveis caprichos da senilidade, e até tentei elevar o estranho ânimo de meu anfitrião assobiando alguns dos acordes que tinha ouvido na noite anterior.

Mas não persisti nesse intuito por mais que um instante, pois, quando o musicista mudo reconheceu a melodia, sua face assumiu de imediato uma expressão distorcida que não se pode descrever, e a sua mão alongada, ossuda e fria, se estendeu para fechar minha boca e silenciar a imitação grosseira. E não ficou só nisso: demonstrou ainda sua excentricidade lançando um olhar atônito em direção à janela que uma cortina recobria, como se receoso de algum intruso – um olhar duplamente absurdo, desde que o sótão, elevando-se acima de todos os telhados adjacentes, era inacessível, sendo a janela o único ponto na rua íngreme a partir do qual, conforme o recepcionista me dissera, se podia enxergar por cima do muro no topo.
O olhar do velho trouxe-me à lembrança a observação de Blandot, e por um gesto de capricho senti um ímpeto de olhar para o largo e vertiginoso panorama de telhados que o luar banhava e para as luzes da cidade que brilhavam lá adiante, as quais, dentre todos os moradores da Rue dAuseil, somente esse músico ranzinza podia ver.
Dei um passo em direção à janela e teria aberto as indescritíveis cortinas se, com uma recrescida fúria de pavor, o hóspede mudo não se lançasse sobre mim, desta vez movendo a cabeça em direção à porta enquanto lutava nervosamente, com ambas as mãos, para me empurrar até ela. Agora, bastante aborrecido com meu anfitrião, ordenei-lhe que me soltasse e disselhe que sairia imediatamente. Ele me soltou e, quando viu que eu me aborrecera e me ofendera, sua própria raiva pareceu amainar. Voltou a me segurar com força, mas desta vez de um modo amigável, conduzindo-me a uma cadeira e então, ansiosamente, passando para o outro lado da mesa, onde começou a escrever algumas palavras com um lápis, num árduo francês de estrangeiro. A nota que ele afinal me entregou constituía-se num pedido de tolerância e perdão.
Zann argumentou que estava velho, solitário, e era afligido por medos insólitos e desordens nervosas ligadas à sua música e a outras coisas. Ele apreciara meu interesse em ouvir sua música e desejava que eu retornasse e não me importasse com suas excentricidades. Mas ele não podia tocar para os outros aqueles acordes inusitados e menos ainda ouvir alguém assobiá-los, assim como não podia suportar que alguém mexesse no que quer que fosse em seu quarto. Ele não tivera idéia, até nossa conversa no corredor, de que em meu quarto eu podia ouvi-lo tocar e então me perguntou se eu não podia pedir a Blandot que me transferisse para um quarto mais embaixo, onde não o ouvisse durante a noite.
Estava disposto – conforme escreveu – a arcar com o acréscimo no preço do aluguel. Enquanto decifrava o francês execrável, comecei a me sentir mais complacente com o velho. Tornara-se vítima de distúrbios psíquicos e nervosos, tal como eu mesmo, e meus estudos metafísicos me ensinaram a ser bondoso. No silêncio, um som começou a vir da janela – talvez o vento noturno tivesse feito os vidros estalarem, e por alguma razão eu me assustei quase tanto quanto Erich Zann. Ao fim da leitura, apertei-lhe a mão e parti amigavelmente. No dia seguinte Blandot me arranjou um cômodo mais caro no terceiro pavimento, entre os aposentos de um velho agiota e o apartamento de um respeitável estofador. Não havia ninguém no quarto pavimento. Não demorou muito para eu descobrir que a ânsia de Zann por minha companhia não era tão grande quanto me parecera na ocasião em que me convenceu a me mudar do quinto piso.
Não me pediu que o visitasse e, quando eu o procurei, me pareceu pouco à vontade e tocou sem emoção. Isso sempre acontecia à noite, pois durante o dia ele dormia e não recebia ninguém. Minha simpatia por ele não cresceu, conquanto o quarto no sótão e a música fantástica parecessem exercer sobre mim um estranho fascínio. Senti um desejo inexplicável de olhar, através daquela janela e por cima do muro, para o declive invisível e para os telhados e cumeeiras resplandecentes que haveria além dele.
Numa ocasião, cheguei a subir ao sótão durante as horas do teatro, enquanto Zann não se achava no quarto, mas encontrei a porta fechada. Só o que eu podia ouvir era a música noturna do velho mudo. No início, eu subia nas pontas dos pés até o quinto piso; depois adquiri coragem para galgar a escada rangente até o sótão no alto. Ali, no vestíbulo estreito, aquém da porta trancada, com o buraco da fechadura tapado, eu freqüentemente ouvia sons que me enchiam de um medo indefinido – medo de espantos vagos e mistérios latentes.
Não porque os sons em si fossem terríveis – o que decerto não eram –, mas porque continham vibrações que sugeriam qualquer coisa de alheia a este planeta e porque, em certos intervalos, assumiam qualidades sinfônicas que dificilmente eu podia supor fossem produzidas por um único executante. Certamente Erich Zann era um gênio de força selvagem. Com o passar das semanas, a música se tornou mais selvagem, enquanto o velho musicista ia adquirindo um desleixo e uma furtividade lamentáveis de se ver. Agora, invariavelmente, se recusava a me receber e se esquivava de mim sempre que nos deparávamos nas escadas.
Então, certa noite, escutando através da porta, ouvi o ganido de uma viola ululante vibrar por entre uma babel caótica de sons, um pandemônio que me faria duvidar de minha sanidade abalada, não viesse de trás daquela porta fechada uma abominável prova de que o horror era real: o grito aterrador e inarticulado que só um mudo é capaz de emitir e que brota somente em momentos de medo e de angústia os mais terríveis. Bati insistentemente na porta, mas não tive resposta.
Em seguida, aguardei, no vestíbulo escuro, a tremer de frio e de medo, até que captei os débeis esforços do músico para se levantar do soalho apoiando-se numa cadeira. Supondo que ele recuperava a consciência após um desmaio, voltei a bater na porta, ao mesmo tempo em que dizia que era eu quem chamava.

Percebi que Zann cambaleou até a janela, fechou as rótulas e baixou a guilhotina; depois, ouvi-o claudicar até a porta, que abriu para minha passagem. Desta vez, mostrou real prazer em me ver, pois seu semblante conturbado se iluminou de alívio quando ele me puxou pelo casaco tal como uma criança se agarra às saias de sua mãe. Tremendo pateticamente, o velho me fez sentar numa cadeira e ocupou uma outra, ao lado da qual jaziam a viola e o arco largados no chão. Permaneceu imóvel por algum tempo, balançando a cabeça, mas dando a paradoxal impressão de que ouvia intensa e medrosamente.
Em seguida, pareceu satisfeito e, passando para a cadeira do outro lado da mesa, rabiscou uma nota breve, que me entregou, e se debruçou de novo, voltando a escrever rápida e incessantemente. Na nota, implorava-me que, por misericórdia e para sanar minha curiosidade, eu aguardasse enquanto ele preparava, em alemão, um relato completo de todas as maravilhas e horrores que o acossavam. Esperei, e o lápis do mudo correu.
 Foi talvez uma hora mais tarde, enquanto eu ainda esperava e enquanto o velho músico empilhava folhas e mais folhas de papel escrito, que eu vi Zann se assustar como se ao impacto de um horrível sobressalto.
Claramente, ele olhava para a janela coberta pelas cortinas e escutava entre tremores. Então supus eu mesmo ouvir algum som, embora não fosse nada horrível, mas, antes, uma nota musical lenta, distante e inusitada, a sugerir que alguém tocava numa das casas vizinhas ou nalgum recanto para além do muro alto por cima do qual eu jamais pudera olhar.
O efeito sobre Zann foi terrível, pois que, deixando cair o lápis, se ergueu de súbito, agarrou a viola e começou a encher a noite de uma melodia selvagem que eu jamais ouvira de seu arco a não ser através da porta trancada. Seria inútil descrever o modo de tocar de Erich Zann naquela noite pavorosa. Era mais horrível do que qualquer coisa que eu já lhe tinha escutado, porque agora eu podia ver a expressão de seu rosto e podia notar que o motivo era o medo mais agudo.
Ele tentava produzir barulho, afastar qualquer coisa ou afogar qualquer coisa; o quê? – eu não podia imaginar, por mais apavorante que o supusesse.

A execução se tornou fantástica, realmente histérica, e no entanto conservava algo das qualidades do gênio supremo de que eu sabia possuidor aquele homem velho. Reconheci os acordes – era, selvagemente, uma dança húngara popular nos teatros, e me dei conta de que era a primeira vez que eu ouvia Zann executar a obra de outro compositor.
Mais alto e mais alto, mais selvagem e mais selvagem, cresceu o uivo e o lamento daquela viola desesperada. Uma perspiração transbordante recobria o músico, que se contorcia como um macaco, sempre a olhar em desvario para a janela coberta. Em seus acordes frenéticos eu quase podia ver as sombras de sátiros e bacantes dançando e rodopiando numa agitação insana e abissal de nuvens e fumaça e relâmpagos.
E então pensei ouvir uma nota mais aguda, mais firme, que não provinha da viola – uma nota calma, deliberada, propositada e zombeteira que vinha de longe, do oeste. Nesse instante as rótulas começaram a chacoalhar ao vento ululante da noite, o qual pareceu elevar-se lá fora como se em resposta à música louca de dentro. Uivando, a viola de Zann se superava ao emitir sons que nunca pensei uma viola pudesse emitir. As rótulas chacoalharam mais alto, soltaram-se e passaram a bater contra a janela. Então o vidro se partiu sob os impactos persistentes, e o vento gelado penetrou no cômodo, fazendo oscilar a chama das velas e agitando as folhas de papel onde Zann dera início à narrativa de seu horrível segredo.
Olhei para Zann e vi que estava fora de si. Seus olhos azuis se arregalavam, vítreos e desvairados, e a execução frenética pôs em curso uma orgia cega, mecânica, irreconhecível, que pena alguma poderá sequer sugerir. Uma lufada súbita, mais forte que as outras, arrebatou o manuscrito e o atirou em direção à janela. Saltei desesperado no encalço das folhas, mas elas escaparam ao meu alcance através dos vidros partidos.
Lembrei-me, então, de meu velho anseio de olhar pela janela, a única na Rue dAuseil de que se podia enxergar a encosta para além do muro e a cidade que se estendia lá embaixo. Estava muito escuro, mas as luzes da cidade sempre brilhavam, e minha expectativa era avistá-las em meio ao vento e à chuva. No entanto, quando olhei pela janela daquele sótão altíssimo – olhei enquanto as velas tremulavam e a viola insana ululava ao vento noturno –, não vi cidade alguma se estender lá embaixo e nenhuma luz amigável brilhar nas ruas familiares, mas apenas a escuridão do espaço ilimitado, espaço inimaginável que o movimento e a música punham vivo, o qual não se assemelhava a nada na terra.

E, enquanto permaneci a olhar, imerso no terror, o vento apagou ambas as velas daquela mansarda pinacular, imergindo-me numa treva bruta e impenetrável, com o caos e o pandemônio à minha frente e a loucura demoníaca daquela viola atrás de mim. Recuei aos tropeços na treva, sem condições de acender qualquer luz, chocando-me contra a mesa, derrubando uma cadeira e finalmente alcançando às apalpadelas o lugar onde a escuridão urrava com a música estridente.
Salvar a mim mesmo e a Erich Zann eu poderia ao menos tentar, não obstante as forças que se me opunham. Numa ocasião senti como se uma coisa gelada roçasse por mim e gritei, mas meu grito não podia superar o som da abominável viola. Súbito, em meio à treva, o infatigável arco bateu em mim, e então percebi que estava perto do violista.
Tateei à minha frente, encontrei as costas da cadeira de Zann e então procurei seu ombro e o agitei, num esforço de trazê-lo de volta à razão. Ele não me respondeu, e a viola incansável continuou a zunir. Levei a mão até sua cabeça, cujos acenos mecânicos não havia como parar, e gritei ao seu ouvido que precisávamos fugir das coisas ignotas da noite. Mas ele não me respondeu nem amenizou o frenesi de sua música indescritível; enquanto isso, por todo o sótão estranhas correntes de vento pareciam dançar na treva e no caos.
Quando minha mão tocou em sua orelha, estremeci, embora sem saber por que – sem saber por que, até que senti a face imóvel, a face rígida e sem respiração, cujos olhos vidrados se arregalavam em vão no vazio. E então, por um milagre, achando a porta e a grande trave de madeira, me arrastei doidamente para fora, fugindo à coisa de olhos vítreos que havia na escuridão e do uivo espectral daquela viola maldita cuja força cresceu enquanto eu me arrastava. Saltar, flutuar, voar por aqueles infindáveis degraus abaixo através da escuridão da casa; correr desvairadamente pelas ruas estreitas, íngremes e antigas, feitas de degraus e cercadas de casas decadentes; pular sobre os degraus e as pedras do calçamento em direção às ruas baixas e ao rio pútrido e profundo, ofegar através da grande ponte negra em direção às ruas mais largas e saudáveis e aos bulevares conhecidos, tudo isso são terríveis impressões que sobrevivem em mim.
Tudo o que lembro é que não havia vento nem lua e que todas as luzes da cidade tremulavam. A despeito de minhas buscas e investigações mais diligentes, jamais consegui achar a Rue dAuseil. Mas não o lamento de todo: nem isso nem a perda, em abismos inimagináveis, das folhas de papel que, numa escrita cerrada, poderiam ter explicado a música de Erich Zann.
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Silêncio - Uma fábula de Edgar Allan Poe

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"Escuta bem", disse o Demônio, pousando a mão em minha cabeça. "A região de que falo é uma região austera na Líbia, às margens do rio Zaire. E não existe quietude ali, tampouco silêncio.
"As águas do rio exibem um insalubre matiz cor de açafrão; e não correm na direção do mar, mas pulsam por toda a eternidade sob o olho vermelho do sol com um movimento tumultuoso e convulso. Por milhas e milhas em ambos os lados do leito lodoso do rio estende-se um deserto pálido de nenúfares gigantescos. Eles suspiram uns para os outros naquela solidão e esticam na direção do céu seus pescoços longos e espectrais e acenam aquiescentes suas cabeças perpétuas. E um indistinto murmúrio se eleva dentre eles como o rumor de água subterrânea. E eles suspiram uns para os outros.
"Mas há uma fronteira para seu reino - a fronteira da floresta escura, horrível, elevada. Ali, como as ondas em torno das Hébridas, os arbustos se agitam incessantemente. Mas vento algum sopra em todo o céu. E as árvores altas e primevas balançam eternamente de cá para lá com um som poderoso de galhos despedaçados. E de seus distantes cimos, uma a uma, caem perpétuas gotas de orvalho. E junto às suas raízes jazem estranhas flores venenosas contorcidas em sono inquieto. E no alto, com um ruído forte e crepitante, as nuvens cinzentas correm para sempre no rumo oeste, até despencar, uma catarata, pela muralha flamejante do horizonte. Mas não há vento algum no céu. E às margens do rio Zaire não há quietude nem silêncio.
"Era noite, e a chuva caiu; e, caindo, era chuva, mas, tendo caído, era sangue. E eu permanecia no palude entre os altos nenúfares, e a chuva caiu sobre minha cabeça - e os nenúfares suspiravam uns para os outros na solenidade de sua desolação.
"E, de repente, a lua surgiu por entre a tênue névoa espectral, e sua cor era escarlate. E meus olhos pousaram sobre uma imensa rocha cinzenta que havia à margem do rio, e que foi banhada pelo luar. E a rocha era cinzenta, espectral, alta - e a rocha era cinzenta. Em sua face de pedra havia sinais gravados; e eu caminhei entre o palude de nenúfares até me aproximar da margem, de modo a conseguir ler os sinais escritos na pedra. Mas não pude decifrá-los. E já ia voltando ao palude quando a lua brilhou com um vermelho mais vivo, e me virei e olhei a rocha outra vez, e olhei os sinais; - e os sinais diziam desolação.
"E ergui o rosto, e lá havia um homem sobre o cume da rocha; e ocultei-me entre os nenúfares de modo a espreitar as ações do homem. E o homem era alto e imponente em sua forma, e estava envolto dos ombros aos pés na toga da antiga Roma. E os contornos de sua figura eram indistintos - mas suas feições eram as feições de uma deidade; pois o manto da noite, e da névoa, e da lua, e do orvalho haviam revelado as feições do seu rosto. E sua fronte era elevada e pensativa, e seu olhar, perturbado de preocupação; e nos poucos vincos de suas faces li fábulas de tristeza, fadiga, repúdio à humanidade e anseio pela solidão.
"E o homem sentou-se sobre a rocha, e apoiou a cabeça em sua mão, e contemplou a desolação. Ele baixou os olhos para os arbustos rasteiros e inquietos, e os ergueu para as árvores altas e primevas, e ergue-os ainda mais para o céu crepitante, e para a lua escarlate. E eu permaneci encolhido ao abrigo dos nenúfares, e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão; - mas a noite declinava e ele sentava sobre a rocha.
"E o homem desviou sua atenção do céu, e contemplou o austero rio Zaire, e suas espectrais águas amarelas, e as legiões pálidas dos nenúfares. E o homem escutou os suspiros dos nenúfares, e o murmúrio que se erguia de entre eles. E eu permaneci encolhido em meu esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão; - mas a noite declinava e ele sentava sobre a rocha.
"Então me dirigi aos recessos de palude, e vadeei o alagadiço por entre a vastidão de nenúfares, e chamei os hipopótamos que habitavam os charcos nos recessos do palude. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, com o beemot, até a base da rocha, e rugiram ruidosa e medonhamente sob a lua. E eu permaneci encolhido em meu esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão; - mas a noite declinava e ele sentava sobre a rocha.
"Então amaldiçoei os elementos com a maldição da comoção; e uma apavorante tempestade se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade - e as pancadas de chuva se abateram sobre a cabeça do homem - e houve cheias no rio - e o rio tornou-se um tormento espumoso - e os nenúfares guincharam em seus leitos - e a floresta foi destroçada pelo vento - e o trovão reverberou - e o raio caiu - e a rocha sacudiu em suas fundações. E eu permaneci encolhido em meu esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão; - mas a noite declinava e ele sentava sobre a rocha.
"Então tomei-me de fúria e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos nenúfares. E foram amaldiçoados, e acalmaram-se. E a lua cessou de cambalear em seu trajeto celestial - e o trovão morreu - e o relâmpago não mais brilhou - e as nuvens pairaram imóveis - e as águas baixaram ao seu nível e aí permaneceram - e as árvores pararam de balançar - e os nenúfares não mais suspiraram - e o murmúrio entre eles não mais se fez ouvir, tampouco o menor vestígio de som em todo o deserto vasto e ilimitado. E eu contemplei os sinais na rocha, e os sinais haviam mudado; - e os sinais eram silêncio.
"E meus olhos pousaram no semblante do homem, e seu semblante estava lívido de terror. E apressadamente ergueu a cabeça da mão onde ela se apoiava, e se pôs de pé sobre o rochedo e escutou. Mas nenhuma voz se ouviu por todo o deserto vasto e ilimitado, e os sinais na rocha diziam silêncio. E o homem estremeceu convulsivamente, e virou o rosto, e fugiu para longe, de modo que não mais o avistei."
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Ora, há belas narrativas dos Magos - nos livros encadernados em ferro, os melancólicos livros dos magos. Neles, afirmo, há gloriosas histórias do Céu, e da Terra, e do poderoso oceano - e dos Gênios que governaram o oceano, e a terra, e o céu elevado. Muito saber havia também nos ditos que foram proferidos pelas Sibilas; e coisas muito sagradas foram escutadas em tempos antigos pelas folhas estioladas que tremiam nos arredores de Dodona - mas, tão certo quanto vive Alá, essa fábula que o demônio me contou quando sentávamos lado a lado à sombra da tumba, considero-a a mais maravilhosa de todas! E quando o Demônio encerrava sua história, ele caiu de costas no buraco da tumba e riu. E eu fui incapaz de rir junto com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque fui incapaz de rir. E o lince que habita a tumba por toda a eternidade saiu dali e deitou-se junto aos pés do Demônio, e o fitou fixamente no rosto.
***

Edgar Allan Poe
"Silence - A Fable"
The Baltimore Book and New Year's Present
Baltimore, 1837.
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