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O rapto de Europa - Mitologia Grega

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Há muito tempo atrás, havia no reino de Tiro um rei, Agenor, cuja filha era muito bela. O nome dela era Europa, e Júpiter apaixonou-se perdidamente por sua beleza.
— Que linda mulher! — exclamava o deus dos deuses, cuidando, no entanto, para não ser ouvido por Juno, sua ciumenta esposa. — Tenho de possuí-la, a qualquer preço.
Movido por essa determinação, Júpiter decidiu utilizar-se de seu estratagema principal, ou seja, o de se metamorfosear em algum ser ou coisa.
Por alguma razão, Júpiter jamais aparecia diante das suas eleitas na sua forma pessoal, preferindo assumir sempre uma outra aparência qualquer. Assim, depois de muito pensar, decidiu transformar-se num grande touro, branco como a neve.
Completada a transformação, Júpiter desceu à Terra envolto numa grande nuvem. Em uma das praias do rei de Tiro e pai de Europa, um rebanho dócil de touros pastava num relvado próximo ao mar. Sem que ninguém percebesse, uma grande nuvem foi se aproximando, até que dela desceu o grande touro, indo colocar-se em meio aos demais.
 Os seus novos colegas de rebanho, a princípio assustados com aquela súbita aparição, abriram um espaço assim que ele pousou sobre a grama. No entanto, como o alvo touro se mostrasse manso e dócil, teve logo sua presença admitida, sem maiores contestações. Ali esteve misturado aos demais, contrastando em relação ao pelo escuro dos outros touros, até que de repente a bela Europa surgiu com suas amigas, rindo e cantando por entre as areias da praia.
As suas companheiras eram belas, também, mas, assim como Júpiter destacava-se em seu rebanho, a filha de Agenor destacava-se em meio ao seu encantador e animado grupo. Era uma manhã luminosa, o sol brilhava sem ferir os olhos, e o céu tinha um tom manso e azulado como os olhos do touro, que observavam, atentos, a aproximação de sua amada.
— Vejam só que belo rebanho! — exclamou Europa, ao ver os boa ajuntados. — Mas o que será aquela mancha branca em meio a eles?
A jovem, destacando-se do grupo, avançou correndo, levantando a barra da sua túnica rendada, que lhe descia até um pouco abaixo dos joelhos.
Quando chegou perto de Júpiter, seus seios arfavam sob a fina gaze de suas vestes. Os grandes olhos azuis do touro branco pousaram sobre a face corada de Europa, de tal modo que a moça não pôde deixar de observar o seu intenso brilho.
— Um touro branco! — disse a moça, encantada. — E que lindos olhos ele tem!
Todas as amigas ajuntaram-se em torno ao animal, que, no entanto, tinha seus grandes olhos azuis postos somente sobre a bela filha do rei.
A moça, postando-se ao lado dele, começou a alisar o pelo sedoso de seu dorso branco, enquanto admirava os seus pequenos e delicados cornos, que tinham o brilho cristalino das melhores pérolas. Embora o aspecto do animal fosse suave, a sua musculatura era rija, o que Europa pôde comprovar ao alisar o seu pescoço. Alguns espasmos musculares percorriam o pelo do touro a cada vez que Europa o acariciava.
De vez em quando o animal inclinava a cabeça, fazendo-a deslizar discretamente pelo flanco de Europa, erguendo com suavidade a fímbria de suas vestes. A filha de Agenor, contudo, permitia tais liberdades por julgá- las apenas um brinquedo inocente do magnífico animal. Retirando-o do grupo, Europa levou-o para passear nas areias da praia, dando-lhe com as mãos algumas flores, que o touro comeu alegremente.
Depois, ele pôs-se a correr ao redor da moça, enquanto as outras o perseguiam, fazendo-lhe festas e agrados. Como o sol começasse a se tornar quente demais — pois era o auge do verão -, as moças, cansadas momentaneamente da brincadeira, despiram-se para dar um breve mergulho no mar. Europa, entretanto, preferiu ficar na areia, a brincar com seu touro branco. Assim, enquanto suas amigas banhavam-se, Europa colhia outras flores, compondo com elas uma bela grinalda que depositou em seguida sobre os chifres do animal.
Depois, montada sobre as suas costas, foi conduzida por ele num trote manso. Enquanto o animal a levava, emitia um pequeno mugido, em sinal de orgulho e satisfação. As amigas de Europa, entretanto, ao verem a nova diversão que a filha do rei inventara, saíram todas correndo do mar, num passo rápido que fazia balançar seus pequenos seios molhados.
Júpiter, porém, ao vê-las avançarem para si, temeu que fossem desalojar Europa das suas costas. Realmente, logo uma delas tocou a cabeça do touro, com a mão coberta de sal:
— Vamos, Europa, deixe-nos andar um pouco! — disse a moça, impaciente.
Júpiter, porém, aproveitando a relutância que Europa manifestava em descer. lançou-se para a frente, num salto ágil, tomando o rumo do mar.
— Ei, esperem, aonde vão?... — exclamou uma das amigas de Europa, com as mãos pousadas na cintura. Júpiter, surdo aos gritos, arremeteu em meio às mulheres que avançavam pela água, obrigando-as a se afastarem, assustadas, para todos os lados.
— Socorro! — gritava Europa, estendendo-lhes as mãos, apavorada com o ímpeto repentino do animal.
O touro, entretanto, avançava mar adentro, deixando atrás de si as mulheres pela praia, a sacudir os braços, impotentes. Imaginando que o touro enlouquecera, temeram que tanto Europa quanto o animal terminariam afogados, logo que ultrapassassem a rebentação. Surpreendentemente, porém, o touro rompeu as ondas, lançando-se num trote ainda mais ágil do que aquele que usara nas areias fofas da praia. E assim se afastou cada vez mais da praia, enquanto Europa procurava manter-se agarrada aos chifres de seu sequestrador.
— Pare... ! Para onde está me levando? — perguntava Europa, enquanto o touro permanecia firme no seu galope, saltando sobre as ondas com a mesma destreza de um golfinho.
Vendo, porém, que o animal parecia determinado a conduzi-la para algum lugar, Europa começou a clamar por socorro, invocando a proteção de Netuno:
— O deus dos mares, veja em que aflição me encontro! — disse a moça, recebendo em seu corpo o vento e as ondas geladas.
De repente, porém, tendo já avançado imensamente pelo oceano, o touro voltou para trás a cabeça e começou a conversar com a assustada Europa.
— Nada tema, bela Europa! — disse o animal. — Eu sou Júpiter e a levo comigo para a ilha de Creta, onde casaremos e você será honrada com uma ilustre descendência.
Europa, mais calma, manteve-se agarrada aos chifres de seu futuro marido. Dentro em pouco chegaram ambos à ilha que o deus dos deuses anunciara.
Tão logo teve os pés postos sobre o chão outra vez, Europa viu o touro branco assumir a forma esplendorosa de Júpiter. Impaciente, o deus supremo carregou-a para dentro da ilha, enquanto Europa ainda tentava ensaiar alguma reação.
Das núpcias deste casal surgiriam três lindos filhos, dentre os quais Minos, futuro rei de Creta.
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Jasão na ilha de Lemnos

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Jasão, o célebre herói grego, havia sido criado longe de casa pelo centauro Quíron.
Enquanto completava sua educação, seu tio Pélias assumira o seu lugar no trono da Tessália. Tendo retornado, já adulto, para assumir a sua condição de rei, foi induzido pelo perverso tio a empreender uma temerária expedição em busca do Velocino de Ouro — uma célebre relíquia que estava guardada no distante reino da Cólquida.
Tão logo tomou essa decisão, Jasão cercou-se de alguns dos mais valorosos heróis de seu tempo, tais como Hércules, Teseu, os irmãos Castor e Pólux, Meleagro e muitos outros.
O construtor do navio foi Argos, razão pela qual o navio foi batizado de Argo, e os seus tripulantes passaram a ser conhecidos por argonautas. O Argo era uma grande embarcação dotada de velas, tendo ao centro um mastro feito com um carvalho profético da floresta sagrada de Dodona, que predizia os bons ou os maus ventos aos navegantes.
Embora tivesse um sistema de mastreação, o navio também previa lugares para remadores, para as ocasiões em que faltassem os ventos. A construção do Argo, acompanhada de perto por Minerva, concluiu-se, afinal, e os seus tripulantes embarcaram, prontos para seguir viagem.
Mas, no momento da partida, o navio recusava-se a sair do lugar. Foi necessário que Orfeu, um dos tripulantes, tocasse sua lira.
Durante alguns minutos ouviram-se somente os sons maravilhosos da música misturados ao marulhar das ondas, até que finalmente o Argo, por si só, fez-se ao mar, sob os gritos de contentamento de toda a tripulação e da população que se despedia dos heróis. Durante vários dias navegaram eles pelos mares da Grécia, até chegar à ilha de Lemnos, onde pararam para descansar e reabastecer-se de víveres.
— Veja! — disse Tífis, o experiente piloto do Argo, a Jasão, que chefiava a expedição. — Há algumas mulheres ali para nos recepcionar.
De fato, a ilha estava repleta de mulheres, que se aproximaram alegremente do Argo, cobrindo os visitantes com flores e coroas de louros. Seus trajes eram curtos, e elas eram também bastante atraentes. Porém, estranhamente, não se via nenhum homem entre elas.
— Onde estão os homens deste lugar? — inquiriu Jasão àquela que parecia a líder do grupo.
— Estão todos descansando — respondeu a estranha mulher.
Os tripulantes do Argo já haviam quase todos desembarcado. Cada uma das mulheres se apoderara de um deles, de tal modo que só havia casais passeando por toda a ilha, o que desagradou um pouco a Jasão:
— Viemos aqui para um piquenique? — disse ele a Tífis, que, entretanto, também já estava de olho numa das belas mulheres.
Jasão, desvencilhando-se delas, foi conhecer melhor a ilha. Andou sozinho por tudo, até que descobriu o cemitério. Ali estavam os túmulos de centenas de homens, todos mortos mais ou menos à mesma época.
— Gosta de túmulos, senhor navegante? — indagou uma voz feminina às suas costas.
Jasão voltou-se para trás, surpreso com a presença inesperada.
— Parece que é este o lugar onde estão descansando todos os homens da ilha — disse Jasão, num tom irônico.
A mulher — a mesma que o recebera no desembarque — sorriu discretamente.
Diferente de antes, tinha agora apenas um fino véu a cobrir a parte inferior da sua cintura.
— Aqui eles não nos causam mais problemas — disse, erguendo os braços e fingindo que se espreguiçava.
— Diga, afinal, o que está acontecendo por aqui — ordenou Jasão, agarrando-a pelos ombros.
 — Ui... Não se zangue, estrangeiro... — disse a mulher, passando de leve o belo nariz aquilino sobre o peito robusto de Jasão.
— Deixe de asneiras e diga o que foi feito dos homens — ordenou novamente Jasão, sacudindo-a com força. Apesar do vigor do chefe dos argonautas, a mulher conseguiu se desvencilhar.
— Quer saber? Pois bem, nós os matamos!
 — Mataram... todos?
— Naturalmente! Eles nos traíam o tempo todo, e este foi o castigo — disse a mulher apontando para os túmulos, alegre e desafiadora. Em breves palavras ela descreveu, então, as humilhações que tiveram de suportar de seus maridos.
Não havia um único dia em que não tivessem notícia da traição de algum deles. Finalmente, revoltadas, decidiram pôr um fim em tudo, matando-os. E assim fizeram. No dia seguinte, não havia mais um único homem vivo em toda a ilha.
— Vênus, no entanto, irou-se conosco — continuou a mulher — e nos inspirou um ardente desejo por novas núpcias. Desde então, vivemos na ânsia de contrair novo casamento, o que, no entanto, jamais se realiza.
— Por que não?
— Bem, não possuímos um navio enorme como o seu, nem saberíamos fabricar outro parecido, para partir em busca de novos maridos — disse ela, aproximando-se com seu passo felino e sensual.
 Jasão, por alguns instantes, aceitou as carícias; porém, lembrando da sua missão, repeliu outra vez a estranha para longe.
Com uma gargalhada divertida, ela rodopiou, fazendo uma volta inteira sobre si mesma, enquanto erguia com as mãos os belos cabelos negros, recolhendo-os acima da cabeça. Seu rosto oval ficava, assim, inteiramente livre, mostrando o traçado perfeito de suas feições, sem nada em torno para ofuscar o brilho intenso do seu olhar. Era uma visão positivamente tentadora para um homem da juventude e da virilidade de Jasão, que há várias semanas não via senão água e homens ao seu redor. Mas ele soube resistir aos seus impulsos, pedindo mentalmente o auxílio de sua adorada Juno.
Dando as costas à nativa da ilha, retornava já para o Argo quando sentiu que a sedenta mulher agarrava-se às suas costas, como uma onça, e cravava os dentes em seu ombro.
Com um safanão, Jasão lançou-a ao solo. A mulher rolou pelo chão, com várias folhas secas coladas à pele. Jasão retornou ao navio. Ao chegar lá, porém, não encontrou ninguém. Furioso com o desleixo, saiu em busca do piloto e dos demais tripulantes.
Aos poucos foi encontrando um a um — ou antes, dois a dois, pois cada qual estava entregue aos braços de uma mulher, fazendo o que ele, Jasão, deixara de fazer. Por alguns momentos teve o desejo de retornar e completar o que deixara pela metade, mas outra vez o senso do dever o obrigou a refrear seus instintos.
De maneira rude pôs fim à folgança de seus tripulantes, separando um a um os amantes, o que pôs à prova pela primeira vez a força do seu braço. De fato, separar os casais revelou-se a tarefa mais difícil de quantas tivera posteriormente de enfrentar; mas, pouco a pouco, conseguiu reunir novamente todos os seus homens e levá-los de volta ao Argo.
Sob o pretexto de uma grave comunicação que tinha para lhes fazer, Jasão reuniu todos no convés do Argo. As mulheres, em terra, acenavam freneticamente, chamando de volta os homens, de forma que os argonautas passaram por uma prova semelhante à de Ulisses, diante do canto tentador das sereias. Enquanto os tripulantes aguardavam o começo da preleção, Jasão se afastou e cortou discretamente as amarras que prendiam o navio à terra, fazendo com que ele navegasse velozmente para longe da perigosa ilha.
Um desconhecido marinheiro, porém, pulou pela amurada afora e foi reunir-se às mulheres, em terra. Depois de um tempo, elas acabaram por descobrir que ele as traía, desrespeitando o rodízio estabelecido por aquelas ardentes e insaciáveis mulheres, e terminaram por matá-lo e acrescentar uma lápide a mais no cemitério.
Enquanto isso, Jasão conduzia o Argo em direção ao Velocino de Ouro. 
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Eco e Narciso

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— Não agüento mais essa tagarela da Eco — segredou um dia a deusa dos bosques a uma das suas ninfas.
De fato, não era só Diana que não suportava mais o falatório da ninfa nenhuma das suas amigas podia mais vê-la pela frente sem fugir de sua língua incansável. Apesar de ser tão bela quanto a mais bela das ninfas, Eco tinha a mania incontrolável de falar pelos cotovelos.
 — Por que não se cala de vez em quando? — diziam-lhe as amigas.
— Homem algum suportará uma mulher que fale sem parar, mesmo sendo tão bela como você.
Mas Eco não se corrigia e prosseguia falando, até a exaustão. Um dia, porém, meteu-se com Juno, a esposa de Júpiter, e isto foi a sua ruína.
O deus dos deuses havia dado mais uma de suas escapadas, e Juno andava por perto, farejando o seu rastro. A própria Eco já gozara dos favores de Júpiter e prometera ocultar, a pedido do grande deus, os amores que ele agora mantinha com outra ninfa.
A deusa dos bosques não queria saber de fofocas e por isso fazia vistas grossas ao namoro. Afinal, meter-se com o deus supremo podia trazer-lhe problemas funestos. Certo dia, porém, Juno, tomada pela cólera, chegou quase a tempo de flagrar o esposo nos braços da tal ninfa.
Eco, após alertar o casal, dissera a Júpiter:
— Deixem comigo, eu a distrairei enquanto vocês escapam. E assim fez, realmente.
Tão logo Juno chegou, Eco apoderou-se dela com uma longa conversa, repleta de digressões e subterfúgios. Mas Juno, acostumada as desculpas esfarrapadas do marido, compreendeu logo a intenção da ninfa, que se achava mais esperta do que realmente era:
— Cale a boca! — disse, empurrando-a. — Pensa que me engana com sua conversa mole, sua atrevida?
Eco, assustada e com as mãos da furiosa deusa impressas nos ombros, calou-se. Mas era tarde demais.
— Porque pretendeu me fazer de boba a punirei, fazendo com que nunca mais possa dizer nada a não ser as últimas palavras que escutar — amaldiçoou Juno.
— ... as últimas palavras que escutar... —repetiu Eco, em cuja boca o feitiço já começava a atuar.
 — Ai está o que ganhou com seu atrevimento — disse Juno, vingada. — Adeus, idiota!
 —... adeus, idiota... -repetiu Eco e tapou rapidamente a boca com as duas mãos.
A notícia da maldição de Juno espalhou-se ligeiro por entre as ninfas:
— Bem-feito, sua ordinária — disse um dia uma rival a Eco.
— ... sua ordinária... — respondeu Eco, que ao menos podia, às vezes, responder à altura os desaforos que escutava.
Assim vagou a ninfa por entre os bosques durante muitos anos, até que um dia, caminhando pelas montanhas, encontrou Narciso, um jovem caçador que havia se extraviado de seus colegas.
Eco, ao colocar os olhos sobre a beleza do jovem, tomou-se imediatamente de amores por ele. Seguiu-o por um longo tempo imaginando qual o melhor meio de se aproximar dele, até que, ao pisar num galho solto, despertou finalmente a atenção do moço.
— O que foi isto? — perguntou o rapaz. — Há por aqui mais alguém?
— ... mais alguém... — repetiu Eco.
— Chegue mais perto — disse Narciso, sem ver ninguém.
— ... mais perto... — disse Eco e mostrou-se, finalmente, tendo antes o cuidado de ajeitar os cabelos. Decepcionado por ver que não era nenhum de seus companheiros, Narciso simplesmente perguntou:
— Diga-me, ninfa, como faço para sair daqui?
— ... sair daqui — replicou Eco, agoniada, pois a última coisa que desejava era que ele fosse embora.
Não podendo expressar com suas próprias palavras o seu amor, sem que antes o estranho o declarasse para ela, a ninfa desesperou-se e resolveu tomar uma medida drástica. Estendendo os braços, lançou-se para ele num frenético abraço. "Talvez ele entenda os meus sentimentos", pensou.
— O que está fazendo? — exclamou Narciso, atirando-a ao solo com um empurrão. — Não quero o seu amor!
— ... quero o seu amor... — repetiu a ninfa, vendo Narciso dar-lhe as costas e escapar rapidamente por uma vereda do bosque.
Mas em matéria de amor Eco era um desastre. Consciente de seu fracasso, a pobre ninfa recolheu-se para o interior de uma caverna no bosque. Ali, após enfadar durante longos anos as paredes da gruta com seus lamentos e lágrimas, viu seu corpo, aos poucos, dissolver-se na escuridão da caverna, até passar a fazer parte dela.
Da pobre ninfa só restou sua voz cava e profunda, a repetir sempre as últimas palavras que os passantes pronunciassem. Narciso prosseguiu com suas caçadas e a tratar com rudeza as ninfas que o perseguiam. O jovem caçador era pretensioso e arrogante, e mulher alguma parecia bastar à sua vaidade. Inclusive corria uma lenda que dizia que quando Narciso nasceu, um oráculo teria anunciado que ele poderia viver muito tempo, se jamais enxergasse a si próprio.
Seu pai, por via das dúvidas, quebrou todos os espelhos da casa. Temendo que o filho procurasse o próprio reflexo em alguma outra parte, adquiriu um espelho mágico, no qual Narciso via sua imagem sempre distorcida. Mesmo assim, sua beleza era tal que o arrogante rapaz não desgrudava do bendito espelho.
— Como sou lindo... — dizia, sempre que tinha o espelho nas mãos.
Um dia, porém, durante uma caçada mais agitada, o espelho que trazia sempre em seu bolso partiu-se. Juntando os cacos pôde ver apenas, com lágrimas nos olhos, o reflexo estilhaçado da própria beleza.
— Que lindos pedaços! — ainda se admirou, numa vaidade residual e fragmentária.
Abalado e cansado da caça, Narciso meteu-se para dentro das profundezas do bosque, próximo da gruta onde Eco vivia. Ah perto havia um pequeno lago. absolutamente deserto e silencioso. Sobre suas plácidas águas nem um único cisne deslizava.
As árvores, nas margens, inclinavam-se para longe do espelho cristalino de suas águas, como que tentando escapar de seu intenso reflexo. Narciso, chegando à margem, debruçou-se para tomar alguns goles I límpida água. Ao fazê-lo, percebeu que alguém o observava de dentro da água. Fascinado com a beleza daquele semblante inigualavelmente belo, Narciso teve de admitir que era mais perfeito ainda do que o seu próprio rosto.
— Quem é você, rosto adorável, que me contempla deste jeito? — perguntou à efígie encantadoramente bela, que o mirava apaixonadamente nos olhos.
O rosto lindo, porém, não lhe respondia, nem a esta nem às outras solicitações. Por várias vezes Narciso tentou, sem sucesso, seduzir aquele rosto magnífico. Um dia debruçou-se a ponto de encostar os lábios à liquefeita boca da imagem. Porém, ao fazê-lo, viu o belo estranho turvar-se, o que o encheu de pânico.
— Não, não fuja! — exclamou, assustado, descolando rapidamente os lábios da água, o que fez a imagem retomar, aos poucos, a sua anterior nitidez.
— Por que rejeita meus beijos? Pela primeira vez Narciso descobria o que era a dor do amor não-correspondido. Apesar do jovem erguer cada vez mais a voz, Eco, que ouvia tudo, excepcionalmente não lhe repetia as últimas palavras.
Vítima da crueldade de Narciso, gozava agora, secretamente, a sua vingança. O único ruído que escapava da caverna era um riso baixinho, que o vento produzia ao passar pelas fendas das pedras.
O jovem caçador foi perdendo a sua cor. Suas faces murchavam, seu cabelo crescia desmesuradamente — a ponto da franja cair-lhe pelos olhos — e seu nariz, perfeitamente aquilino, apresentava uma coriza continuamente a escorrer.
Mas nada disso era o bastante para fazer com que ele deixasse de amar aquele rosto magnificamente belo. Assim foi definhando lentamente o pobre Narciso, às margens do lago. Sem poder consumar o seu amor, acabou se transformando numa bela flor roxa de folhas brancas, sempre debruçada sobre o leito das águas.
Sua sombra infeliz embarcou no mesmo dia na barca de Caronte, atravessando o Estige rumo ao país das trevas. Mas nem o severo barqueiro pôde impedi-lo de, enquanto fazia a travessia, reclinar-se outra vez para mirar-se nas águas do rio infernal. 
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Baco aprisionado - Mitologia Romana

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Assim que Baco, filho de Júpiter e de Sêmele, nasceu da coxa do próprio pai, este chamou Mercúrio e ordenou-lhe que levasse o garoto para ser criado pelas ninfas do Nisa, um lugar ameno e paradisíaco.
— Lá ele estará em perfeita segurança — disse Júpiter, com alegria.
O pequeno Baco foi entregue às ninfas e também a um estranho e divertido ser chamado Sileno, filho do deus Pã, que se tornou o pai adotivo do futuro deus das vinhas.
Durante seus primeiros anos Baco participou, junto com Sileno — sempre bêbado e a cair de cima de seu inseparável burrico -, de toda espécie de brincadeiras.
Mas se o velho Sileno sabia ser brincalhão — e mesmo irresponsável, muitas vezes -, também sabia demonstrar que era dono de profundos conhecimentos, que sua aparência exótica e pouco respeitável podia fazer adivinhar.
— Deixe que falem — hic! — o que quiserem! — dizia Sileno, erguendo-se do são. amparado pelo jovem pupilo.
— Sileno sabe mais — hic! — que todos os sabichões da Terra...

Um dia o jovem Baco, vestido com seu manto púrpura, resolveu ir até a praia e lá adormeceu. Neste ínterim havia se aproximado da costa um grande navio — na verdade, um navio pirata — que andava à caça de nova presa.
 Um grupo de marinheiros desceu à terra para buscar água, e quando estes pisaram nas areias claras deram de cara com o belo rapaz adormecido. Sua tez delicada, seus lábios rubros e o todo mais de sua aparência denunciavam que seria filho, ao menos, de um senhor poderoso do lugar. Quem sabe, até, do próprio rei.
— Vamos levá-lo conosco — disse o mais rude daqueles homens.
— Poderemos pedir por ele um belo resgate.
Entretanto, o timoneiro, Acetes, tinha bom olho para as coisas divinas e percebeu logo que o garoto tinha algo de estranho.
— Deixemos o rapaz em seu lugar e vamos embora de uma vez — disse ele -, pois não pressagio nada de bom desta aventura.
— Virou Cassandra, agora? — disse Lícabas, o mais feroz e impiedoso dos piratas, com uma gargalhada assoprada que fez espirrar no rosto do pobre timoneiro uma chuva de seus perdigotos podres.
Acetes, conhecedor do estratagema do vilão, deixou para limpar depois o produto infecto da boca do asqueroso Lícabas, pois sabia perfeitamente -já vira, na verdade, por duas vezes acontecer o mesmo — que limpar o rosto diante dele era decretar a própria morte.
O garoto foi, então, embarcado, mas não à força, porque não opôs nenhuma resistência contra seus raptores. Estranhamente calmo, Baco só fazia observar docilmente aqueles homens sujos e cruéis.
"Verdadeiramente é um deus!", pensava o bom Acetes, observando o rapaz.
— Dirija direito este troço! — disse uma voz ao seu lado.
Era um dos piratas, que fora destacado pelo próprio Lícabas para vigiar o timoneiro.
Enquanto isto, Lícabas, que fora se tomando cada vez mais de antipatia pelo jovem deus, ordenou de repente a um de seus marujos:
— Amarrem esta mocinha! — disse, acentuando bem a última palavra.
E antes que dessem cumprimento a sua nefanda ordem, aproximou bem a horrível carranca do rosto delicado de Baco.
— Frisou hoje cedo os lindos caracóis, menina loira? — disse o sórdido Lícabas, arreganhando a horrível dentadura, na qual se podiam perceber três dentes acavalados a disputarem o mesmo espaço. Depois, tomando sua faca, enrolou um dos cachos loiros sobre o fio, como se fosse frisá- lo, mas os fios partiram-se.
— Ora, menina, que pena! — disse. — Eu só ia fazer mais um cachinho...
Um jato de perdigotos explodiu da boca de Lícabas, como a onda esbatida que o vento impele, no inverno, sobre a costa pedregosa — mas, curiosamente, nenhuma das gotas apodrecidas foi alojar-se no rosto do jovem Baco.
— Cadê a corda, sardinhas regurgitadas pelo gato? — perguntou Lícabas, que mudava de espírito como o céu muda durante o verão abrasante.
Um boçal bem mandado surgiu carregando um rolo áspero de cordas.
— Deixa ver — disse Lícabas, esfregando um pedaço sobre a parte interna do braço.
— Não serve; traga outra! Um rolo de fios de cobre espetado surgiu, nos braços do mesmo homem. Depois de testá-lo, o vil Lícabas aprovou.
-Amarrem-no, já! Três homens fortes tomaram da corda e enrolaram Baco num abraço odioso.
Mas, coisa estranha!, tão logo terminavam de fazer os nós, eles se desmanchavam como por encanto, e a corda caía aos pés de todos, sem provocar o menor arranhão na vítima.
— Imbecis! — disse Lícabas. — Tratem de fazer um nó decente ou mandarei dar um nó nas tripas de cada um de vocês! Trinta nós foram feitos, e os mesmos trinta nós desfeitos, até que o sol caísse.
De repente, porém, o navio parou em meio ao mar. Parou, simplesmente. Ninguém sabia explicar o motivo.
— O vento cessou de todo — explicou Acetes ao capitão, temendo uma reação brutal.
— Então dêem nos remos! — ordenou Lícabas, que sabia dividir o instante das punições com o instante da ação. Os remos foram lançados com estrídulo à água, mas na mesma hora viram-se enrolados por um emaranhado de algas. Ao mesmo tempo começou a subir pelo mastro a folhagem espessa das vinhas, que se espalhou por todo o convés.
— Vejam, está chovendo! — disse um dos marinheiros, estendendo a mão.
Mas não era uma chuva normal, e sim uma chuva de vinho, que num instante cobriu todos de vermelho. Alguns, é verdade, gostaram da peça e abriam suas bocas para receber o produto da grande nuvem vermelha pairada acima do barco.
Mas quando Lícabas, que não era homem para graças, enterrou uma espada dentro da garganta do primeiro, a brincadeira acabouse ali. Baco, misteriosamente, tinha agora ramos da vinha pendurados atrás das orelhas e portava em sua mão um grande tirso, com a ponta encimada por uma enorme pinha.
Como quem rege um concerto de flautas, Baco agitava o seu cetro, com um sorriso alegre estampado no rosto — o sorriso da embriaguez divina! O convés encheu-se, também, de animais silvícolas, enormes e assustadores. Enormes felinos espalhavam-se por todo o barco — tigres, linces e um jaguar que parecia divertir-se imensamente com aquilo tudo -, o que tomou os marinheiros de pavor.
— Verdadeiramente, este rapaz é um deus ou um demônio! — exclamou um deles, lançando-se borda afora. Muitos outros o seguiram, mas tão logo alcançavam a água, viam seus corpos mudarem abruptamente para algo inumano.
Lícabas, o último que relutava, ainda, em abandonar o barco, de repente começou a perder o equilíbrio.
— Mas o que é isso? Maldição! — disse, enquanto observava seus pés unindo-se por uma estranha membrana, quase transparente. Suas pernas também foram perdendo o pêlo espesso que as recobria e tornando-se lisas como a pele de um peixe. Num último instante, antes de enlouquecer, o sórdido Lícabas chegou a achar graça daquela estranha metamorfose que se operava em si próprio.
— Estarei enlouquecendo, então? — exclamou, dando sua última gargalhada. Mas não foi de sua boca que saiu, desta vez, o infame jato, mas de uma protuberância instalada bem no alto de sua cabeça.
Lícabas, bem como todos os seus homens — à exceção do bom Acetes -, haviam se transformado em golfinhos, que tubarões ferozes perseguiam em alucinante disparada.
— Sou Baco, deus do vinho e da alegria! — disse o jovem, com os olhos refulgentes, ao timoneiro.
— Leve-me de volta e instaure um templo, em meu nome, em todas as terras por onde andar, para que se possam celebrar neles os meus sagrados ritos.
Assim se fez, e desde então Baco obrou ainda muitos e mil outros prodígios.
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O rapto de Ganimedes - Mitologia Grega

Posted by : Redação

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Júpiter tinha como animal de estimação uma linda águia. Esta ave, branca e imensa, era a mesma que levara ao deus dos deuses o néctar, durante sua perigosa infância, na ilha de Creta, quando vivia escondido do pai, Saturno, que comia os próprios filhos.
Júpiter, agora adulto e na condição suprema de deus dos deuses, casara-se com Juno e dela tivera uma filha chamada Hebe. Ela estava encarregada de servir o néctar aos deuses, durante os seus ociosos e felizes encontros. Hebe, considerada a encarnação da juventude, parecia não se incomodar com a humilhante tarefa, e era sempre sorrindo que derramava nas taças dos deuses o néctar que trazia em sua jarra.
Mas um dia, Hebe, um tanto descuidada, resvalou em pleno salão do Olimpo e caiu com a jarra. Seu pai, Júpiter, desgostou-se com o lamentável desempenho e demitiu-a no ato. A partir daquele instante, a corte celestial não tinha mais quem servisse os deuses, problema que, num lugar onde os problemas eram poucos, revestia-se de relevante importância.
— Júpiter, querido — disse um dia Juno ao seu esposo. — Se você não quer mais que nossa desastrada filha reassuma suas antigas funções, trate de arrumar alguém para tomar o seu lugar.
— Você poderia exercê-las perfeitamente, querida Juno — disse Júpiter.
Juno nem se deu ao trabalho de responder, simplesmente deu-lhe as costas, seguida de seu pavão de estimação, que parecia também ofendido.
Júpiter, reclinando-se em seu trono, pensou um pouco. Depois, levantando-se, foi até a janela espiar a Terra, sua distração principal. Observar os mortais era também um bom calmante, pois, ao ver as loucuras e confusões nas quais eles viviam metidos, as apreensões do grande deus diminuíam.

No exato instante em que Júpiter deitou para baixo o seu olhar, ele caiu sobre um belo rapaz que passeava em meio a várias ovelhas, por um prado ameno e recoberto de flores. Era Ganimedes, filho do rei de Tróada. Apesar de sua alta condição, era pastor, e neste instante guiava o seu rebanho.
O jovem trazia à cabeça um barrete frígio, tendo jogado displicentemente às costas um pequeno manto. Sua compleição física destacava-se em meio à brancura das ovelhas, o que logo atraiu Júpiter.
— Ora, vejam... Este belo rapaz daria aqui um ótimo serviçal! — disse o deus dos deuses, alisando as barbas. Assim, sem pensar em mais nada, o rei dos deuses decidiu simplesmente raptá-lo, levando o jovem para morar no Olimpo com os deuses.
Num instante, Júpiter fez um sinal para sua águia, que estava sempre por perto.
— Minha querida — disse Júpiter à ave -, desça já à Terra e traga-me aquele belo rapaz!
A ave estendeu suas imensas asas e arremessou-se ao abismo, como uma flecha recoberta de penas. Enquanto isto, Ganimedes, alheio a tudo, continuava a pastorear o seu rebanho. Como o sol estivesse um tanto forte, o rapaz decidiu sentar-se um pouco sobre uma pedra, à sombra de uma grande árvore. Puxou uma flauta rústica para distrair-se e acalmar as ovelhas.
Mas por entre as nuvens já pairava a imensa águia, atenta. Do alto observava o alvo rebanho, como outra nuvem que estivesse pousada ao chão. Quando percebeu que o inocente jovem estava inteiramente entregue à sua distração, destacou-se das nuvens e arremeteu com suas grandes garras expostas.
Ganimedes, erguendo um pouco o olhar, percebeu que uma grande sombra ocultava por instantes a luz do sol. Antes que entendesse direito o que era aquilo, sentiu em seus ombros a pressão dolorida das garras da águia.
O jovem não teve tempo de ver o que o feria. Sentiu apenas que se elevava cada vez mais pelos ares, enquanto observava, atônito, as suas ovelhas diminuírem lá embaixo, até se tornarem somente um pontinho branco no imenso tapete verde do campo. O vento frio arrebatara o seu manto ao mesmo tempo em que deixava em selvagem desalinho a sua cabeleira revolta. Mas à medida que subia, o calor do sol esquentava Ganimedes.
Quando ficava quente demais, a ave agitava com mais força as suas asas, para aliviá-lo do calor.
— O que quer de mim? — gritava o jovem à sua raptora.
A águia, entretanto, permanecia em majestoso silêncio, ascendendo cada vez mais com sua presa para além das nuvens. Assim foram subindo, até que Ganimedes, por entre as brumas das regiões superiores, viu surgir afinal o palácio majestoso de Júpiter.
Em instantes o jovem, mudo de espanto, foi depositado diante do trono do pai dos deuses.
— Meu caro jovem! — disse Júpiter, com um ar de boas-vindas. — Saiba que a partir de hoje você passará a fazer parte de minha corte celestial.
A esposa de Júpiter, que também aguardava o jovem, mostrava-se bastante surpreendida com sua beleza, admitindo que seu marido fizera uma bela escolha.
— O que querem de mim? — exclamou Ganimedes, que não sabia se ficava alegre diante dessa notícia ou se a lamentava.
Vênus, a bela deusa do amor, que também estava por ali, adiantou-se:
— Permita, Júpiter, que eu converse um pouco com ele — disse, entusiasmada. — Estou certa de que nos entenderemos às mil maravilhas.
Júpiter assentiu, enquanto Vênus, envolvendo com seu braço a cintura do jovem, conduziu-o até um recanto afastado nos jardins perfumados do Olimpo.
Ganimedes, apesar de assustado com tudo, ficou fascinado com a beleza daquela deusa, que o tomava, assim, em seus braços, com a intimidade de uma velha amiga.
— Você teve a honra de ser escolhido dentre os mortais para ser o novo servidor de Júpiter e de todos os deuses — disse-lhe Vênus, fazendo uma pausa na caminhada, com os olhos fitos em Ganimedes. O jovem podia sentir o calor da pele da deusa envolvê-lo como uma veste imaginária.
 — A partir de agora você será um de nós, tendo também o dom divino da imortalidade. Agora, meu querido, vamos tratar destas pequenas feridas, caso contrário você não poderá vestir tão cedo o seu novo e elegante traje — completou a deusa.
Vênus levou, então, o seu hóspede para um dos aposentos do palácio de Júpiter, onde soube consolá-lo, de maneira bastante eficiente, das suas saudades terrenas. Enquanto isso, Júpiter, percebendo que o pai do jovem raptado ficara inconsolável com a perda do filho, decidiu recompensá-lo.
Já era noite estrelada quando o mensageiro de Júpiter apresentou-se diante do infeliz rei e da sua esposa. Ambos mostravam-se inconformados com a perda do filho.
— Rei poderoso! — disse-lhe Mercúrio, num tom solene. — Venho aqui, em nome de Júpiter, para lhe comunicar que seu filho é agora um deus.
— Ganimedes imortal...! — exclamou o pobre rei, sem saber o que dizer.
Sua esposa, que preferia seu filho humano, mas ao seu lado, perguntou, aflita:
— Mas nunca mais veremos nosso amado Ganimedes?
— Não, nunca mais — respondeu Mercúrio -, a não ser no céu, onde poderão enxergá-lo em noites claras como esta, sob a forma do zodíaco de Aquário.
Em compensação, Júpiter lhes manda estes dois magníficos presentes, que acalmarão em seus corações a aflição provocada por essa dolorosa perda. Mercúrio, com ar triunfal, descobriu, então, diante dos olhos do velho casal, um magnífico cepo de ouro, que esplendeu majestosamente na escuridão da noite.
Depois fez surgir uma maravilhosa parelha de cavalos que, lançando-se pelo prado, pôs-se a correr ao redor deles, numa cavalgada mais veloz do que a do próprio vento.
O rei e a rainha, no entanto, não viram nenhuma dessas maravilhas: abraçados, tinham os olhos postos no céu, à procura do filho. 
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Dafne e Apolo - Mitologia Grega

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Apolo era considerado um ás da pontaria, desde que abatera a serpente Tifão, a fera que perseguira sua mãe, Latona, quando o deus era ainda criança. Um dia Apolo caminhava pela estrada que margeava um grande bosque, quando se encontrou com Cupido.
O jovem deus, filho de Vênus, estava treinando a sua pontaria, solitariamente, em cima de uma pedra. Sem ser notado, Apolo parou para observar a postura do jovem. Com um dos pés escorado sobre uma saliência da rocha, o deus do amor procurava ganhar o máximo de equilíbrio para assestar com perfeição a pontaria.
Seu braço esticado, que segurava o arco, era firme sem ser demasiado musculoso; o outro, encolhido, segurando a flecha, tinha o cotovelo apontado para suas costelas, enrijecendo o seu bíceps; todo o conjunto, desde o porte até a dignidade dos gestos, demonstrava grande elegância, e mesmo os músculos das pernas pareciam distendidos, como a corda presa às duas extremidades do arco.
 Apolo não conseguiu deixar de sentir uma certa inveja diante da graça do seu involuntário rival. Não podendo mais se conter, saiu das sombras e revelou ao deus do amor a sua presença.
— Olá, jovem arqueiro. Treinando novamente a sua pontaria?
— disse Apolo, pondo um indisfarçado tom de ironia na voz.
— Sim — disse Cupido, sem virar o rosto para o outro.
— Quer treinar um pouco, também? Apolo, imaginando que o outro debochava dele, reagiu com inesperada rudeza:
— Ora, moleque, e quem vai me ensinar alguma coisa? Você?
Cupido, guardando suas setas, já se preparava para se retirar, quando Apolo o provocou novamente:
— Vamos, treine, treine sempre, garotinho, e um dia chegará a meus pés! — disse o deus solar, com um riso aberto de triunfo.
Cupido, no entanto, revoltado com a presunção do deus, sacou de sua aljava duas flechas: uma de ouro e outra de chumbo. Seu plano era acertar em cheio o peito de Apolo, com a primeira flecha.
— Vamos provar agora, um pouco, da minha má pontaria! — disse o deus do amor, mirando o coração de Apolo.
Num segundo a seta partiu, assobiando ao vento e indo cravar-se no alvo com perfeita exatidão. Apolo, sem perceber o que atingira seu peito — pois as flechas do deus do amor tornam-se invisíveis assim que atingem as vítimas —, sentou-se ao solo, abatido por um langor nunca antes sentido. Mas Cupido ainda não estava satisfeito.
Por isso, enxergando Dafne, a filha do rio que se banhava no rio Peneu, mirou em seu coração a segunda flecha, a da ponta de chumbo, e a disparou. Enquanto a primeira seta provocava o amor, esta, endereçada a Dafne, provocava a repulsa. Assim, Cupido dava início à sua vingança.
— Divirta-se, agora! — disse Cupido, sumindo-se no céu com seu arco.
Apolo, após recuperar suas forças, ergueu-se e entrou no bosque, como que impelido por alguma atração irresistível. Tão logo atravessou as primeiras árvores, seus olhos caíram sobre a bela ninfa, que secava os cabelos, torcendo-os delicadamente com as mãos.
— Se são belos assim em desalinho, como não serão quando arrumados? -perguntou ele, já bobo de amor.
A ninfa, escutando a voz, voltou-se para o lugar de onde ela partira. Assustada ao ver que aquele homem de louros cabelos a observava atentamente, juntou suas vestes e saiu correndo, mata adentro. Apolo, num salto, ergueu-se também.
— Espere, maravilhosa ninfa, quero falar com você.
Nunca em sua vida Dafne havia sentido tamanha repulsa por alguém como sentia pelo majestoso deus solar. O pior e mais feio dos faunos não lhe parecia no momento mais odioso do que aquele homem que a perseguia com fúria.
— Afaste-se de mim! — gritava Dafne, enojada.
Apolo, acostumado a ser perseguido por todas as mulheres, via-se agora repelido de forma tão definitiva.
— Por que foge assim de mim, ninfa encantadora? — dizia, sem compreender.
Sem saber como agir diante de uma situação tão inusitada, o desnorteado deus pôs-se a falar de si, da sua beleza tão elogiada por todos, de seus dotes, suas glórias, seus tributos e as infinitas vantagens que Dafne teria em juntar-se a ele, o mais cobiçado dos deuses.
Mas o mais belo dos deuses desconhecia um pouco a mentalidade feminina, senão teria falado mais da bela deusa em vez de falar tanto de si próprio. Ao perceber, porém, que a corrida desenfreada da jovem acabaria por deixá-la extenuada, o deus gritou:
— Espere, diminua o seu passo que diminuirei também o meu!
A ninfa, reconhecendo a gentileza de seu perseguidor, diminuiu um pouco o ritmo. Apolo, no entanto, que diante da diminuição da distância vira aumentar os encantos da sua amada, acelerou involuntariamente o seu passo, renovando o terror na amedrontada Dafne.
 — Mas que canalha! — indignou-se a ninfa, tomando novo impulso para a corrida, mas já estava exausta e não era páreo para Apolo, o deus do astro que jamais se cansa de percorrer o Universo, todos os dias.
Sentindo um peso nas pernas, Dafne voltou o rosto aterrado para trás e percebeu que as mãos do deus quase tocavam os seus fios de cabelo. Contornando a mata, retornou outra vez à margem do rio Peneu, clamando pela ajuda do velho rio:
— Socorro, Peneu! Faça com que eu perca de vez esta beleza funesta, já que ela é a causa de todos os meus sofrimentos! — disse, disposta a entregar à natureza todos os seus dons em troca da liberdade. Dafne, a alguns passos do rio, deu um salto, pretendendo atingir a água. mas seu tornozelo foi agarrado pela mão firme de Apolo, fazendo com que seu corpo caísse sobre a grama verde e fofa das margens. Um suspiro forte escapou de seus lábios entreabertos, com o impacto da queda.
Ainda tentou rastejar em direção à água, porém sem sucesso. Apolo, cobrindo-a de beijos, recusava-se a largá-la.
Finalmente, com um suspiro de alívio, a ninfa sentiu que seu corpo começava a se recobrir com uma casca áspera e grossa, enquanto seus cabelos viravam folhas esverdeadas. Descolando finalmente seus pés da boca do agressor, Dafne sentiu que eles se enterravam na terra, transformando-se em sólidas e profundas raízes. Apolo, ao ver que sua amada estava para sempre convertida numa árvore — um loureiro -, ainda tentou extrair do resto de seu antigo corpo um pouco do seu calor, abraçando-se ao tronco e procurando-lhe os lábios. Não encontrou a suavidade do antigo hálito da ninfa, mas apenas o odor discreto da resina.
Apolo, desconsolado, despediu-se levando consigo, como lembrança, algumas folhas, com as quais enfeitou sua lira. Enfeitou também a fronte com estas mesmas folhas, em homenagem a Dafne — a mulher que nunca foi nem jamais será sua. 
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Deucalião e Pirra - Mitologia Grega

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A humanidade conheceu várias épocas, desde a sua criação — épocas que a história batizou de Idades. Na primeira delas, a Idade do Ouro, todos eram felizes. Apesar do nome, ninguém, então, pensava em ouro.
A velhice não existia, tampouco as doenças. Reinava uma primavera permanente, os alimentos brotavam da terra por si sós, e a inocência imperava por tudo. Depois dessa idade feliz seguiu-se a Idade da Prata, na qual a eterna primavera deu lugar às quatro estações e a terra passou a ter de ser cultivada para oferecer os seus frutos.
A decadência prosseguiu com a Idade do Cobre, na qual começaram as disputas entre os homens, até que se chegou, finalmente, à Idade do Ferro, quando o crime fez a sua entrada triunfal entre os mortais. A paz abandonou definitivamente a Terra, que ficou entregue à cobiça dos homens.
As coisas estavam nesse estado quando Júpiter, deus dos deuses, observando o caos que se instalara, decidiu pôr um fim nele.
Enfurecido, chamou um dia à corte o seu irmão Netuno.
— Meu irmão, creio que é chegada a hora de castigarmos estes mortais insanos, que transformaram o paraíso terrestre num horrível lugar de dor.
— Estou de acordo, meu poderoso irmão — respondeu Netuno.
— O que você sugere? Júpiter ordenou ao irmão que fendesse a terra com um golpe de seu poderoso tridente.
Dali se abririam as comportas das águas dos mares, que, uma vez liberadas, inundariam o mundo todo. Netuno, retirando-se, foi fazer exatamente o que Júpiter lhe dissera. Chegou a um vale seco e pedregoso e empunhou o tridente, erguendo-o para o alto.
Em seguida, o fez descer à terra com tamanha força que o enterrou quase inteiro no solo. Uma rachadura começou a se espalhar do ponto onde se abatera o golpe, espraiando-se para todos os lados, como se fossem as raízes de uma árvore invisível.
Daquelas imensas fissuras começou a brotar a água submersa, que corria por debaixo da terra em imensos e borbulhantes veios. Netuno foi por todas as partes golpeando o solo, até que em menos de um dia a terra começou a desaparecer, engolida pela água.
Diante dos olhos deliciados de Júpiter — que a tudo observava do alto -desfilaram envoltos em ondas de incrível ferocidade gafanhotos, moscas, ratos, esquilos, zebras, leões, elefantes, casas, templos e palácios. Em meio a tudo isso, passavam homens, agarrados em qualquer coisa que sobrenadasse na violência das águas.
A maioria das pessoas, no entanto, passavam já mortas. As aves, não encontrando mais nenhum lugar seco onde repousar, deixavam-se cair às águas, renunciando à luta pela vida. No entanto, Júpiter resolveu poupar da destruição um homem e sua esposa, que considerava os únicos justos sobre a face da Terra. Deucalião e Pirra eram seu nomes. Ao verem que tudo naufragava sob as ondas impetuosas, Deucalião abraçou-se à esposa, e foram ambos refugiar-se num velho barquinho.
As águas rapidamente cobriram tudo, enquanto suspendiam a frágil embarcação até o topo do monte Parnaso, o último lugar seco da Terra. Netuno, vendo sua tarefa cumprida, chamou logo os seus tritões, semideuses marinhos metade homens, metade peixes.
— Vão, agora, e devolvam tudo à normalidade — disse, com autoridade.
Um exército de tritões partiu, espalhando-se pela Terra. Surgindo de vários pontos das águas, fizeram soar as imensas conchas marinhas, o que milagrosamente fez as águas recuarem de volta aos leitos dos rios e dos oceanos.
Rapidamente as águas foram baixando, deixando à mostra outra vez as árvores, as casas, os templos, os palácios e uma multidão de homens e animais mortos. Parecia que era a própria Terra que ressurgia de dentro das águas, toda lavada e pronta para ser novamente ocupada. O único casal de sobreviventes vagou, assim, pela Terra, revendo antigos lugares que antes fervilhavam de pessoas, mas que agora eram habitados somente pelo silêncio.
De mãos dadas penetraram num grande teatro, onde dias antes uma multidão alegre rira das piadas e gracejos de uma velha comédia, pouco antes de morrer afogada. No centro do palco, Deucalião enxergou o cadáver de um dos atores, que ainda tinha presa ao rosto uma máscara, toda dobrada e enferrujada. Curioso, retirou o dourado e sorridente adereço, mas por detrás da máscara só havia agora uma caveira pálida, que sorria, a seu modo, o grande e compulsório sorriso da Morte.
Pirra virou o rosto para o lado, com um ar compungido.
— Vamos, Deucalião. Aqui só há desolação e morte!
Viram também templos desertos, onde as estátuas dos deuses que não haviam tombado ainda permaneciam em pé, em poses e gestos tão vividos que pareciam prestes a descer de seus nichos para ocupar o lugar dos vivos. Passaram por ruas desertas. Entraram e saíram de casas vazias. Percorreram cidades inteiramente abandonadas. Tudo estava ocupado pela morte.
— Ninguém sobreviveu à cólera de Júpiter, a não ser nós! — disse Deucalião à esposa.
— Oh! — gemia a mulher. — Que faremos vivos, num mundo de mortos?
— Procuremos nos consolar, minha querida Pirra! — exclamou Deucalião, que intimamente estava grato a Júpiter por haver poupado de sua ira a esposa, o seu único consolo e razão de viver.
 Ela, de braços cruzados ao peito, chorava em silêncio.
— Deucalião, devemos procurar o templo de Têmis e lá implorarmos piedade — disse Pirra, tornando-se outra vez resoluta.
De comum acordo seguiram até chegar ao templo da deusa da Justiça. Do teto pendia ainda um musgo lamacento, que o vento fazia dançar sobre as colunas, enquanto dos capitéis desciam finas cordas de água. Sobre os altares, os vasos estavam vazios, e não havia fogo algum a brilhar. Deucalião e Pirra, comovidos, lançaram-se aos pés da estátua da deusa:
-Poderosa Têmis, que nos observa, com clemência, do alto! — disse Pirra. — Não queremos habitar um mundo sem vida! Como faremos para repovoá-lo, se já não temos mais forças nem idade para isso?
Uma voz suave saiu da boca cerrada da estátua:
— Meus amados, se quiserem ver de novo a terra povoada, façam exatamente como vou lhes dizer. Após cumprirem meus ritos, quero que saiam do templo — disse a deusa. — Depois, cubram seus rostos, alarguem seus cintos e atirem para trás de si os ossos de sua avó! — completou, de modo enigmático.
Pirra, não entendendo o que a deusa desejava, começou a chorar.
— Ó deusa, como farei tal coisa? — exclamou. — E mesmo que reencontre os ossos de minha avó, como poderia cometer tamanha blasfêmia?
Deucalião, no entanto, tomando o rosto de Pirra nas mãos, a acalmou:
— Calma, querida! Acho que compreendi o sentido das palavras da deusa! É muito simples — esclareceu Deucalião. — A deusa está se referindo não aos ossos da sua avó, mas à Terra, nossa avó comum! Ora, os ossos de nossa avó não são senão as pedras da Terra!
Eufóricos, os dois velaram os rostos e saíram do templo. Juntaram todas as pedras que puderam encontrar, e Deucalião lançou atrás de si a primeira. Tão logo ela caiu, eles escutaram o ruído da pedra se esfarelando e algo surgindo às suas costas.
Era um homem! Sim, um homem que surgira dos restos da pedra. Pirra, extasiada, velou também o rosto e lançou para trás uma pedra, e surgiu dali uma linda mulher.
E assim foram ambos jogando pedras para trás. Daquelas lançadas por Deucalião surgiam homens, e das que Pirra lançava surgiam mulheres, os novos habitantes da Terra. 
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O toque de Midas - Mitologia Grega

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— Alguém viu por aí aquele bêbado do Sileno? — perguntou Baco, sem receber resposta. Sileno, preceptor de Baco, não passava um dia sem aprontar alguma. Sempre embriagado e montado no seu burrico, vagava o dia inteiro, sem rumo certo, até ser encontrado dias depois, caído pelos caminhos, a dormir o pesado sono dos bêbados.
Desta vez não foi diferente. Tonto pela bebida, Sileno enveredara por uma estrada diferente, esfalfando seu burrico, até chegar ao reino do poderoso Midas. Internando-se num bosque, encontrara logo uma árvore e ajeitara-se sob a sua sombra, para pôr o sono em dia. Alguns camponeses que passavam por ali logo o reconheceram.
— Vejam, aquele não é Sileno, pai adotivo de Baco? — disse um deles.
Os outros, parando em frente ao dorminhoco, logo o reconheceram como tal. Os camponeses colocaram-no ainda adormecido sob as ancas do seu burro e levaram-no até o palácio de Midas.
— Ora, se não é Sileno, pai de meu grande amigo Baco! — exclamou Midas, ao ver entrar em seu salão o velho bêbado, que já andava por suas próprias pernas.
Midas gostava do alarido divertido que o velho gorducho promovia durante suas bebedeiras; por isto, resolveu fazer dele seu hóspede por algum tempo. Durante dez dias o velho bêbado alegrou a corte do rei, até que no décimo primeiro dia Midas levou-o de volta ao seu filho adotivo.
Baco, após dar uma descompostura no velho, agradeceu a Midas pelo grande favor que lhe prestara.
— Pode escolher, caro amigo, a recompensa que quiser — disse-lhe Baco, num ímpeto de generosidade.
— Qualquer coisa?... — perguntou Midas, surpreso. — Qualquer coisa mesmo?
— Sim, claro, vamos lá, diga o que quer! — exclamou Baco, disposto a tudo.
Midas parou um pouco para pensar. Milhares de coisas valiosas passavam por sua cabeça — coroas, troféus, estátuas, jóias -, sempre douradas e resplandecentes.
De repente, teve uma brilhante idéia. Ou antes, uma dourada idéia:
— Quero que tudo o que eu toque vire ouro.
Baco, que havia prometido atender ao pedido, qualquer que fosse, tentou, no entanto, tirar essa ideia da cabeça de Midas:
 — Meu amigo, acho que esta não é uma boa escolha — disse o deus, pousando amigavelmente a mão sobre o ombro do visitante. Este, no entanto, surdo a qualquer razão, queria a todo custo que seu amigo cumprisse a promessa.
— Você disse qualquer coisa.
— Quer isto mesmo?
— Sim, claro, vamos! — disse Midas, impacientando-se.
Baco cedeu finalmente e, por meio de um passe mágico de mãos, conferiu ao angustiado Midas o poder de transformar tudo o que tocasse em puríssimo ouro.
— Obrigado mesmo! — exclamou Midas, aproximando-se para dar um abraço em Baco.
O deus, no entanto, esquivou-se num movimento rápido e afastou-se dando-lhe adeus. Para testar o seu novo poder, Midas estendeu uma das mãos para um galho seco que pendia de uma velha árvore.
— Vamos ver... — murmurou, numa expectativa ansiosa.
Nem bem tocou no galho, no entanto, a casca começou a se esfarelar, surgindo por baixo uma cor dourada.
 — Funciona! funciona! — gritava pelas veredas do bosque o rei, sapateando de euforia.
— Serei o rei mais rico do mundo! Seguiu assim, saltitando e tocando em tudo o que via: tocou numa pedra e ela virou uma grande pepita de ouro; arrancou uma maçã de uma árvore e ela ganhou a cor dourada e pesou na suas mãos; achou uma velha fivela de metal e viu-a logo resplandecer diante de seus olhos.
Midas chegou em casa com os bolsos abarrotados de insetos, galhinhos. folhas e pedras de ouro — pois não quis deixá-las espalhadas pelo caminho, incerto ainda da duração do seu novo e maravilhoso poder.
— A rainha já chegou? — perguntou, assim que entrou no palácio.
Os criados responderam que não, ela ainda não havia chegado. "Onde andará essa mulher?", pensou, impaciente para lhe contar a novidade. Midas sentou-se à mesa, para almoçar. Já passava de meio-dia, e a caminhada havia aberto seu apetite.
Logo as baixelas de prata foram surgindo nos braços dos escravos. Um criado destapou a primeira, da qual se levantou uma nuvem branca e cheirosa. Os olhos do faminto Midas lutavam por devassar a nuvem e descobrir o que o aguardava.
— Pernil de carneiro com amêndoas e tâmaras! — exclamou, deliciado.
Parecia até que o cozinheiro havia adivinhado que aquela era uma data especial. Outros pratos foram sendo colocados na mesa, cada qual mais apetitoso que o outro. Midas pegou o garfo — um magnífico talher de prata que se converteu imediatamente em puríssimo ouro. Tão logo levou a primeira porção à boca, percebeu que mastigava as mais duras amêndoas da sua vida. Levou a mão à boca, dela retirou alguns pedacinhos e viu que tinha entre os dedos três ou quatro pecinhas de ouro, minúsculas como pingentes.
Midas colocou o ouro de lado e decidiu atacar o assado. Como fosse guloso, arrancou um pedaço do pernil com as próprias mãos e meteu-lhe os dentes com todo o gosto. No mesmo instante, sentiu na boca a mesma sensação de haver mordido uma chapa de ferro. O seu canino estalou e Midas esfregou-o com o dedo, gemendo de dor.
No mesmo instante, não só este dente como todos os demais transformaram-se em luzentes dentes dourados. Lançando longe o pernil, Midas avistou um pêssego numa bandeja. Agoniado, agarrou-o num ímpeto voraz, apenas para perceber que tinha agora um pêssego de ouro maciço entre os dedos, lindo de ver, mas impossível de comer.
Neste instante a bela rainha entrou pela porta do salão. Estava linda como sempre, os cabelos molhados caídos de modo displicente sobre os ombros.
— Querida, tenho uma grande notícia! — disse Midas, lançando-se feliz em direção à esposa. — Você está diante do rei mais rico e poderoso da Terra! -exclamou, vermelho de satisfação.
— O que houve com os seus dentes? — perguntou a rainha, ofuscada pelo nono sorriso do rei.
 — Vamos, me dê logo um abraço! — pediu o rei, eufórico.
A rainha, sem desconfiar de nada, deixou que o rei a envolvesse nos braços.
— Ricos, ricos, eternamente ricos! — gritava ele. De repente, porém, sentiu que os membros da esposa enrijeciam-se. O rosto dela, colado ao seu, tornara-se repentinamente gelado, enquanto seus ombros haviam ficado dourados.
— Não! — gritou Midas, dando-se conta outra vez da sua horrível situação. — Rainha querida, o que houve com você?
Ali estava sua esposa, transformada numa estátua imóvel e dourada. Durante alguns minutos Midas esteve também paralisado, só que de espanto. Um ruído sibilino acordou-o de seu horrendo devaneio. Sobre a mesa, Mimeus, seu gato de estimação, o encarava, arregalando os grandes olhos de pupilas horizontais. Cercado de alimentos dourados, inúteis para ele, o gato parecia cobrar com seu miado estridente uma solução, o que encheu o coração de ouro do rei de um ódio assassino.
— Gato maldito, desapareça já da minha frente! — disse Midas, pulando na direção do gato, decidido a estrangulá-lo. Errou, no entanto, o alvo, conseguindo agarrar apenas a cauda de Mimeus, que se transformou instantaneamente em ouro.
O gato voltou-se para trás e, ao perceber aquela surpreendente transformação no seu traseiro, arreganhou os dentes e sumiu porta afora. Mas a porta já se abria outra vez: era o cunhado do rei. "Vem pedir dinheiro outra vez, o desgraçado!", pensou Midas com fúria. "Não adiantou fazê-lo ministro!"
— Quanto é desta vez? — rugiu, indo direto ao assunto. O cunhado, aliviado por poder dispensar os preâmbulos, respondeu com um sorriso mais amarelo que o do dono da casa:
— Bem, quinhentas moedas está bom...
— Venha cá — disse Midas. — Antes, me dê um abraço. E agarrou o infeliz pelos ombros, enquanto aguardava o resultado.
— Pronto, agora vai chegar para o resto da vida — rugiu, ao ver o cunhado virado em ouro.
O cunhado e ministro, encantado com a transformação, saiu correndo porta afora, disposto a vender-se inteiro ao primeiro que passasse. Toda aquela agitação, entretanto, provocou uma sede terrível em Midas, que agarrou uma jarra cheia de vinho e a emborcou. No mesmo instante, sentiu que um líquido espesso e ardente lhe descia pela traquéia até cair no estômago como chumbo derretido. Aterrado, espiou para dentro da jarra e viu no fundo um restinho do ouro liquefeito que acabara de ingerir.
Tomado definitivamente pelo pavor, Midas caiu de joelhos, levantando para o alto as suas douradas mãos.
— Baco, salve-me! — implorava. Tanto gritou o desgraçado que o deus acabou penalizado.
— Eu não o avisei? — perguntou Baco.
— Me tire desta situação, pelo amor de Zeus!
— Está bem, se acalme, vou ver o que posso fazer.
Baco disse então a Midas que fosse até o rio Pactolo e procurasse a sua nascente. Uma vez encontrando-a, deveria mergulhar a cabeça nas águas, o que seria suficiente para fazê-lo voltar à normalidade.
Midas, sem esperar mais, lançou-se porta afora. Após atravessar os campos, encontrou a nascente do rio e nela mergulhou a cabeça. No mesmo instante, as areias do rio ficaram douradas e os peixes tomaram a cor do sol, deixando-o livre para sempre da maldição.
 Depois dessa cruel experiência, Midas tomou-se de tal nojo pelo ouro e pelas riquezas que decidiu morar no mato, abandonando todas as suas riquezas e indo viver na companhia de Pã, o deus dos bosques.
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Júpiter e a guerra dos Titãs

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Não há crônica, antiga ou moderna, que refira de maneira exata todos os feitos e lances heroicos desta que foi a verdadeira primeira guerra mundial. 
Ela é demasiado antiga e perde-se na noite dos tempos. Só podemos nos basear no que dela referiram alguns comentadores tardios, como Hesíodo. 
Ainda assim, ela houve: os sinais, por tudo, são demais evidentes. A própria geologia comprova que as extintas divindades de outrora -personificações, talvez, dos elementos em estado caótico 
— se engalfinharam um dia numa luta impiedosa, revolvendo no embate o Céu, a Terra e os mares. Esta gigantesca querela teve início com a pretensão de um filho rebelde, chamado Júpiter, sobre o poder supremo que estava em mãos de uma divindade cruel e despótica, chamada Saturno. 

Mas quem foram as partes deste espantoso embate? De um lado, liderados por Saturno, estavam ele e seus irmãos, os poderosos Titãs ("filhos da Terra"). Do outro, Júpiter, o filho insubmisso, e seus irmãos, além de algumas defecções titânicas que se alistaram à causa rebelde, tais como o Oceano e o filho de Japeto, Prometeu. 
Os deuses da segunda geração, liderados por Júpiter, foram organizar seu ataque no monte Olimpo (daí serem chamados de "deuses olímpicos"), enquanto os Titãs, abrigados no monte Ótris, tramavam a sua defesa. 
Num dia incerto, que nenhum cálculo humano pode aproximar, deu-se o primeiro lance desta refrega colossal, que os anais bélicos da humanidade batizaram de Titanomaquia (ou "Guerra dos Titãs"). Uma imensa massa negra de nuvens destacou-se dos limites extremos do Olimpo e começou a marchar, num estrondo feroz de carros de guerra que rondam pelos céus. O empíreo escureceu de tal forma que o Caos parecia haver gerado de seu ventre uma segunda Noite, ainda mais negra e tétrica do que a primeira. 
De dentro desta montanha alada, da cor do ferro, partiam raios tão ofuscantes (novidade horripilante inventada pelos Ciclopes, aliados de Júpiter, que este libertara do Tártaro), que por alguns instantes brevíssimos não havia em todo o Universo a menor parcela de escuridão. Mas logo o negror da noite tombava outra vez sobre a Terra, e a alma de tudo quanto vivia agachava-se, oprimida por indizível pavor. Ocultos acima dessa nuvem prodigiosa, Júpiter e seus aliados caíram finalmente sobre seus inimigos. 
Os Titãs, contudo, bem protegidos em suas trincheiras, começaram a enterrar suas unhas duras e compridas como gigantescas pás de bronze até as profundezas do solo, para dali arrancarem pela raiz, com pavoroso estrondo, montanhas inteiras, que arremessavam em seguida contra os deuses olímpicos. 
Uma voz espantosa ecoou, vinda do alto, sobrepondo-se à massa inteira de ruídos: 
— Irmãos da nobre causa, desçamos até onde rastejam estes vermes! -disse Júpiter e, junto com seus aliados, saltou das nuvens com as vestes guerreiras, dando grandes brados de fúria. Seus escudos refulgiam na queda como tremendos sóis prateados, enquanto suas lanças, brandidas com fúria, pareciam raios retilíneos que cada qual portasse com destemor infinito. 
— Amantes da nobre verdade, recebamos estas aves de rapina que descem dos céus, tal como elas merecem! — bradou outra voz, desta vez de Saturno, encorajando os seus Titãs. Quando os dois exércitos se misturaram, um ruído mais feroz do que qualquer outro jamais escutado fez-se ouvir, então, por todo o Universo. 
A terra inteira sacudia-se em tremores, levantando-se de dentro dela imensas labaredas de fogo e de pez. Netuno, com seu tridente aceso, fazia ferver os mares, e por toda parte não havia um único bosque que não tivesse sido varrido pelo assobio endemoniado de uma tórrida ventania. Os combatentes, misturados num pavoroso atraque corporal — atirando às cegas, uns contra os outros, cutiladas, raios, rochas imensas, vapores sufocantes e dentadas -, assim estiveram por uma eternidade, até que Júpiter, temendo que a vitória estivesse pendendo para o inimigo, anunciou um novo propósito: 
— Companheiros, libertemos do Tártaro profundo os poderosos Hecatônquiros! Hecatônquiros. Esses terríveis seres haviam sido aprisionados por Saturno nas profundezas da terra e, uma vez libertos, espalhariam o terror entre as hostes inimigas. 
Júpiter, auxiliado pelos seus, desceu até as tênebras profundas e, após romper os grilhões que mantinham estas colossais criaturas presas ao abismo, subiu com elas à superfície. Uma fenda enorme rasgou-se sob o chão; imediatamente um vapor negro subiu da cratera num jato hediondo, até envolver o próprio Sol. 
Tudo estava envolto numa treva sufocante, quando todos sentiram um baque formidável sacudir o solo. Um tufão poderoso surgiu em seguida, varrendo toda a fuligem espessa e deixando à mostra, sobre a superfície, os três Hecatônquiros, postados lado a lado. 
A arte dos antigos não nos deixou nenhuma imagem do que seriam tais divindades, porém as descrições nos afirmam que se ratavam de seres "enormes como a mais alta das montanhas" e que possuíam n olhos e cinqüenta cabeças". Um urro colossal, partido das cento e cinqüenta bocas, atroou todo o Universo. As criaturas, empunhando rochedos imensos, lançaram sobre os apavorados Titãs trezentas montanhas, sepultando-os vivos sob os escombros. 
Em seguida os Ciclopes os acorrentaram com suas pesadas correntes, encerrando-os para sempre nas profundezas do Tártaro, de onde jamais tornariam a sair, vigiados pelos invencíveis Hecatônquiros. Esta, em resumo, foi a primeira batalha que o Universo conheceu, e da qual saiu vitorioso Júpiter, o novo soberano do Universo, para reinar como pai dos deuses sobre todos os homens e as demais divindades.
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As asas de Ícaro - Mitologia Grega

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— Meter-se com reis dá nisto, Ícaro! -dizia o inventor Dédalo, desconsolado, ao seu filho, que o observava. Ambos estavam presos no labirinto de Creta, encomenda que o rei Minos fizera ao próprio Dédalo para encerrar o Minotauro, flagelo da cidade.
O Minotauro fora derrotado, mas Dédalo caiu em desgraça com o rei, pois fornecera à princesa Ariadne o fio que ela entregou a Teseu e o qual este usou para fugir do labirinto após matar o Minotauro. Minos, que não esperava que Teseu derrotasse o monstro, passou a ver Dédalo como traidor e o fez provar, junto com o filho Ícaro, um pouco do seu próprio remédio. Um dia os dois estavam a contemplar o azul do céu, sentados em uma colina como de hábito, quando Dédalo deu uma palmada repentina na testa:
— Já sei, Ícaro, o que faremos! Sem dizer mais nada, começou a descer o rochedo, acompanhado pelo filho, que o seguia apressadamente.
O jovem sabia que o pai era muito inventivo e que estava sempre com a cabeça cheia de novos projetos. Preferiu deixar que a idéia amadurecesse na cabeça do velho enquanto desciam.
Tão logo chegaram à base da ilha, o velho mandou.
— Vamos, pegue minhas ferramentas — disse o pai ao filho, antes de sair em busca de alguma coisa.
Quando Dédalo retornou, seus braços estavam repletos de penas de aves, que ele abatera com a eficiência de um experiente caçador.
— O que pretende fazer, pai, com todas estas penas? — disse Ícaro.
Sem responder, Dédalo começou a serrar pedaços de madeira. De suas mãos começaram a surgir duas grandes armações, que lembravam o esqueleto de uma asa.
— O que é isto, uma fantasia? — perguntou Ícaro, ao ver o pai colar as penas nas varas de madeira.
— Tudo se inicia pela fantasia, meu Ícaro... — disse o velho, com o ar sonhador.
Logo Dédalo tinha nas mãos um grande e alvo par de asas.
— Vamos, filho, me ajude a colocá-las nas costas! Ícaro, que naturalmente já entendera o plano, ajudou-o, empolgado pela idéia.
Nem bem Dédalo terminara de colocar o par de asas às costas, seus pés começaram a se erguer do solo.
— Funciona! — exclamou Ícaro, sentindo no rosto suado o vento refrescante das asas do pai.
— Vamos, Ícaro, vamos construir uma para você também!
Os dois passaram o resto do dia aplicados em aperfeiçoar o mecanismo das asas artesanais.
 — Aqui está a nossa liberdade! — disse o velho, ao colar as últimas penas nas armações.
 — Mas serão sólidas o bastante para atravessarmos o oceano? — perguntou Ícaro.
— Claro! — respondeu Dédalo — O único cuidado que devemos ter é não nos aproximarmos muito do sol, pois o calor poderia derreter a cera que prende as penas.

No dia seguinte, bem cedo, subiram para o alto da torre, cada qual carregando com amoroso cuidado o seu par de asas. Exaustos, descansaram um pouco até que Ícaro, impaciente para testar o seu equipamento, ajustou as suas asas às costas.
— Veja, pai, estou voando! — disse o rapaz, sem conter a sua euforia.
Deu várias voltas ao redor da torre, perdendo aos poucos o medo da altitude; seu pai também circundou a ilha munido das asas para testar-lhes a resistência.
— Basta de preparativos! — disse Dédalo.
— Vamos embora! Pai e filho, juntos, colocaram os pés sobre a amurada, no ponto mais alto da torre; abaixo deles o mar espumava, chocando-se violentamente contra os recifes negros que pontilhavam toda a costa.
— Agora! — ordenou Dédalo. Os dois lançaram-se ao ar, batendo os braços de maneira tão ritmada que pareciam dois pássaros a dividir o azul do céu com as gaivotas, que os observavam pasmadas.
— Não se esqueça do sol! — dizia de vez em quando Dédalo, ao ver que Ícaro se descuidava, subindo em demasia.
No começo os dois lutaram um pouco com as correntes de ar, que lhes roubavam momentaneamente o equilíbrio. Às vezes, o pai buscava Apolo nos braços do filho, às vezes, o filho recorria ao auxílio do pai. Já haviam deixado há muito tempo a ilha e agora não havia outro jeito senão mover os músculos com vigor, tentando poupar ao máximo o fôlego.
Dédalo ainda estava entregue ao deslumbramento quando percebeu que seu filho havia desaparecido.
— Ícaro, onde está você? — disse, inquieto.
O jovem, muito distante dali, planava nas alturas. De olhos cerrados, Ícaro lançara-se num vôo cego, para além das nuvens.
Após haver ultrapassado a linha dos grandes e acolchoados montes brancos, ficara pairando sobre eles, enquanto o sol arrancava um brilho intenso de suas asas. Sua pele refletia um tom dourado, e parecia que ele era o próprio filho do Sol.
— Queria ficar aqui para sempre! — disse, inebriado de liberdade.
Enquanto agitava as asas, percebeu que uma grande pena roçou-lhe o nariz. Seus olhos a acompanharam rodopiando pelo espaço sem limites até desaparecer misturada ao branco das nuvens. Ícaro passou as costas das mãos sobre a testa suada. Uma deliciosa rajada de vento refrescou sua pele ao mesmo tempo em que percebeu que um grande tufo de penas espalhava-se ao seu redor, como se um imenso travesseiro tivesse sido rasgado e esvaziado de todo o seu conteúdo. Grossos fios de cera derretida escorriam pelas armações, alcançando os seus braços.
Com um grito de medo, Ícaro percebeu que a estrutura das asas se desfazia. Procurou esconder-se sob as nuvens, mas o sol tornara-se tão intenso que desmanchava as próprias nuvens, Ícaro percebeu que era o seu fim:
— Socorro, pai! — gritou. Entretanto, sua voz perdeu-se no vácuo.
Seu pai, longe dali, estava impotente para lhe prestar qualquer auxílio. Desistindo, afinal, de tentar recuperar altura, Ícaro abandonou-se ao destino, indo cair nas águas revoltas do oceano.
Enquanto isto, Dédalo vasculhava os céus.
 — Ícaro, meu filho, responda! — clamava inutilmente.
Durante muito tempo o velho vagou, fugindo sempre ao calor do sol, até que avistou sobre as ondas algumas penas. Sobrevoando mais um pouco o local. Dédalo acabou por avistar o corpo do filho jogado às margens de uma das praias.
Depois de tomá-lo nos braços, ficou um longo tempo abraçado a ele. Com o coração despedaçado, como as asas de Ícaro, Dédalo o enterrou no mesmo local, que passou a se chamar Icária, em sua homenagem. 
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Mercúrio, o deus dos pés ligeiros - Mitologia Romana

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A cena é lírica: Maia, uma das belas ninfas do monte Cilene, está parada diante do berço.
Observa com toda a ternura o seu filho Mercúrio, que está aparentemente adormecido, com o dedinho metido na boca.
— Um digno filho de Júpiter! — diz baixinho a filha de Atlas.
Enquanto observa o filho adormecido, relembra o dia em que, nos braços do pai dos deuses, concebeu o filho numa das cavernas do monte Cilene.
Júpiter havia feito descer dos céus uma grande tormenta para abafar os amorosos ruídos de sua união com a ardorosa ninfa. Agora, ali estava, diante dos seus olhos, o produto daquela inesquecível e tempestuosa noite de amor.
Maia, na ponta dos pés, afasta-se do quarto, deixando o pequeno deus entregue aos cuidados do Sono, que vela ao seu lado. Mas tão logo a mãe se afasta, uma minúscula pálpebra lentamente se abre. Mercúrio, com o rosto parcialmente oculto pelo cobertor, estuda o ambiente.
Sim, o Sono, bem ao seu lado, está completamente adormecido.
Afastando as cobertas, o pequenino deus, ainda deitado, faz deslizar uma de suas perninhas para fora do leito. Enquanto o Sono sonha e ressona, o pequeno pé tateia o chão, à procura de sua minúscula sandália: ah!, ali está! Deslizando o resto do corpo para fora do leito, o pequeno Mercúrio está pronto para protagonizar a primeira de suas façanhas.
''Uma façanha perfeitamente memorável!", pensa o deusinho, lá no seu tatibitati divino. Já com suas sandalinhas aladas presas ao pé, Mercúrio aproxima-se da janela. A noite é cálida e estrelada — perfeita para um delicioso vôo noturno.
Dando um impulso às suas pernas, o deus menino lança-se à vastidão do espaço negro, isento de qualquer receio — porque o pequeno Mercúrio fora brindado com esta inexcedível virtude: nascera sem medo.
Pela primeira vez o filho de Júpiter corta a imensidão dos ares, levado por suas sandálias aladas. Incumbido por seu pai das mais diversas missões — na maioria das vezes urgentes e inadiáveis -, Mercúrio se notabilizará justamente por este seu atributo básico: o da irrequieta mobilidade. Nenhum deus mais ágil, mais expedito, mais voluntarioso e, ao mesmo tempo, mais disciplinado do que Mercúrio. Condutor de recados, não se limitará, porém, à função de mensageiro, sendo também condutor de almas. A ele, o mais atarefado dos deuses, caberá também a tarefa de conduzir as almas dos mortos até as margens do sinistro Aqueronte.
Por muitas vezes, assim, o veremos levar heróis e mortais pelos caminhos obscuros do Hades sombrio: será ele, por exemplo, quem conduzirá Orfeu até os braços de sua amada Eurídice para o ardoroso e fugaz reencontro.
Mas o pequeno Mercúrio também, desde cedo, já revela outra de suas inúmeras vocações. É o que veremos agora. O deus-menino, após viajar muito, já está em Piéria, local onde Apólo, o deus solar, guarda os seus rebanhos. É noite, ainda, e os animais estão abrigados em seu redil. Mercúrio, sem se deixar deter por tão mísero detalhe, abre a porteira e sozinho — daquele tamanhinho — aparta cinqüenta novilhas para si.
"Uma... duas... três... três e uma... três e duas... cinqüenta de uma vez!", contabiliza ele, lá na sua matemática infantil. Uma coisa é furtar grosseiramente, sem arte nem graça; outra é fazê-lo com a elegância do estilista. Mercúrio é isto: um esteta do furto. Por isto é padroeiro dos ladrões e também — desculpem — dos comerciantes. Mas sigamos adiante com o divino garoto, porque ele já vai longe, obrando a sua primeira façanha. Conduzindo, então, as novilhas, ele chega ao Peloponeso.
Na cauda de cada animal — e aqui está o engenho — prende uma vassoura de ramos, que vai apagando o rastro das reses. Mas isto ainda não é o bastante: o pequenino Mercúrio, sempre previdente, inverte também a posição dos cascos das novilhas, calçando igualmente as suas sandalinhas de maneira invertida, para tornar mais perfeita a ilusão.
No caminho, entretanto, cruza com um velho enxerido, que pergunta:
— Aonde vai com tantas novilhas, gracioso menino?
Mercúrio sabe que não o enganará, porque velhos metidos têm muita lábia.
 — Fique com uma delas de uma vez! — diz Mercúrio, dando seus primeiros passos na antiqüíssima arte do suborno.
— Mas não me denuncie, hein, velho?!
— Oh, não, confie em mim, gracioso menino! — diz o velho, abraçando-se à mais gorda das novilhas.
— Confie em mim! Mercúrio dá alguns passos e vira a esquina de um rochedo.
O rosto de pica-pau do velho enxerido, contudo, não abandona a sua mente:
"Oh, não, confie em mim, gracioso menino! Confie em mim!". Aquele segundo "confie em mim!" é prova bastante: ele irá denunciá-lo. Mercúrio disfarça-se de proprietário ganancioso e irado e retorna.
— Velho enxerido, não viu passar por aqui um ladrão com cinqüenta novilhas?
— Bem, não... — Dou-lhe uma novilha e mais quatro bois se me disser.
— Foi para lá, meu senhor! — grita o velho enxerido, apontando o dedo.
— Ótimo! — exclama Mercúrio, puxando seus bigodões de crina de proprietário ganancioso e irado.
— Vou já buscar a sua recompensa.
Dobra por trás do rochedo e dali mesmo esmurra a montanha até fazer desprender dela uma rocha imensa, que vai cair exatamente sobre a cabeça do velho enxerido.
— Aí está sua recompensa! — diz Mercúrio, retomando a sua fuga.
E até hoje lá está um grande rochedo, sob a forma de um velho enxerido, postado em pé para sempre sob o pó do Peloponeso.

Depois disso, Mercúrio, novamente na sua forma original, conduz as novilhas até uma caverna, perto de Pilos. Ali faz uma oferenda aos deuses e aproveita para descansar. Está nisto, quando vê o casco vazio de uma tartaruga morta.
— Que é isso? — indaga a si mesmo.
Então, sem ter o que fazer, estica indolentemente alguns nervos de boi sobre o casco e, ao dedilhá-los, descobre que deles parte um som mavioso!
Mas eis que já amanhece, e Mercúrio retorna voando para casa, indo se meter rapidamente debaixo do cobertor. O Sono, é claro, ainda sonha docemente.
O deus Apólo, por sua vez, dá logo pela falta das suas cinqüenta novilhas. Mas descobrir o autor do maravilhoso furto é que são elas! Ludibriado pelas artimanhas do menino deus, não tem outro recurso senão valer-se — oh, vergonha! — de seu próprio oráculo, em Delfos.
Irado, Apólo apresenta-se diante de Maia, a bela mãe de Mercúrio, para reclamar das traquinagens de seu pequenino garoto. Ambos correm até o berço, mas pasmem, lá está ele, adormecido.
Sua respiração está perfeitamente tranqüila, mas um ligeiro rubor de suas rechonchudas bochechas denuncia, talvez, uma recente atividade.
— É que ele está meio febril — diz a mãe, inventando qualquer coisa.
Apólo coloca a mão na testa do bebê. Não, nada de febre!
— É que ele chupou o dedinho demais — diz a mãe, inventando outra desculpa.
E assim ficariam para sempre, porque mãe, em se tratando de filho, tem justificativa para tudo. Mas Apólo não está para rodeios, e já se prepara para dar umas palmadas no garoto quando este estica os dois bracinhos para fora das cobertas e começa a dedilhar uma bela melodia na lira que inventara. Apólo congelou como uma estátua.
— Que instrumento maravilhoso é este? Os hábeis e minúsculos dedos de Mercúrio dedilham com virtuosismo a lira, enquanto ele mastiga serenamente a sua chupeta.
Apólo, esquecido das malditas novilhas, só quer saber agora de obter aquela preciosidade.
 — Vamos, dê-me esta lira e está tudo esquecido! — diz o deus, deliciado.
Mercúrio estende o objeto — afinal, poderá fazer quantas liras quiser – e expele a chupeta com uma grande risada.
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Apolo e a serpente Píton

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— É tudo verdade, Juno: Latona está grávida do seu esposo, Júpiter! Íris, a mensageira e confidente de Juno, fora quem descobrira a novidade.
— Pois quero esta mulher bem longe de qualquer terra, compreendeu? -esbravejou Juno, enciumada.
— Bem longe de qualquer terra. "Bem longe de qualquer terra", pensou íris. "É um bocado longe." Latona, com o ventre dolorido, foi obrigada, assim, a percorrer o mundo todo — atravessando, exausta, lugares como o Quio, a Trácia, a Ática, a Eubéia, as ilhas do mar Egeu, sem jamais receber abrigo de quem quer que fosse, em lugar algum.
E como se isto não bastasse, atrás dela ainda ia Píton, uma terrível serpente encarregada de devorar os seus filhos. Sem dar um segundo de descanso, a pavorosa serpente empenhou-se na sua tarefa, sem nunca, entretanto, conseguir alcançar o seu objetivo maior. Assim, depois de muito vagar, Latona acabou por chegar à ilha de Ortígia, onde encontrou, finalmente, um abrigo. Ortígia era uma ilha flutuante, não estando fixa, portanto, em lugar algum, não fazendo parte da terra. Ali, durante nove dias e nove noites,
Latona gemeu sob o império da dor. Mas Ilícia, a deusa que preside os partos, soube dos sofrimentos atrozes pelos quais a pobre mãe passava e resolveu socorrê-la.
— O filho de Latona será o mais belo dos deuses, e para mim será uma honra excelsa presidir o seu nascimento — disse ela às amigas, antes de partir.
E assim foi. Depois de intenso sofrimento, Latona viu seus trabalhos duplamente recompensados: de seu ventre saíram não um, mas dois filhos — um belo menino, de nome Apólo, e uma graciosa menina, chamada Diana.
— Aí tens o dia e a noite, um em cada braço — disse Ilícia, ternamente.
Apólo, de pele alva e louros cabelos, de fato era a representação perfeita do sol e do dia, enquanto que Diana, de cabelos negros caídos sobre um colo faiscante, representava a lua envolta pela noite. Júpiter deu a seus filhos muitos presentes, mas o que mais lhes agradou foi um maravilhoso arco confeccionado por Vulcano.
Desde este dia Diana afeiçoou-se de tal modo ao seu exercício, que acabou se tornando a deusa da caça. Quanto a Apólo, tinha em mente, antes que tudo, vingar sua mãe.
— Diga-me, meu pai, onde está a terrível serpente que perseguiu tão cruelmente a minha mãe — disse ele, com os olhos postos no céu -, e irei matá-la com minhas próprias setas. Latona e seus filhos abandonaram a ilha — que passou a se chamar, desde então, Delos, ou seja, "ilha luminosa", em homenagem ao deus da luz e do sol -e, após vários percalços, chegaram enfim ao seu destino.
— Eis o monte Parnaso, meus filhos — disse Latona, abraçada aos dois. Mas aquele local magnífico, repleto de montanhas e abundante vegetação, escondia também um horror. Era ali que a serpente Píton, filha da Terra, vivia, instalada bem ao pé do monte Parnaso em um imundo covil.
 — Chegou a hora, maldita serpente — disse Apólo, enganchando uma flecha em seu poderoso arco -, de acertarmos as nossas contas.
De dentro da caverna partiu um urro tremendo, que fez desmoronar muitas montanhas ao redor. Logo em seguida um bafo pestilencial, um misto de fogo e de sangue, foi expelido de dentro, incendiando tudo que estivesse à sua frente.
A serpente medonha escorregou para fora da cova como se fosse uma língua em chamas expelida pela goela escancarada da montanha. Apolo, após subir em cima de um rochedo, estendeu o mais que pôde a corda de seu arco e mirou no abismo de sua boca infernal. A fera, contudo, desviou-se da seta, dando um salto inesperado e rolando de lado sobre a relva, que ficou toda crestada.
— Apolo, meu filho, cuidado! — gritava sua mãe, abraçada a Diana, que queria se desvencilhar dos braços da mãe para ir ajudar o irmão.
— Não se meta nisto, minha irmã! — bradou o deus solar.
— Você é muito nova e frágil para enfrentá-la! Apólo nem se dava conta de que tinha a mesma idade da irmã, mas naquele momento foi a única coisa que lhe ocorreu para manter a salvo as duas mulheres.
A serpente agora estava completamente em pé — parecia impossível, mas estava completamente ereta, como uma gigantesca palmeira -, e seu ventre, originalmente claro, estava todo coberto do sangue seco e dos ossos esmagados de antigos e horrendos festins. Um silvo ensurdecedor passou sobre o rosto de Apólo, como um vento quente e mórbido que um vulcão houvesse expelido em seu rosto. Píton entesou o seu corpo e lançou um bote quase certeiro sobre a rocha onde o deus do sol se mantinha precariamente equilibrado. Um grande dente amarelado da serpente ficou cravado sobre a rocha, como se fosse uma gigantesca espada enterrada na pedra. Dela escorria um líquido pestilencial da cor do âmbar e que exalava um odor terrivelmente nefasto.
Apólo foi cair sobre a saliência de um penedo, ainda entontecido pelo bafo mefítico da sua cruel inimiga. A serpente Píton, após relancear a cabeça em várias direções, arregalou suas grandes pupilas horizontais: uma centena de línguas fendidas saíram ao mesmo tempo de sua boca e chicotearam o ar em todas as direções.
A temível Píton farejara novamente a sua presa. Mas antes que volvesse sua cabeça na fatídica direção, Apólo já estava em pé outra vez. Retesando ao mesmo tempo em seu arco três de suas mais afiadas setas, Apólo esticou a corda até que ela quase estalasse.
— Serpente maldita, aqui está o seu castigo! — disse o deus, despedindo as três setas, que partiram sibilando pelo ar. Já no caminho as poderosas setas foram duelando com as línguas serpenteantes da víbora, e uma chuva delas caiu do alto, decepadas pela velocidade das setas.
Em seguida, cada qual tomando seu caminho foi buscar um alvo diferente: a primeira foi alojar-se no olho esquerdo da víbora; a segunda penetrou em seu peito, ausente de escamas, enterrando-se em seu coração; e finalmente a terceira entrou-lhe pela boca adentro, tirando-lhe o hausto da vida.
Como uma palmeira que tomba, a serpente Píton caiu, provocando um grande estrondo, que fez tremer a Terra durante oito dias. Apólo vencera. Tomando então sua lira
— que Mercúrio lhe dera de presente -, ele entoou sua canção de vitória, abraçado à mãe e à irmã. Disse a elas, triunfante:
— Aqui enterrarei a terrível serpente, e sobre seu túmulo erguerei um sagrado templo, além de um oráculo, que será em breve o mais famoso de todos.
Era o oráculo de Delfos, local onde todo mortal iria sondar os irrevogáveis decretos das Parcas, as deusas que presidem ao destino. 
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O nascimento de Vênus

Posted by : Redação

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A véspera do nascimento de Vênus fora um dia violento. O firmamento, tingindo-se subitamente de um vermelho vítreo, enchera de espanto toda a Criação. Saturno, munido de sua foice, enfrentara o próprio pai, o Céu, num embate cruel pelo poder do Universo.
Com um golpe certeiro, o jovem deus arrancara fora a genitália do pai, tornando-se o novo soberano do mundo. Um urro colossal varrera os céus, como o estrondo tremendo de um infinito trovão, quando o Céu fora atingido. O fecundo órgão do deus deposto, caindo do alto, mergulhara nas águas profundas, próximo à ilha de Chipre.
Assim, o Céu, depois de haver fecundado incessantemente a Terra — dando origem à estirpe dos deuses olímpicos -, fecundava agora, ainda que de maneira excêntrica e inesperada, o próprio Mar. Durante toda a noite o mar revolveu-se violentamente.
A espuma do mar, unida ao sangue do deus caído, subia ao alto em grandes ondas, como se lançasse ao vento os seus leves e espumosos véus. Mas quando a Noite recolheu finalmente o seu grande manto estrelado, dando lugar à Aurora, que já tingia o firmamento com seus dedos cor-de-rosa, percebeu-se que as águas daquele mar pareciam agora outras, completamente diferentes.
O borbulhar imenso das ondas anunciava que algo estava prestes a surgir. Das margens da ilha de Chipre, algumas ninfas, reunidas, apontavam, temerosas, para um trecho agitado do mar:
— O mar está prestes a parir algo! — disse uma delas.
— Será algum monstro pavoroso? — disse outra, temerosa.
Mas nem bem o sol lançara sobre a pátina azulada do mar os seus primeiros raios, viu-se a espuma, que parecia subir das profundezas, cessar de borbulhar. Um grande silêncio pairou sobre tudo.
— Sintam este perfume delicioso! — disse uma das ninfas.
As outras, erguendo-se nas pontas dos pés, aspiraram a brisa fresca e olorosa que vinha do alto-mar. Nunca as flores daquela ilha haviam produzido um aroma tão penetrante e, ao mesmo tempo, tão discreto; tão doce e, ao mesmo tempo, tão provocantemente acre; tão natural e, ao mesmo tempo, tão sofisticado.
De repente, do espelho sereno das águas — nunca, até então, o mar tivera aquela lisura perfeita de um grande lago adormecido — começou a elevar-se o corpo de alguém.
— Vejam, é a cabeça de uma mulher! — gritou uma das ninfas. Sim, era uma bela cabeça — a mais bela cabeça feminina que a natureza pudera criar desde que o mundo abandonara a noite trevosa do Caos.
Um rosto perfeito: os traços eram arredondados onde a beleza exigia que se arredondassem, aquilinos onde a audácia pedia que se afilassem e simétricos onde a harmonia exigia que se emparelhassem. O restante do corpo foi surgindo aos poucos: os ombros lisos e simétricos, os seios perfeitos e idênticos — tão iguais que nem o mais consumado artista saberia dizer qual era o modelo e qual a sua réplica perfeita.
Sua cintura, com duas curvas perfeitas e fechadas, parecia talhada para realçar o umbigo perfeito, o qual acomodava delicadamente, como um encantador pingente, uma minúscula e faiscante pérola. E, logo abaixo, um véu triangular — loiro e aveludado véu -, tecido com os mais delicados e dourados fios, agitava-se delicadamente, esbatido pela brisa da manhã.
Nenhum humano podia saber ainda o que ele ocultava — seu segredo mais cobiçado, que somente a poucos seria revelado.
Algumas aves marinhas surgiram, arrastando uma grande concha, a qual depositaram ao lado da deusa — sim, era uma deusa -, para que ela, como em um trono, se assentasse. Um marulhar de peixes saltitantes a cercava, enquanto golfinhos puxavam seu elegante carro aquático até as areias da praia cipriota.
Nem bem a deusa colocara os pés na ilha, e toda ela verdejou e coloriu-se como nunca antes havia sido. Por onde ela passava, brotavam do próprio solo maços aromáticos de flores multicores, os pássaros todos entoavam um concerto de vozes perfeitamente harmoniosas e os animais quedavam-se sobre a relva com as cabeças pendidas, para receber o afago daquela mão alva e sedosa.
— Quem é você, mulher mais que perfeita? — perguntou-lhe, finalmente, a ninfa que primeiro recuperara o dom da fala.
 — Sou aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino — respondeu a deusa, com uma voz cristalina e docemente áspera, envolta num hálito que superava em delícia ao de todas as flores que seus pés haviam feito brotar.
No mesmo dia, a extraordinária notícia do nascimento de criatura tão bela chegou ao Olimpo, e os deuses ordenaram que as Horas e as Graças a fossem recepcionar. Ainda mais enfeitada pelas mãos destas caprichosas divindades, apresentou-se a nova deusa diante de seus pares no grandioso salão do Olimpo, sendo imediatamente acolhida e festejada pelos deuses.
Mas quando todos ainda se perguntavam quem seria, afinal, aquela criatura encantadora, um descuido — seria, mesmo? — pôs fim a todas as indagações. Pois o véu que a envolvia, descendo-lhe até os pés, revelara o que nenhum dos embelezamentos artificiais pudera antes realçar: a sua infinita beleza original.
— E Vênus, sim, a mais bela das deusas! — disse o coro unânime das vozes.
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