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O Barba Azul

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CHARLES PERRAULT (1628-1703 | França)

Um volume publicado anonimamente, Contes de Ma Mere l'Oie ("Histórias da Mamãe Gansa"), mas de autoria de um sisudo advogado da arquiteto da época do Rei-Sol chamado Charles Perrault, tem embalado a infância do mundo todo há pelo menos três séculos. Quem não ouviu histórias como O Pequeno Polegar, A Gata Borralheira, O Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas e outras tantas? Muitos especialistas em literatura infantil já observaram a violência implícita nestas historietas aparentemente ingênuas. Mas o que talvez nos surpreenda é descobrir num desses contos, exatamente neste O Barba-Azul, um inegável pioneirismo numa vertente do policial contemporâneo: a do serial-killer. (No século XX, este conto "infantil" ainda dialogava com a literatura contemporânea: Anatole France reviu o "caso criminal" deste estranho personagem em As Sete Esposas do Barba-Azul. Na sua versão, "o herói" é reabilitado, por ter sido vítima inocente de suas sete esposas.)


Era uma vez um homem que possuía belas casas na cidade e no campo, baixelas de ouro e de prata, móveis requintados e carruagens douradas; mas por infelicidade esse homem tinha a barba azul: detalhe que o fazia tão feio e tão terrível que não havia mulher nem moça que não corresse ao vê-lo. Uma dama de alta linhagem, sua vizinha, era mãe de duas filhas absolutamente bonitas. O homem pediu uma delas em casamento, deixando que a vontade materna fizesse a escolha. 
Nenhuma das duas o aceitava, e uma passava a indicação para a outra, pois nenhuma queria aceitar um homem de barba azul. Não lhes era agradável tampouco a circunstância de ele já ter desposado várias mulheres sem que ninguém soubesse que fim levaram. 
Para conhecer as moças, Barba-Azul levou-as, juntamente com a mãe e três ou quatro amigas, e algumas jovens da vizinhança, a uma de suas casas de campo, onde passaram nada menos que oito dias. E foi então só passeios, caçadas e pescarias, danças e festins e comidinhas: ninguém dormia, passavam a noite pregando peças umas nas outras; afinal, tudo transcorreu às mil maravilhas, e a mais nova das meninas começou a achar que o dono da casa não tinha a barba tão azul assim, e que era homem de muita dignidade. 
Assim que voltaram para a cidade, o casamento foi realizado. No fim de um mês, Barba-Azul disse à mulher que tinha de fazer uma viagem de três semanas, no mínimo, à província, a fim de resolver um negócio importante; pedia-lhe que se divertisse à vontade durante a sua ausência mandasse buscar suas amigas, levasse-as para o campo, se quisesse, comesse do bom e do melhor. 
- Aqui estão as chaves dos guarda-móveis - disse ele -; aqui as da baixela de ouro e de prata que só se usa nos dias especiais; aqui as dos meus cofres-fortes onde estão meu ouro e minha prata, as do cofre das minhas jóias, e aqui a chave de todas as dependências da casa. Esta chavezinha é a chave do gabinete que fica no extremo da galeria do porão: pode abrir tudo, pode ir aonde quiser; mas nesse pequeno gabinete, eu a proíbo de entrar, e a proíbo de tal maneira que, se acontecer de você chegar a abri-lo, não há nada que você não possa esperar da minha ira. 

Ela prometeu cumprir à risca tudo aquilo que lhe tinha sido ordenado: e ele, depois de beijá-Ia, tomou sua carruagem e partiu. As vizinhas e as amigas sequer esperaram que as mandassem buscar para ir à residência da jovem esposa, tão ansiosas estavam para ver todas as riquezas da casa, pois não haviam ousado ir até lá quando o marido estava presente por causa da sua barba azul que lhes causava medo. E ei-Ias sem maior perda de tempo a percorrer os quartos, os gabinetes, os vestiários, cada um mais bonito do que o outro. Subiram depois aos guarda-móveis, onde não se cansaram de admirar a quantidade e a beleza das tapeçarias, dos leitos, dos sofás, dos guarda-roupas, das mesas e dos espelhos, nos quais a gente se via da cabeça aos pés, e cujos ornamentos, uns de vidro, outros de prata, ou de prata dourada, eram os mais belos e magníficos que já se poderiam ter visto. Não se cansavam de exagerar e invejar a felicidade da amiga, a quem, no entanto, não alegravam todas essas riquezas, ansiosa que estava para abrir o gabinete do porão. Sentiu-se tão levada pela curiosidade que, sem pensar que seria uma indelicadeza deixar as vizinhas sozinhas, desceu até o porão por uma escada estreita e oculta, e com tamanha precipitação que por duas ou três vezes achou que ia quebrar o pescoço. 
Ao chegar à porta do gabinete, deteve-se, lembrando-se da proibição que o marido lhe fizera e considerando que lhe poderia acontecer uma desgraça por ter sido desobediente; mas a tentação era tão forte que ela não a conseguiu vencer: segurou a pequena chave e, trêmula, abriu a porta do gabinete. Nada viu, a princípio, pois as janelas estavam fechadas; segundos depois começou a perceber que o assoalho estava todo coberto de sangue coalhado, no qual se espelhavam os corpos de várias mulheres mortas, corpos presos ao longo das paredes. (Eram todas as mulheres que Barba-Azul desposara e que, uma a uma, havia estrangulado.) 
Pensou que ia morrer de susto, e a chave do gabinete caiu-lhe da mão assim que a retirara da fechadura. Depois de recobrar um pouco o ânimo, apanhou a chave, fechou a porta e subiu para o quarto a fim de se refazer; não o conseguia porém, tão grande lhe era o tumulto. Ao perceber que a chave do gabinete estava manchada de sangue, limpou-a duas ou três vezes, mas o sangue teimava em não desaparecer; lavou-a, esfregou-a com sabão e pedra-pomes; em vão: o sangue permanecia, pois a chave era de fada e não havia meio de limpá-Ia totalmente: quando se tirava o sangue de um lado, ele voltava do outro. Barba-Azul retornou de viagem logo nessa mesma noite, e disse haver recebido, no caminho, cartas com a notícia de que o negócio que o fizera partir acabara de se realizar, com vantagens para ele. A mulher fez o que pôde para se mostrar encantada com o inesperado retorno. 
No dia seguinte ele pediu-lhe as chaves, e ela as entregou; mas sua mão tremia tanto que Barba-Azul adivinhou sem maiores esforços o que havia acontecido. 
- Por que é que a chave do gabinete não está junto com as outras? perguntou-lhe. 
- Devo tê-Ia deixado lá em cima, na minha mesa. 
- Quero a chave aqui e agora, já, já! 
Depois de muitas delongas, a mulher teve de entregá-Ia. Barba-Azul examinou-a e disse: 
- Por que este sangue na chave? 
- Não sei nada disso - respondeu a pobre criatura, mais pálida do que a morte. 
- Você não sabe de nada - continuou ele -, mas eu sei muito bem: você tentou entrar no gabinete! Está certo, minha senhora, lá entrará e irá ter o seu lugar ao lado das que lá encontrou... 
Ela se jogou aos pés do marido, chorando e pedindo-lhe perdão, com todos os sinais de um arrependimento sincero por não haver sido obediente. Bela e desesperada como estava, seria capaz de enternecer um rochedo; mas Barba Azul tinha o coração mais duro do que um rochedo: 
- Tem de morrer, minha senhora, e logo. -
 Visto que tenho de morrer - respondeu ela, fitando-o com os olhos banhados de lágrimas -, dê-me um pouco de tempo para rezar a Deus. 
- Dou-lhe meio quarto de hora - replicou Barba-Azul - e nem um momento a mais. 
Quando ela se viu sozinha, chamou a irmã e disse-lhe: 
- Minha irmã Ana (era este o seu nome), eu te suplico, sobe ao alto da torre para ver se meus irmãos não vêm; eles me prometeram que viriam me ver hoje e, se os vir, faz-lhes sinal para que se apressem. 
A irmã Ana subiu para a torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando: 
- Ana, minha irmã, não estás vendo ninguém? 
E a irmã Ana lhe respondia: 
- Não vejo nada a não ser o sol que brilha e a erva que verdeja. 
Enquanto isso, Barba-Azul, com um grande cutelo na mão, gritava para a esposa com toda a força: 
- Desce depressa ou eu subirei aí. 
- Mais um momentinho, por favor - respondia-lhe a mulher. 
E, em seguida, baixinho: 
- Ana, minha irmã Ana, não vês ninguém? 
E a irmã Ana respondia: 
- Não vejo nada a não ser o sol que brilha e a erva que verdeja. 
- Desce depressa - bradava Barba-Azul -, ou eu subirei aí. 
- Já vou - respondeu a mulher. E depois:
- Ana, minha irmã Ana, não vês ninguém? 
- Só vejo - respondeu a irmã Ana - uma grossa poeira que vem da banda de lá.
- São meus irmãos? 
- Infelizmente não, minha irmã; é um rebanho de carneiros. 
- Não vais descer? - bradava Barba-Azul. 
- Mais um momento - respondia a mulher. E depois: 
- Ana, minha irmã Ana, não vês ninguém? 
- Vejo - respondeu ela - dois cavaleiros que vêm do lado de cá, mas ainda estão muito longe... Louvado seja Deus! - exclamou pouco depois. 
- São meus irmãos; estou fazendo sinal para eles, tanto quanto me é possível, para que se apressem. Barba-Azul pôs-se a gritar tão alto que a casa estremeceu. 
A pobre mulher desceu e jogou-se-lhe aos pés, desgrenhada e em prantos. 
- Isto de nada adianta - disse Barba-Azul. 
- Você precisa morrer. 
Em seguida, segurou-a com uma das mãos pelos cabelos e ergueu, com a outra, o cutelo no ar, a ponto de cortar-lhe a cabeça. A pobre mulher, voltando-se para ele, rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher. 
- Não, não - disse ele -, encomenda bem tua alma a Deus. 
E, erguendo mais o braço... Naquele momento, bateram à porta com tanta força que Barba-Azul parou subitamente. Abriram, e logo se viram entrar dois cavaleiros que, sacando da espada, correram na direção de Barba-Azul. Ele percebeu que eram os irmãos da sua esposa, um deles, dragão e outro, mosqueteiro, e fugiu sem maior demora, para se salvar; mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o alcançaram antes que ele pudesse atingir a escada externa. 
Atravessaram-no a fio de espada e o deixaram morto. A pobre dama estava tão morta quanto o marido, sem maiores forças para levantar-se e beijar os irmãos. Revelou-se que Barba-Azul não tinha herdeiros, razão pela qual sua mulher tornou-se dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento da irmã Ana com um jovem fidalgo que a amava há muito; outra parte na compra do posto de capitão para os dois irmãos; e o resto no casamento dela própria com um homem mui distinto, que lhe fez esquecer o mau tempo que ela passara com Barba-Azul.

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O Cão e o Cavalo - Voltaire

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Zadig reconheceu que o primeiro mês do casamento é mesmo, como está escrito no Zenda, a lua-de-mel, e que o segundo é a lua-de-fel. Viu-se dentro em pouco obrigado a repudiar Azora, que se tornara dificílima de trato, e buscou refúgio no estudo da natureza.
"Ninguém pode ser mais feliz", dizia ele, "do que um filósofo que lê nesse grande livro colocado por Deus ante nossos olhos. É dono das verdades que descobre; alimenta e eleva a alma; vive tranqüilo; nada teme dos homens, e a sua extremosa mulher não lhe vem cortar o nariz".
Penetrado dessas idéias, retirou-se para uma casa de campo à margem do Eufrates.
Ali, não se preocupava ele em calcular quantas polegadas de água corriam por segundo sob os arcos de uma ponte, ou se caía mais uma linha cúbica de chuva no mês do rato do que no mês do carneiro. Não planejava fabricar seda com teias de aranha, nem porcelana com cacos de garrafa; mas dedicou-se principalmente ao estudo dos animais e das plantas, adquirindo em breve uma agudeza que lhe desvendava mil diferenças onde os outros não viam mais que uniformidade.
Ora, estando um dia a passear pelas proximidades de um bosque, acorreu-lhe ao encontro um eunuco da rainha, seguido de vários oficiais que demonstravam a maior inquietação e vagavam de um lado para outro, como pessoas desorientadas que houvessem perdido a maior preciosidade deste mundo.
- Jovem - disse-lhe o primeiro eunuco -, não viste o cão da rainha?
- É uma cadela, e não um cão - respondeu Zadig discretamente.
- Tens razão - tornou o primeiro eunuco.
- É caçadeira, e por sinal que muito pequena - acrescentou Zadig.
- Deu cria há pouco; manqueja da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas.
- Viste-a então? - perguntou o primeiro eunuco, esbaforido.
- Não - respondeu Zadig -, nunca a vi na minha vida, nem nunca soube se a
rainha tinha ou não uma cadela.
 Ao mesmo tempo, por um comum capricho da sorte, sucedeu escapar-se das mãos de um palafreneiro o mais belo exemplar das cavalariças do rei, extraviando-se nos campos de Babilônia.
O monteiro-mor e todos os outros oficiais corriam à sua procura com mais inquietação do que o primeiro eunuco em busca da cadela.
O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se acaso não vira o cavalo do rei.
- É - respondeu Zadig - o cavalo de melhor galope; tem cinco pés de altura e os cascos pequenos; a cauda mede três pés e meio de comprimento; o freio é de ouro de vinte e três quilates; e as ferraduras de prata de onze denários.
- Que direção tomou ele? Onde está? - perguntou o monteiro-mor.
- Não o vi - respondeu Zadig -, nem nunca ouvi falar nele.
O monteiro-mor e o primeiro eunuco não tiveram mais dúvidas de que Zadig houvesse roubado o cavalo do rei e a cadela da rainha; levaram-no perante a assembléia do grande Desterham, que o condenou ao Knut e a passar o resto da vida na Sibéria.
Mal se encerrara o julgamento, foram encontrados o cavalo e a cadela. Viram-se os juízes na dolorosa obrigação de reformar sua sentença; mas condenaram Zadig a desembolsar quatrocentas onças de ouro, por haver dito que não vira o que tinha visto.
Primeiro foi preciso pagar a multa; depois concederam-lhe licença para se defender perante o conselho do grande desterham. Zadig falou nos seguintes termos:
- Estrelas de justiça, abismos de ciência, espelhos da verdade, Ó vós que tendes o peso do chumbo, a dureza do ferro, o fulgor do diamante e tanta afinidade com o ouro! Já que me é dado falar perante esta augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que jamais vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis. Eis o que me aconteceu. Passeava eu pelas cercanias do bosque onde vim a encontrar o venerável eunuco e o ilustríssimo monteiro-mor, quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram as de um cão pequeno. Sulcos leves e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, revelaram-me que se tratava de uma cadela cujas tetas estavam pendentes, e que portanto não fazia muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas muito compridas; e, como notei que o chão era sempre menos amolgado por uma das patas do que pelas três outras, compreendi que a cadela de nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me ouso exprimir. Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando eu pelos caminhos do referido bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam todas a igual distância. "Eis aqui", considerei, "um cavalo que tem um galope perfeito." A poeira dos troncos, num estreito caminho de sete pés de largura, fora levemente removida à esquerda e à direita, a três pés e meio do centro da estrada. "Esse cavalo", disse eu comigo, "tem uma cauda de três pés e meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos troncos." Vi debaixo das árvores, que formavam um dossel de cinco pés de altura, algumas folhas recém-tombadas, e concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça, e que tinha, portanto, cinco pés de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de vinte e três quilates: pois ele lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu identifiquei como uma pedra de toque. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri eu que era prata de onze denários.

Todos os juízes pasmaram do profundo e sutil discernimento de Zadig, o que logo chegou aos ouvidos do rei e da rainha. Só se falava em Zadig nas antecâmaras, na câmara e no gabinete; e, embora vários magos opinassem que o deviam queimar como feiticeiro, ordenou o rei que lhe restituíssem as quatrocentas onças de ouro em que fora multado.
O escrivão, os meirinhos, os procuradores compareceram em grande pompa à presença de Zadig, para lhe entregar as suas quatrocentas onças; apenas retiveram trezentas e noventa e oito para as custas do processo, e os seus ajudantes reclamaram gratificação. Zadig compreendeu como era às vezes perigoso ser demasiado sábio, e jurou consigo que, na próxima ocasião, nada diria do que acaso houvesse testemunhado. Essa oportunidade não se fez esperar.
Um prisioneiro de Estado, que fugira, passou pelas janelas de sua casa. Zadig, interrogado, nada respondeu; mas provaram-lhe que ele olhara pela janela. Foi multado, por esse crime, em quinhentas onças de ouro, e ele agradeceu a indulgência dos juízes, segundo o costume de Babilônia.
"Como é lamentável, meu Deus," dizia ele consigo, "ir a gente passear num bosque por onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Que perigoso chegar à janela! E que difícil ser feliz nesta vida!"


Tradução de Mário Quintana
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Jasão na ilha de Lemnos

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Jasão, o célebre herói grego, havia sido criado longe de casa pelo centauro Quíron.
Enquanto completava sua educação, seu tio Pélias assumira o seu lugar no trono da Tessália. Tendo retornado, já adulto, para assumir a sua condição de rei, foi induzido pelo perverso tio a empreender uma temerária expedição em busca do Velocino de Ouro — uma célebre relíquia que estava guardada no distante reino da Cólquida.
Tão logo tomou essa decisão, Jasão cercou-se de alguns dos mais valorosos heróis de seu tempo, tais como Hércules, Teseu, os irmãos Castor e Pólux, Meleagro e muitos outros.
O construtor do navio foi Argos, razão pela qual o navio foi batizado de Argo, e os seus tripulantes passaram a ser conhecidos por argonautas. O Argo era uma grande embarcação dotada de velas, tendo ao centro um mastro feito com um carvalho profético da floresta sagrada de Dodona, que predizia os bons ou os maus ventos aos navegantes.
Embora tivesse um sistema de mastreação, o navio também previa lugares para remadores, para as ocasiões em que faltassem os ventos. A construção do Argo, acompanhada de perto por Minerva, concluiu-se, afinal, e os seus tripulantes embarcaram, prontos para seguir viagem.
Mas, no momento da partida, o navio recusava-se a sair do lugar. Foi necessário que Orfeu, um dos tripulantes, tocasse sua lira.
Durante alguns minutos ouviram-se somente os sons maravilhosos da música misturados ao marulhar das ondas, até que finalmente o Argo, por si só, fez-se ao mar, sob os gritos de contentamento de toda a tripulação e da população que se despedia dos heróis. Durante vários dias navegaram eles pelos mares da Grécia, até chegar à ilha de Lemnos, onde pararam para descansar e reabastecer-se de víveres.
— Veja! — disse Tífis, o experiente piloto do Argo, a Jasão, que chefiava a expedição. — Há algumas mulheres ali para nos recepcionar.
De fato, a ilha estava repleta de mulheres, que se aproximaram alegremente do Argo, cobrindo os visitantes com flores e coroas de louros. Seus trajes eram curtos, e elas eram também bastante atraentes. Porém, estranhamente, não se via nenhum homem entre elas.
— Onde estão os homens deste lugar? — inquiriu Jasão àquela que parecia a líder do grupo.
— Estão todos descansando — respondeu a estranha mulher.
Os tripulantes do Argo já haviam quase todos desembarcado. Cada uma das mulheres se apoderara de um deles, de tal modo que só havia casais passeando por toda a ilha, o que desagradou um pouco a Jasão:
— Viemos aqui para um piquenique? — disse ele a Tífis, que, entretanto, também já estava de olho numa das belas mulheres.
Jasão, desvencilhando-se delas, foi conhecer melhor a ilha. Andou sozinho por tudo, até que descobriu o cemitério. Ali estavam os túmulos de centenas de homens, todos mortos mais ou menos à mesma época.
— Gosta de túmulos, senhor navegante? — indagou uma voz feminina às suas costas.
Jasão voltou-se para trás, surpreso com a presença inesperada.
— Parece que é este o lugar onde estão descansando todos os homens da ilha — disse Jasão, num tom irônico.
A mulher — a mesma que o recebera no desembarque — sorriu discretamente.
Diferente de antes, tinha agora apenas um fino véu a cobrir a parte inferior da sua cintura.
— Aqui eles não nos causam mais problemas — disse, erguendo os braços e fingindo que se espreguiçava.
— Diga, afinal, o que está acontecendo por aqui — ordenou Jasão, agarrando-a pelos ombros.
 — Ui... Não se zangue, estrangeiro... — disse a mulher, passando de leve o belo nariz aquilino sobre o peito robusto de Jasão.
— Deixe de asneiras e diga o que foi feito dos homens — ordenou novamente Jasão, sacudindo-a com força. Apesar do vigor do chefe dos argonautas, a mulher conseguiu se desvencilhar.
— Quer saber? Pois bem, nós os matamos!
 — Mataram... todos?
— Naturalmente! Eles nos traíam o tempo todo, e este foi o castigo — disse a mulher apontando para os túmulos, alegre e desafiadora. Em breves palavras ela descreveu, então, as humilhações que tiveram de suportar de seus maridos.
Não havia um único dia em que não tivessem notícia da traição de algum deles. Finalmente, revoltadas, decidiram pôr um fim em tudo, matando-os. E assim fizeram. No dia seguinte, não havia mais um único homem vivo em toda a ilha.
— Vênus, no entanto, irou-se conosco — continuou a mulher — e nos inspirou um ardente desejo por novas núpcias. Desde então, vivemos na ânsia de contrair novo casamento, o que, no entanto, jamais se realiza.
— Por que não?
— Bem, não possuímos um navio enorme como o seu, nem saberíamos fabricar outro parecido, para partir em busca de novos maridos — disse ela, aproximando-se com seu passo felino e sensual.
 Jasão, por alguns instantes, aceitou as carícias; porém, lembrando da sua missão, repeliu outra vez a estranha para longe.
Com uma gargalhada divertida, ela rodopiou, fazendo uma volta inteira sobre si mesma, enquanto erguia com as mãos os belos cabelos negros, recolhendo-os acima da cabeça. Seu rosto oval ficava, assim, inteiramente livre, mostrando o traçado perfeito de suas feições, sem nada em torno para ofuscar o brilho intenso do seu olhar. Era uma visão positivamente tentadora para um homem da juventude e da virilidade de Jasão, que há várias semanas não via senão água e homens ao seu redor. Mas ele soube resistir aos seus impulsos, pedindo mentalmente o auxílio de sua adorada Juno.
Dando as costas à nativa da ilha, retornava já para o Argo quando sentiu que a sedenta mulher agarrava-se às suas costas, como uma onça, e cravava os dentes em seu ombro.
Com um safanão, Jasão lançou-a ao solo. A mulher rolou pelo chão, com várias folhas secas coladas à pele. Jasão retornou ao navio. Ao chegar lá, porém, não encontrou ninguém. Furioso com o desleixo, saiu em busca do piloto e dos demais tripulantes.
Aos poucos foi encontrando um a um — ou antes, dois a dois, pois cada qual estava entregue aos braços de uma mulher, fazendo o que ele, Jasão, deixara de fazer. Por alguns momentos teve o desejo de retornar e completar o que deixara pela metade, mas outra vez o senso do dever o obrigou a refrear seus instintos.
De maneira rude pôs fim à folgança de seus tripulantes, separando um a um os amantes, o que pôs à prova pela primeira vez a força do seu braço. De fato, separar os casais revelou-se a tarefa mais difícil de quantas tivera posteriormente de enfrentar; mas, pouco a pouco, conseguiu reunir novamente todos os seus homens e levá-los de volta ao Argo.
Sob o pretexto de uma grave comunicação que tinha para lhes fazer, Jasão reuniu todos no convés do Argo. As mulheres, em terra, acenavam freneticamente, chamando de volta os homens, de forma que os argonautas passaram por uma prova semelhante à de Ulisses, diante do canto tentador das sereias. Enquanto os tripulantes aguardavam o começo da preleção, Jasão se afastou e cortou discretamente as amarras que prendiam o navio à terra, fazendo com que ele navegasse velozmente para longe da perigosa ilha.
Um desconhecido marinheiro, porém, pulou pela amurada afora e foi reunir-se às mulheres, em terra. Depois de um tempo, elas acabaram por descobrir que ele as traía, desrespeitando o rodízio estabelecido por aquelas ardentes e insaciáveis mulheres, e terminaram por matá-lo e acrescentar uma lápide a mais no cemitério.
Enquanto isso, Jasão conduzia o Argo em direção ao Velocino de Ouro. 
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A Máscara da Morte Escarlate - Edgar Allan Poe

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A “Morte Escarlate” havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca ? a cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.

Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesãos trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero do que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, Beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Escarlate”.

Lá pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um magnífico baile de máscaras.

Era um espetáculo voluptuoso, aquela mascarada. Mas antes vou descrever onde ela aconteceu. Eram sete ? um suíte imperial. Em muitos palácios, porém, essas suítes formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do duque pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas da suíte. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul ? e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada ? o quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder à das decorações. AS vidraças, ali, eram escarlates ? uma violenta cor de sangue.

Ora, em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da seqüência de salões. Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante do que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali penetrar.

Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro e alto e grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.

Apesar disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gosto do duque eram estranhos. Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas idéias brilhavam com um esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.

Para essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia e fantasia ? muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza, muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles ? os sonhos ? giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão. Mas os ecos das batidas extinguem-se ? duraram apenas um instante ? e risos levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às alegrias nos salões mais afastados.

Mas nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio. Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, tudo ficou intranqüilamente imobilizado. Mas agora iriam ser doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou murmúrio que expressava a reprovação e surpresa ? e, finalmente, terror, horror e repulsa.

Numa reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e esquálida, envolta do pés a cabeça em veste mortuárias. A máscara que escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o tipo da Morte Escarlate. Seu vestuário estava borrifado de sangue ? e sua alta testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu semblante tornou-se vermelho de raiva.

– Quem ousa… ? perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto ? quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!

O príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.

O príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado. Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso, que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão, como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o inicio, passando do salão azul para o púrpura ? do púrpura para o verde ? do verde para o alaranjado ? e desse ainda para o branco ? e daí para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para dete-lo. Foi então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo ? e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.

E então reconheceu-se a presença da Morte Escarlate. Viera como um ladrão na noite. E um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um morreu na mesma posição de desespero em que tombou no chão. E a vida do relógio de Ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e da Morte Escarlate estendeu-se sobre tudo.
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Berenice - Edgar Allan Poe

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Desgraça é variada. O infortúnio da terra é multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris! Como é que, da beleza, derivei eu um exemplo de feiúra? Da aliança da paz, um símile de tristeza? Mas é que, assim como na ética o mal é uma conseqüência do bem, igualmente, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que existem agora têm sua origem nos êxtases que podiam ter existido

Meu nome de batismo é Egeu; o de minha família não o mencionarei. E, no entanto, não há torres no país mais vetustas do que as salas cinzentas e melancólicas do solar de meus avós. Nossa estirpe tem sido chamada uma raça de visionários. Em muitos pormenores notáveis, no caráter da mansão familiar, nos afrescos do salão principal, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzeladuras de algumas colunas da sala de armas, porém mais especialmente na galeria de pinturas antigas, no estilo da biblioteca, e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que suficiente evidência a garantir minha assertiva.

As recordações de meus primeiros anos estão intimamente ligadas àquela sala e aos seus volumes, dos quais nada mais direi. Ali morreu minha mãe. Ali nasci. Mas é ocioso dizer que eu não havia vivido antes, que a alma não tem existência prévia. Vós negais isto? Não discutamos o assunto. Convencido eu mesmo, não procuro convencer. Há, porém, uma lembrança de forma aérea, de olhos espirituais e expressivos, de sons musicais embora tristes; uma lembrança que jamais será apagada; uma reminiscência parecida a uma sombra, vaga, variável, indefinida, instável; e tão parecida a uma sombra, também, que me vejo na impossibilidade de livrar-me dela enquanto a luz de minha razão existir.

Foi naquele quarto que nasci. Emergindo assim da longa noite daquilo que parecia mas não era, o nada, para logo cair nas mesmas regiões da terra das fadas, num palácio fantástico, nos estranhos domínios do pensamento monástico e da erudição, não é de estranhar que tenha eu lançado em torno de mim um olhar ardente e espantado, que tenha consumido minha infância nos livros e dissipado minha juventude em devaneios; mas é estranho que, com o correr dos anos, e tendo o apogeu da maturidade me encontrado ainda na mansão de meus pais; é maravilhoso que a inércia tenha tombado sobre as fontes da minha vida; é maravilhoso como total inversão se operou na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo me afetavam como visões, e somente como visões, enquanto as loucas idéias da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não o estofo de minha existência cotidiana, mas, na realidade, a própria existência em si, completa e unicamente.

Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos no solar paterno. Mas crescemos diferentemente: eu, de má saúde e mergulhado na minha melancolia, ela, ágil, graciosa e exuberante de energia; ela, entregue aos passeios pelas encostas da colina, eu, aos estudos no claustro. Eu, encerrado dentro do meu próprio coração e dedicado, de corpo e alma, à mais intensa e penosa meditação, ela, divagando descuidosa pela vida, sem pensar em sombras no seu caminho ou no vôo saliente das horas de asas lutulentas. Berenice! – invoco-lhe o nome – Berenice! – e das ruínas sombrias da memória repontam milhares de tumultuosas recordações ao som da invocação! Ah! bem viva tenho agora a sua imagem diante de mim, como nos velhos dias de sua jovialidade e alegria! Oh! deslumbrante, porém fantástica beleza! Oh! sílfide entre arbustos de Arnheim! Oh! náiade entre as suas fontes! E depois. . . depois tudo é mistério e horror, uma história que não deveria ser contada. Uma doença, uma fatal doença, soprou, como o simum, sobre seu corpo. E precisamente quando a contemplava, o espírito da metamorfose arrojou-se sobre ela invadindo-lhe a mente, os hábitos e o caráter e, da maneira mais sutil e terrível, perturbando-lhe a própria personalidade! Ah! o destruidor veio e se foi! E a vítima. . . onde estava ela? Não a conhecia. . . ou não mais a conhecia como Berenice!

Entre a numerosa série de males, acarretados por aquele fatal e primeiro que ocasionou uma revolução de tão horrível espécie no ser moral e físico de minha prima, pode-se mencionar como o mais aflitivo e obstinado em sua natureza, uma espécie de epilepsia, que, não raro, terminava em transe cataléptico, transe muito semelhante à morte efetiva e da qual despertava ela quase sempre duma maneira assustadoramente subitânea. Entrementes, minha própria doença – pois me fora dito que eu não poderia dar-lhe outro nome – minha própria doença aumentou e assumiu afinal um caráter de monomania, de forma nova e extraordinária, e a cada hora e momento crescia em vigor e por fim veio a adquirir sobre mim a mais incompreensível ascendência. Esta monomania, se devo assim chamá-la, consistia numa irritabilidade mórbida daquelas faculdades do espírito denominadas pela ciência metafísica “faculdades da atenção “. É mais que provável não me entenderem, mas temo, deveras, que me seja totalmente impossível transmitir à mente do comum dos leitores uma idéia adequada daquela nervosa INTENSIDADE DE ATENÇÃO com que, no meu caso, as faculdades meditativas (para evitar a linguagem técnica) se aplicavam e absorviam na contemplação dos mais vulgares objetos do mundo.

Meditar infatigavelmente longas horas, com a atenção voltada para alguma frase frívola, à margem de um livro ou no seu aspecto tipográfico; ficar absorto, durante a melhor parte dum dia de verão, na contemplação duma sombra extravagante, projetada obliquamente sobre a tapeçaria, ou sobre o soalho; perder uma noite inteira olhando a chama imóvel duma lâmpada, ou as brasas de um fogão; sonhar dias inteiros com o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, à força da repetição freqüente, cessasse de representar ao espírito a menor idéia, qualquer que fosse; perder toda a noção de movimento ou de existência física, em virtude de uma absoluta quietação do corpo, prolongada e obstinadamente mantida – tais eram os mais comuns e menos perniciosos caprichos provocados por um estado de minhas faculdades mentais, não, de fato, absolutamente sem paralelo, mas certamente desafiando qualquer espécie de análise ou explicação.

Sejamos, porém, mais explícitos. A excessiva, ávida e mórbida atenção assim excitada por objetos, em sua própria natureza triviais, não deve ser confundida, a propósito, com aquela propensão ruminativa comum a toda a humanidade e, mais especialmente, do agrado das pessoas de imaginação ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princípio supor, um estado extremo, ou um a exageração de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente dela. Naquele caso, o sonhador ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente não trivial, perde imperceptivelmente de vista esse objeto através duma imensidade de deduções, e sugestões dele provindas, até que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repleto de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum, ou causa primeira de suas meditações, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente frívolo, embora assumisse, por força de minha visão doentia, uma importância irreal e refratada. Nenhuma ou poucas reflexões eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente, ao objeto primitivo, como a um centro. As meditações nunca eram agradáveis, e, ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista, atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado, que era a característica principal da doença. Em uma palavra, as faculdades da mente, mais particularmente exercitadas em mim, eram, como já disse antes, as da atenção ao passo que no sonhador-acordado são as especulativas.

Naquela época, os meus livros, se não contribuíam efetivamente para irritar a moléstia, participavam largamente, como é fácil perce-ber-se, pela sua natureza imaginativa e inconseqüente, das qualidades características da própria doença. Bem me lembro, entre outros, do tratado do nobre italiano Coelius Secundus Curio ‘De AMPLITUDINE BEATI REGNI DEI;” da grande obra de Santo Agostinho, “A CIDADE DE DEUS”; do “De CARNE CHRISTI”, de Tertuliano, no qual a paradoxal sentença: MORTUS EST DEI FILIUS; CREDIBILE EST QUIA INEPTUM EST: ET SEPULTUS RESUR-REXIT; CERTUM EST QUIA IMPOSSIBiLE EST”, absorveu meu tempo todo, durante semanas de laboriosa e infrutífera investigação.

Dessa forma, minha razão perturbada, no seu equilíbrio, por coisas simplesmente triviais, assemelhava-se àquele penhasco marítimo, de que fala Ptolomeu Hefestião, que resistia inabalável aos ataques da violência humana e ao furioso ataque das águas e dos ventos, mas tremia ao simples toque da flor chamada asfódelo. E embora a um pensador desatento possa parecer fora de dúvida que a alteração produzida pela lastimável moléstia no estado moral de Berenice fornecesse motivos vários para o exercício daquela intensa e anormal meditação, cuja natureza tive dificuldades em explicar, contudo tal não se deu absolutamente. Nos intervalos lúcidos de minha enfermidade, a desgraça que a feria me mortificava realmente, e me afetava fundamente o coração aquela ruína total de sua vida alegre e doce. Por isso não deixava de refletir muitas vezes, e amargamente, nas causas prodigiosas que tinham tão subitamente produzido modificações tão estranhas. Mas essas reflexões não participavam da idiossincrasia de minha doença, e eram as mesmas que teriam ocorrido, em idênticas circunstâncias, à massa ordinária dos homens. Fiel a seu próprio caráter, minha desordem mental preocupava-se com as menos importantes, porém mais chocantes mudanças, operadas na constituição física de Berenice, na estranha e verdadeiramente espantosa alteração de sua personalidade.

De modo algum, jamais a amara durante os dias mais brilhantes de sua incomparável beleza. Na estranha anomalia de minha existência, os sentimentos nunca me provinham do coração, e minhas paixões eram sempre do espírito. Através do crepúsculo matutino, entre as sombras estriadas da floresta, ao meio-dia, e no silêncio de minha biblioteca, à noite, esvoaçara ela diante de meus olhos e eu a contemplara, não como a viva e respirante Berenice, mas como a Berenice de um sonho; não como um ser da terra, terreno, mas como a abstração de tal ser; não como coisa para admirar, mas para analisar; não como um objeto de amor, mas como o tema da mais abstrusa, embora inconstante, especulação. E agora. . . agora eu estremecia na sua presença e empalidecia à sua aproximação; embora lamentando amargamente sua decadência, e sua desolada condição, lembrei-me de que ela me amava desde há muito e num momento fatal, falei-lhe em casamento.

Aproximava-se, enfim, o período de nossas núpcias quando, numa tarde de inverno, de um daqueles dias intempestivamente cálidos, sossegados e nevoentos, que são a alma do belo Alcíone, sentei-me no mais recôndito gabinete da biblioteca. Julgava estar sozinho, mas, erguendo a vista, divisei Berenice, em pé à minha frente.

Foi a minha própria imaginação excitada, ou a nevoenta influência da atmosfera, ou o crepúsculo impreciso do aposento, ou as cinzentas roupagens que lhe caiam em torno do corpo, que lhe deram aquele contorno indeciso e vacilante? Não sei dizê-lo. Ela não disse uma palavra e eu, por forma alguma, podia emitir uma só sílaba. Um gélido calafrio correu-me pelo corpo, uma sensação de intolerável ansiedade me oprimia, uma curiosidade devoradora invadiu-me a alma e, recostando-me na cadeira, permaneci por algum tempo imóvel e sem respirar, com os olhos fixos no seu vulto. Ai! sua magreza era excessiva e nenhum vestígio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas. O meu olhar ardente pousou-se afinal em seu rosto.

A fronte era alta e muito pálida e de uma placidez singular. O cabelo, outrora negro, de azeviche, caía-lhe parcialmente sobre a testa e sombreava as fontes encovadas com numerosos anéis, agora dum amarelo vivo, discordando, pelo seu caráter fantástico, da melancolia reinante em suas feições. Os olhos, sem vida e sem brilho, pareciam estar desprovidos de pupilas, e desviei involuntariamente a vista de sua fixidez vítrea para contemplar-lhe os lábios delgados e contraídos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus nunca os tivesse visto, ou que, tendo-os visto, tivesse morrido!

O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia abandonado o aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! e não queria sair, o espectro branco e horrível de seus dentes. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem um matiz em seu esmalte, nem uma falha nas suas bordas, que aquele breve tempo de seu sorriso não me houvesse gravado na memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!. . – Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda a parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Os múltiplos objetos do mundo exterior não me despertavam outro pensamento que não fosse o daqueles dentes, Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação. Eles. Somente eles estavam presentes aos olhos de meu espírito, e eles, na sua única individualidade, se tornaram a essência de minha vida mental. Via-os sob todos os aspectos. Revolvia-os em todas as suas peculiaridades. Meditava em sua conformação. Refletia na alteração de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em imaginação, faculdades de sentimento e sensação e, mesmo quando desprovidos dos lábios, capacidade de expressão moral. Dizia-se, com razão, de Mademoiselle de Sallé; que tous ses pas êtaient des sentiments” e de Berenice, com mais séria razão acreditava “que toutes ses dents étaient des idées”. Idées! Ah! esse foi o pensamento absurdo que me destruiu! Des idées! ah! eis porque eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, e devolver-me a razão.

E assim cerrou-se a noite em torno de mim. Vieram as trevas, demoraram, foram embora. E o dia raiou mais uma vez. E os nevoeiros de uma segunda noite de novo se adensavam em torno de mim. E eu ainda continuava sentado, imóvel, naquele quarto solitário, ainda mergulhado em minha meditação, ainda com o fantasma dos dentes, mantendo sua terrível ascendência sobre mim, a flutuar, com a mais viva e hedionda nitidez, entre as luzes e sombras mutáveis do aposento. Afinal, explodiu em meio de meus sonhos um grito de horror e de consternação, ao qual se seguiu, depois de uma pausa, o som de vozes aflitas, entremeadas de surdos lamentos de tristeza e pesar. Levantei-me e, escancarando uma das portas da biblioteca, vi, de pé, na antecâmara, uma criada, toda em lágrimas, que me disse que Berenice não mais. . – vivia! Fora tomada de um ataque epiléptico pela manhã e agora ao cair da noite, a cova estava pronta para receber seu morador e todos os preparativos do enterro estavam terminados.

Com o coração cheio de angústia, oprimido pelo temor, dirigi-me, com repugnância, para o quarto de dormir da defunta. Era um quarto vasto, muito escuro, e eu me chocava, a cada passo, com os preparativos do sepultamento. Os cortinados do leito, disse-me um criado, estavam fechados sobre o ataúde e naquele ataúde, acrescentou ele, em voz baixa, jazia tudo quanto restava de Berenice.

Quem, pois, me perguntou se eu não queria ver o corpo ?- Não vi moverem-se os lábios de ninguém; entretanto, a pergunta fora realmente feita e o eco das últimas sílabas ainda se arrastava pelo quarto. Era impossível resistir e, com uma sensação opressiva, dirigi-me a passos tardos para o leito. Ergui de manso as sombrias dobras das cortinas mas, deixando-as cair de novo, desceram elas sobre meus ombros e, separando-me do mundo dos vivos, me encerraram na mais estreita comunhão com a defunta.

Todo o ar do quarto respirava morte; mas o cheiro característico do ataúde me fazia mal e imaginava que um odor deletério se exalava já do cadáver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influência mortuária, para respirar, uma vez ainda, o ar puro dos céus eternos. Mas, faleciam-me as forças para mover-me, meus joelhos tremiam e me sentia como que enraizado no solo, contemplando fixamente o rígido cadáver, estendido ao comprido, no caixão aberto.

Deus do céu! Seria possível? Ter-se-ia meu cérebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sudário que a envolvia? Tremendo de inexprimível terror, ergui lentamente os olhos para ver o rosto do cadáver. Haviam-lhe amarrado o queixo com um lenço, o qual, não sei como, se desatara. Os lábios lívidos se torciam numa espécie de sorriso, e, por entre sua moldura melancólica, os dentes de Berenice, brancos luzentes, terríveis, me fixavam ainda, com uma realidade demasiado vivida. Afastei-me convulsivamente do leito e sem pronunciar uma palavra, como louco, corri para fora daquele quarto de mistério, de horror e de morte.

Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava só. Parecia-me que, havia pouco, despertara de um sonho confuso e agitado. Sabia que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr-do-sol, Berenice tinha sido enterrada. Mas, do que ocorrera durante esse tétrico intervalo, eu não tinha qualquer percepção positiva, ou pelo menos definida. Sua recordação, porém, estava repleta de horror, horror mais horrível porque impreciso, terror mais terrível porque ambíguo. Era uma página espantosa do registro de minha existência, toda escrita com sombrias, medonhas e ininteligíveis recordações. Tentava decifrá-la, mas em vão; e de vez em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém? Interrogava-me em voz alta e os ecos do aposento me respondiam “Que era?”

Sobre a mesa, a meu lado, ardia uma lâmpada e, perto dela, estava uma caixinha. Não era de aspecto digno de nota e eu freqüentemente a vira antes, pois pertencia ao médico da família; mas, como viera ter ali, sobre minha mesa, e por que estremecia eu ao contemplá-la? Não valia a pena importar-me com tais coisas e meus olhos, por fim, caíram sobre as páginas abertas de um livro e sobre uma sentença nelas sublinhada. Eram as palavras singulares, porém simples, do poeta Ebn Zaiat: “Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas’. Por que, então, ao lê-las, os cabelos de minha cabeça se eriçaram até a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou nas veias?

Uma leve pancada soou na porta da biblioteca e, pálido como o habitante de um sepulcro, um criado entrou, na ponta dos pés. Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele me falou em voz trêmula, rouca e muito baixa. Que disse? Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito selvagem, que perturbara o silêncio da noite. -da acorrência dos moradores da casa. – – de uma busca do lugar de onde viera o som. E depois sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao murmurar a respeito de um túmulo violado — . de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas ainda respirante, ainda pal-pitante, ainda vivo!

Apontou para minhas roupas; estavam sujas de barro e de coágulos de sangue. Eu nada falava e ele pegou-me levemente na mão; havia, gravadas nela, sinais de unhas humanas. Chamou-me a atenção para certo objeto encostado à parede, que contemplei por alguns minutos: era uma pá.

Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que sobre ela jazia. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas mãos e caiu com força, quebrando-se em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho.
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Pobre povo cruel - Arkady and Boris Strugatsky

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O Rei sentou-se nu. Tal como um tolo pedinte de rua, sentou-se com as costas contra a parede fria. Tremia de olhos fechados e tentava ouvir, mas tudo era silêncio.
Acordara à meia-noite de um pesadelo e imediatamente entendera que estava acabado. Sons ofegantes detrás da porta da suíte real, passos, bater de metais e resmungos bêbados de Sua Alteza, o Tio Buht: 'DEIXEM-ME PASSAR! SAIAM DO MEU CAMINHO, PRO INFERNO COM ISSO...

Molhado de gélido suor, rolara para fora da cama, seguindo por um estreito corredor secundário e então pela passagem subterrânea até o templo. Algo gemera sob seus pés descalços, pisara em ratazanas, mas na hora não se importou, somente agora, sentado contra a parede, lembrou-se de tudo; da escuridão, das paredes escorregadias e a dor de ter batido a cabeça contra as portas do templo, e de seu próprio insuportável urro de dor.
Eles não poderiam entrar ali, pensou. Ninguém poderia entrar no templo.
Somente por ordem do Rei. Mas o Rei não mais ordenava. Riu-se histérico.
Oh não, o Rei não ordena mais! Vagarosamente abriu os olhos e viu suas pernas azuis e lisas com os joelhos feridos. Ainda estava vivo, pensou. Viverei, por que ninguém pode entrar aqui. Tudo no templo era azulado devido a luz fria das lanternas, longos tubos brilhantes espalhados sob o teto. No centro do templo, Deus em seu trono gigantesco e pesado, com olhos vazios. O Rei o olhava pelo canto do olho. Escória, pensou, que verme miserável, pegar o mestiço e os cães, para me assolar... deu-se conta de não lembrar-se muito bem do maldito.Tão mirrado e imprestável... mas tudo bem, eles iriam pagar por isso.
Por tudo, Sua Grandeza Tio Buht. Durante o reino de seu pai, você se sentou quieto, bebendo calado, com medo de ser notado, pois sabia que o Rei Prostyaga não esqueceria sua desprezível traição… Grande era meu pai, o Rei pensou com habitual inveja.
Você seria grande também se seus conselheiros fossem anjos em carne e osso.
Todos sabiam, todos tinham visto, seus rostos medonhos e brancos como leite, seus trajes feitos de tal forma que ninguém sabia se estavam nus ou não. E suas flechas ardentes como raios do céu, que fizeram com que os inimigos fugissem, ainda que disparassem por sobre suas cabeças, metade da horda correu com medo daquelas flechas.

Sua Alteza, Tio Buht, sussurrou certa vez, bêbado, que tais flechas poderiam ser usadas por qualquer um, as tais armas dos anjos, seria bom se tirássemos deles. E ele disse então - bêbado - que se era bom, por que então não obtê-las, por que não... mais tarde após aquela conversa à mesa, um anjo tombou dentro do canal, provavelmente por acidente. Junto dele acharam o corpo de um dos guardas pessoais do Tio. Foi um feito maléfico, terrível, e era conveniente que o povo não se importasse muito com os anjos, eles os temiam, mas este temor também não era total, já que os anjos eram alegres e cordiais.
Apenas seus olhos eram assustadores. Pequenos e brilhantes e não paravam de se mover irrequietos, não eram humanos. Sendo assim o povo os evitava, o Rei Prostyaga dava liberdade a eles, o que era vergonhoso de se lembrar...contudo antes do Golpe o pai, diziam, era um apaziguador. Dito isso, com minhas próprias mãos, sequei as lágrimas dos olhos.
Lembro que ele costumava se sentar à noite na torre de cristal e eu podia me abrigar ao seu lado, era quente e confortável...os anjos cantavam dos quartos, tão tranqüilo e em harmonia, o pai começava a acompanhá-los - ele conhecia a língua dos anjos - e tudo era vasto e amplo, sem ninguém por perto... não como hoje, com guardas em cada canto, pois não havia motivo para isso.
O Rei lamentou. Sim, ele fora um bom pai e que não devia ter morrido. Não devia morrer enquanto seu filho estava vivo...o filho agora é Rei também,...mas Prostyaga não durou muito.
Tenho mais de cinqüenta anos e ele ainda era mais novo do que eu... parecia que os anjos tinham pedido a Deus por suas vidas. Disseram que os confinaram no quarto do Rei, eles tinham armas, mas não se defenderam. Antes de morrer, disseram, os anjos jogaram as armas pela janela e elas se queimaram com uma chama azul e nem cinza sobrou.
E Prostyaga, disseram, chorou e ficou bêbado pela primeira vez em seu reinado, e olhou para mim, disseram, com amor, e eu acreditei…
O Rei secou as lágrimas do rosto e abraçou as pernas. E daí? Temos que saber os limites e abdicar, como acontece o tempo todo por ai. Apenas por uma vez conversei com meu Tio.
– Sua Alteza.Prostyaga - ele disse - não envelhecerá'.
– Sim - eu disse a ele - mas o que podemos fazer, os anjos pedem por suas vidas.
O Tio então zombou e disse:
– Anjos - disse - não mais cantarão suas canções por aqui.
E eu retruquei:
– É verdade, agora podemos negociar com eles, não somente como humanos.

O Tio então olhou para mim sóbrio e imediatamente se foi.. e eu realmente não tinha dito nada demais...apenas palavras vazias sem significado. Uma semana depois Prostyaga morreu de um ataque do coração.E dai? Era sua vez. Ele parecia jovem, mas tinha na realidade mais de cem anos.
Todos morremos um dia. O Rei se assustou e cobriu-se sem jeito.
O Santo Padre Agar entrara no templo. Os Irmãos de fé vinham na sua frente, trazendo-o pelas mãos. Ele não olhou para o Rei, foi direto na direção de Deus e ajoelhou-se diante de seu posto.
Alto e corcunda, com longos cabelos brancos e sujos.
O Rei o olhou fixo e disse divertido: 'É o seu fim! Você procurou por isso, e não sou como Prostyaga, você vai se sufocar em seus intestinos, porco bêbado...
Agar, com a voz profunda falou:
– Deus! O Rei deseja falar contigo! Perdoa-o e ouça-o.
O silêncio caiu na sala, ninguém ousava respirar.
O Rei ponderou: Quando a grande enchente veio e a terra se abriu, Prostyaga pediu a Deus por socorro, e Deus veio dos céus numa bola de fogo no mesmo dia e naquela noite a terra acalmou-se e a enchente se foi. Isso significava que poderia acontecer hoje novamente.
– Você está perdido Tio, você não se cuidou direito. Agora ninguém vai te ajudar…
Agar se endireitou. Os irmãos que o amparavam pularam, virando de costas para Deus e cobrindo suas cabeças com os braços. O Rei viu como Agar estendeu as mãos e as colocou no peito de Deus. Os olhos de Deus se abriram. O Rei ficou boquiaberto de medo pois os olhos de Deus eram grandes e diferentes, um era verde e o outro branco brilhante e luminoso.
Podia ouvir agora a respiração de Deus, pesada e estalante, como se doente.
Agar recuou.
- Fale - sussurrou Agar.
O Rei ficou de quatro e começou a engatinhar até o altar. Ele não sabia o que dizer ou como. E não sabia como começar e sequer se deveria contar toda a verdade.
Deus respirava pesadamente ofegante e o Rei passou a choramingar com medo.
– Sou o filho de Prostyaga - disse o Rei em desespero, amassando o rosto contra a pedra fria
 – Prostyaga morreu. Peço sua proteção contra os conspiradores. Prostyaga cometeu erros. Ele não sabia o que estava fazendo. Eu consertei tudo; acalmei o povo, me tornei poderoso e inatingível como você, e montei um exército...o traidor Buht está atrapalhando meus planos para conquistar o mundo. Ele quer me matar! Me ajude!
E baixou a cabeça até o chão.
Deus, sem piscar, estava olhando para ele em verde e branco.
Deus estava silencioso.
– Ajude-me - repetiu o Rei
- Ajude-me, ajude-me!
De repente ele pensou se estava fazendo algo errado, pois Deus estava indiferente e inoportunamente lembrou-se que eles tinham dito que seu pai, Prostyaga não morrera de um ataque do coração, mas fora morto ali, no templo, quando os assassinos entraram sem pedir permissão.
– Ajude-me! ele gritou desesperado. Tenho medo de morrer! Ajude-me! Ajude-me!
Ele deitou-se sobre as pedras do chão, mordendo as mãos com terror insuportável.

O Deus de Olhos Diferentes falou com a voz rouca.
– Seu verme velhaco - disse Tolya.
Ernst estava calado observando. Na tela, através da estática, era possível ver uma forma humana escura que jazia deitada ao chão.
– Quando eu penso - disse Tolya de novo - que se não fosse por ele, Alan e Derek estariam vivos, tenho vontade de fazer alguma coisa.
Ernst balançou os ombros e foi até a mesa.
– Eu sempre penso - continuou Tolya - por que Derek não atirou ? Ele podia ter liquidado todos…
– Ele não podia, disse Ernst.
– Por que não?
– Já tentou atirar em um ser humano? Tolya fez uma careta, mas não disse nada.
– Pois então - disse Ernst - Tente imaginar. É quase repugnante. Um uivo triste era ouvido saindo pelos alto-falantes.
– Ajude-me, ajude-me, tenho medo, ajude-me', o mecanismo-tradutor continuava a transmitir.
– Pobre povo cruel...– lamentou Tolya.
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O toque de Midas - Mitologia Grega

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— Alguém viu por aí aquele bêbado do Sileno? — perguntou Baco, sem receber resposta. Sileno, preceptor de Baco, não passava um dia sem aprontar alguma. Sempre embriagado e montado no seu burrico, vagava o dia inteiro, sem rumo certo, até ser encontrado dias depois, caído pelos caminhos, a dormir o pesado sono dos bêbados.
Desta vez não foi diferente. Tonto pela bebida, Sileno enveredara por uma estrada diferente, esfalfando seu burrico, até chegar ao reino do poderoso Midas. Internando-se num bosque, encontrara logo uma árvore e ajeitara-se sob a sua sombra, para pôr o sono em dia. Alguns camponeses que passavam por ali logo o reconheceram.
— Vejam, aquele não é Sileno, pai adotivo de Baco? — disse um deles.
Os outros, parando em frente ao dorminhoco, logo o reconheceram como tal. Os camponeses colocaram-no ainda adormecido sob as ancas do seu burro e levaram-no até o palácio de Midas.
— Ora, se não é Sileno, pai de meu grande amigo Baco! — exclamou Midas, ao ver entrar em seu salão o velho bêbado, que já andava por suas próprias pernas.
Midas gostava do alarido divertido que o velho gorducho promovia durante suas bebedeiras; por isto, resolveu fazer dele seu hóspede por algum tempo. Durante dez dias o velho bêbado alegrou a corte do rei, até que no décimo primeiro dia Midas levou-o de volta ao seu filho adotivo.
Baco, após dar uma descompostura no velho, agradeceu a Midas pelo grande favor que lhe prestara.
— Pode escolher, caro amigo, a recompensa que quiser — disse-lhe Baco, num ímpeto de generosidade.
— Qualquer coisa?... — perguntou Midas, surpreso. — Qualquer coisa mesmo?
— Sim, claro, vamos lá, diga o que quer! — exclamou Baco, disposto a tudo.
Midas parou um pouco para pensar. Milhares de coisas valiosas passavam por sua cabeça — coroas, troféus, estátuas, jóias -, sempre douradas e resplandecentes.
De repente, teve uma brilhante idéia. Ou antes, uma dourada idéia:
— Quero que tudo o que eu toque vire ouro.
Baco, que havia prometido atender ao pedido, qualquer que fosse, tentou, no entanto, tirar essa ideia da cabeça de Midas:
 — Meu amigo, acho que esta não é uma boa escolha — disse o deus, pousando amigavelmente a mão sobre o ombro do visitante. Este, no entanto, surdo a qualquer razão, queria a todo custo que seu amigo cumprisse a promessa.
— Você disse qualquer coisa.
— Quer isto mesmo?
— Sim, claro, vamos! — disse Midas, impacientando-se.
Baco cedeu finalmente e, por meio de um passe mágico de mãos, conferiu ao angustiado Midas o poder de transformar tudo o que tocasse em puríssimo ouro.
— Obrigado mesmo! — exclamou Midas, aproximando-se para dar um abraço em Baco.
O deus, no entanto, esquivou-se num movimento rápido e afastou-se dando-lhe adeus. Para testar o seu novo poder, Midas estendeu uma das mãos para um galho seco que pendia de uma velha árvore.
— Vamos ver... — murmurou, numa expectativa ansiosa.
Nem bem tocou no galho, no entanto, a casca começou a se esfarelar, surgindo por baixo uma cor dourada.
 — Funciona! funciona! — gritava pelas veredas do bosque o rei, sapateando de euforia.
— Serei o rei mais rico do mundo! Seguiu assim, saltitando e tocando em tudo o que via: tocou numa pedra e ela virou uma grande pepita de ouro; arrancou uma maçã de uma árvore e ela ganhou a cor dourada e pesou na suas mãos; achou uma velha fivela de metal e viu-a logo resplandecer diante de seus olhos.
Midas chegou em casa com os bolsos abarrotados de insetos, galhinhos. folhas e pedras de ouro — pois não quis deixá-las espalhadas pelo caminho, incerto ainda da duração do seu novo e maravilhoso poder.
— A rainha já chegou? — perguntou, assim que entrou no palácio.
Os criados responderam que não, ela ainda não havia chegado. "Onde andará essa mulher?", pensou, impaciente para lhe contar a novidade. Midas sentou-se à mesa, para almoçar. Já passava de meio-dia, e a caminhada havia aberto seu apetite.
Logo as baixelas de prata foram surgindo nos braços dos escravos. Um criado destapou a primeira, da qual se levantou uma nuvem branca e cheirosa. Os olhos do faminto Midas lutavam por devassar a nuvem e descobrir o que o aguardava.
— Pernil de carneiro com amêndoas e tâmaras! — exclamou, deliciado.
Parecia até que o cozinheiro havia adivinhado que aquela era uma data especial. Outros pratos foram sendo colocados na mesa, cada qual mais apetitoso que o outro. Midas pegou o garfo — um magnífico talher de prata que se converteu imediatamente em puríssimo ouro. Tão logo levou a primeira porção à boca, percebeu que mastigava as mais duras amêndoas da sua vida. Levou a mão à boca, dela retirou alguns pedacinhos e viu que tinha entre os dedos três ou quatro pecinhas de ouro, minúsculas como pingentes.
Midas colocou o ouro de lado e decidiu atacar o assado. Como fosse guloso, arrancou um pedaço do pernil com as próprias mãos e meteu-lhe os dentes com todo o gosto. No mesmo instante, sentiu na boca a mesma sensação de haver mordido uma chapa de ferro. O seu canino estalou e Midas esfregou-o com o dedo, gemendo de dor.
No mesmo instante, não só este dente como todos os demais transformaram-se em luzentes dentes dourados. Lançando longe o pernil, Midas avistou um pêssego numa bandeja. Agoniado, agarrou-o num ímpeto voraz, apenas para perceber que tinha agora um pêssego de ouro maciço entre os dedos, lindo de ver, mas impossível de comer.
Neste instante a bela rainha entrou pela porta do salão. Estava linda como sempre, os cabelos molhados caídos de modo displicente sobre os ombros.
— Querida, tenho uma grande notícia! — disse Midas, lançando-se feliz em direção à esposa. — Você está diante do rei mais rico e poderoso da Terra! -exclamou, vermelho de satisfação.
— O que houve com os seus dentes? — perguntou a rainha, ofuscada pelo nono sorriso do rei.
 — Vamos, me dê logo um abraço! — pediu o rei, eufórico.
A rainha, sem desconfiar de nada, deixou que o rei a envolvesse nos braços.
— Ricos, ricos, eternamente ricos! — gritava ele. De repente, porém, sentiu que os membros da esposa enrijeciam-se. O rosto dela, colado ao seu, tornara-se repentinamente gelado, enquanto seus ombros haviam ficado dourados.
— Não! — gritou Midas, dando-se conta outra vez da sua horrível situação. — Rainha querida, o que houve com você?
Ali estava sua esposa, transformada numa estátua imóvel e dourada. Durante alguns minutos Midas esteve também paralisado, só que de espanto. Um ruído sibilino acordou-o de seu horrendo devaneio. Sobre a mesa, Mimeus, seu gato de estimação, o encarava, arregalando os grandes olhos de pupilas horizontais. Cercado de alimentos dourados, inúteis para ele, o gato parecia cobrar com seu miado estridente uma solução, o que encheu o coração de ouro do rei de um ódio assassino.
— Gato maldito, desapareça já da minha frente! — disse Midas, pulando na direção do gato, decidido a estrangulá-lo. Errou, no entanto, o alvo, conseguindo agarrar apenas a cauda de Mimeus, que se transformou instantaneamente em ouro.
O gato voltou-se para trás e, ao perceber aquela surpreendente transformação no seu traseiro, arreganhou os dentes e sumiu porta afora. Mas a porta já se abria outra vez: era o cunhado do rei. "Vem pedir dinheiro outra vez, o desgraçado!", pensou Midas com fúria. "Não adiantou fazê-lo ministro!"
— Quanto é desta vez? — rugiu, indo direto ao assunto. O cunhado, aliviado por poder dispensar os preâmbulos, respondeu com um sorriso mais amarelo que o do dono da casa:
— Bem, quinhentas moedas está bom...
— Venha cá — disse Midas. — Antes, me dê um abraço. E agarrou o infeliz pelos ombros, enquanto aguardava o resultado.
— Pronto, agora vai chegar para o resto da vida — rugiu, ao ver o cunhado virado em ouro.
O cunhado e ministro, encantado com a transformação, saiu correndo porta afora, disposto a vender-se inteiro ao primeiro que passasse. Toda aquela agitação, entretanto, provocou uma sede terrível em Midas, que agarrou uma jarra cheia de vinho e a emborcou. No mesmo instante, sentiu que um líquido espesso e ardente lhe descia pela traquéia até cair no estômago como chumbo derretido. Aterrado, espiou para dentro da jarra e viu no fundo um restinho do ouro liquefeito que acabara de ingerir.
Tomado definitivamente pelo pavor, Midas caiu de joelhos, levantando para o alto as suas douradas mãos.
— Baco, salve-me! — implorava. Tanto gritou o desgraçado que o deus acabou penalizado.
— Eu não o avisei? — perguntou Baco.
— Me tire desta situação, pelo amor de Zeus!
— Está bem, se acalme, vou ver o que posso fazer.
Baco disse então a Midas que fosse até o rio Pactolo e procurasse a sua nascente. Uma vez encontrando-a, deveria mergulhar a cabeça nas águas, o que seria suficiente para fazê-lo voltar à normalidade.
Midas, sem esperar mais, lançou-se porta afora. Após atravessar os campos, encontrou a nascente do rio e nela mergulhou a cabeça. No mesmo instante, as areias do rio ficaram douradas e os peixes tomaram a cor do sol, deixando-o livre para sempre da maldição.
 Depois dessa cruel experiência, Midas tomou-se de tal nojo pelo ouro e pelas riquezas que decidiu morar no mato, abandonando todas as suas riquezas e indo viver na companhia de Pã, o deus dos bosques.
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O guerreiro Juliano

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Cesorius von Heisterbach (? -1245 | Alemanha)

O abade medieval Cesarius von Heisterbach escreveu em 7245, e em latim, seu Dialogus Miraculorum. Hermann Hesse incluiria alguns destes pequenos relatos em Geschichten aus dem Mittelalter (Histórias Medievais). Esta lenda de Juliano, a história de um guerreiro que viraria santo, e que se aparenta ao destino trágico de Édipo, repercutiria literariamente em pleno século XIX, com Lenda de São Julien Hospitaleiro (o que parece ter "escapado" da atenção de Hesse), um dos famosos Três Contos de Gustave Flaubert.

Era uma vez um guerreiro chamado Juliano que, sem saber, acabou matando seus pais. Pois quando esse nobre jovem, num dia de caça, perseguia um cervo, o animal subitamente se voltou para ele e lhe disse: 
- Tu que estás me seguindo serás o assassino de teu pai e de tua mãe. 
Assustou-se bastante o guerreiro, por achar que lhe poderia de fato acontecer o que ouvira do cervo. Assim pensando, abandonou a todos, partiu, chegou a terras distantes e lá conheceu um príncipe. 
Tão bravo revelou-se Juliano no campo de batalha e no palácio que o príncipe nomeou-o comandante, deu-lhe a viúva de um castelão como esposa, tendo ela um castelo como dote. Enquanto isso, os pais de Juliano viajavam de um lado para o outro à procura do filho, movidos pela profunda dor de seu desaparecimento. 

Chegaram um dia, finalmente, ao castelo onde morava o guerreiro. Quando a esposa do guerreiro viu o casal, e como seu esposo não estivesse em casa, perguntou quem eram eles; os pais contaram tudo o que acontecera com o filho, e ela percebeu que deviam mesmo ser os pais de seu marido, pois muitas vezes ouvira dele as mesmas histórias. Acolheu-os assim com muita hospitalidade e, por amor ao marido, ofereceu-lhes a sua própria cama e mandou que preparassem para si as acomodações em outro lugar. De manhã, a castelã foi à igreja, e Juliano chegou cedo e foi direto ao quarto para acordar a mulher; quando, ao entrar, viu as duas pessoas deitadas lado a lado, foi logo levado pela suspeita de que a própria esposa estivesse deitada com um amante. 
Em silêncio, sacou a espada e ao mesmo tempo matou os dois. Em seguida, saiu do quarto e, já em frente da casa, avistou sua mulher saindo da igreja. Muito surpreso, perguntou a ela quem eram os dois que dormiam na cama. E ela respondeu: 
- São os seus pais, que procuravam por você há muito tempo; resolvi colocálos no nosso quarto. Juliano quase caiu morto de horror, e pôs-se a chorar copiosamente. Finalmente

falou: 
- Ai de mim, desgraçado que sou, o que vou fazer agora depois de ter matado meus adorados pais? Entende? 
A palavra do cervo acabou se cumprindo; eu pretendi fugir a ela, e foi assim que transformei-a em verdade. Adeus, agora, minha doce irmã, pois não posso descansar até saber que Deus aceitou o meu arrependimento! 
E ela disse: 
- Meu amantíssimo irmão, você não irá me deixar, tampouco irá partir sem mim, pois, como participei das suas alegrias, quero participar também da sua dor. 
Foram depois disso morar juntos num largo rio, onde muitos corriam perigo de vida; construíram um abrigo para fazerem penitência e ajudavam a atravessar o rio a todos que os que assim desejavam e recebiam no seu abrigo todos os pobres. 
Depois de muito tempo, quando certo dia Juliano, cansado, adormecera, e fazia um frio terrível, ele escutou uma voz que gritava em tom de lamento, suplicando tristemente que a ajudasse a atravessar o rio para aquele lado. Ao escutá-la, levantou-se logo e encontrou uma pessoa já quase congelada pelo frio; levou-a então para sua morada, acendeu o fogo e procurou aquecê-la; mas essa pessoa não conseguia se aquecer. E como Juliano temesse que ela morresse em suas mãos, levou-a para a sua cama e cobriu-a bem coberta. 
Depois de pouco tempo, aquele que lhe parecera doente e leproso ergueu-se para os céus, aureolado por uma luz brilhante e disse a seu hospedeiro: 
- Juliano, o Senhor enviou-me a ti e ordenou que te avisasse de que aceitou sua penitência e de que em breve tu e tua esposa repousareis no Senhor.
 Com essas palavras o anjo desapareceu, e Juliano e sua esposa, ricos em boas obras e em misericórdia, em muito pouco tempo, repousaram no Senhor.
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O Gato Preto - Edgar Allan Poe

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Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.


No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.


Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.


Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.


Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.


Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.


Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.


Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.


Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.


Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.


Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.


Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando- o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.


Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.


Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.


Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.


Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.


De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.


Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.


No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava- se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava.


Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!


Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta- fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!


Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.


Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.


Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.


Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.


E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.


O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.


Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.


No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.


_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.


Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.


Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.


Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.


Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!







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