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Baco aprisionado - Mitologia Romana

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Assim que Baco, filho de Júpiter e de Sêmele, nasceu da coxa do próprio pai, este chamou Mercúrio e ordenou-lhe que levasse o garoto para ser criado pelas ninfas do Nisa, um lugar ameno e paradisíaco.
— Lá ele estará em perfeita segurança — disse Júpiter, com alegria.
O pequeno Baco foi entregue às ninfas e também a um estranho e divertido ser chamado Sileno, filho do deus Pã, que se tornou o pai adotivo do futuro deus das vinhas.
Durante seus primeiros anos Baco participou, junto com Sileno — sempre bêbado e a cair de cima de seu inseparável burrico -, de toda espécie de brincadeiras.
Mas se o velho Sileno sabia ser brincalhão — e mesmo irresponsável, muitas vezes -, também sabia demonstrar que era dono de profundos conhecimentos, que sua aparência exótica e pouco respeitável podia fazer adivinhar.
— Deixe que falem — hic! — o que quiserem! — dizia Sileno, erguendo-se do são. amparado pelo jovem pupilo.
— Sileno sabe mais — hic! — que todos os sabichões da Terra...

Um dia o jovem Baco, vestido com seu manto púrpura, resolveu ir até a praia e lá adormeceu. Neste ínterim havia se aproximado da costa um grande navio — na verdade, um navio pirata — que andava à caça de nova presa.
 Um grupo de marinheiros desceu à terra para buscar água, e quando estes pisaram nas areias claras deram de cara com o belo rapaz adormecido. Sua tez delicada, seus lábios rubros e o todo mais de sua aparência denunciavam que seria filho, ao menos, de um senhor poderoso do lugar. Quem sabe, até, do próprio rei.
— Vamos levá-lo conosco — disse o mais rude daqueles homens.
— Poderemos pedir por ele um belo resgate.
Entretanto, o timoneiro, Acetes, tinha bom olho para as coisas divinas e percebeu logo que o garoto tinha algo de estranho.
— Deixemos o rapaz em seu lugar e vamos embora de uma vez — disse ele -, pois não pressagio nada de bom desta aventura.
— Virou Cassandra, agora? — disse Lícabas, o mais feroz e impiedoso dos piratas, com uma gargalhada assoprada que fez espirrar no rosto do pobre timoneiro uma chuva de seus perdigotos podres.
Acetes, conhecedor do estratagema do vilão, deixou para limpar depois o produto infecto da boca do asqueroso Lícabas, pois sabia perfeitamente -já vira, na verdade, por duas vezes acontecer o mesmo — que limpar o rosto diante dele era decretar a própria morte.
O garoto foi, então, embarcado, mas não à força, porque não opôs nenhuma resistência contra seus raptores. Estranhamente calmo, Baco só fazia observar docilmente aqueles homens sujos e cruéis.
"Verdadeiramente é um deus!", pensava o bom Acetes, observando o rapaz.
— Dirija direito este troço! — disse uma voz ao seu lado.
Era um dos piratas, que fora destacado pelo próprio Lícabas para vigiar o timoneiro.
Enquanto isto, Lícabas, que fora se tomando cada vez mais de antipatia pelo jovem deus, ordenou de repente a um de seus marujos:
— Amarrem esta mocinha! — disse, acentuando bem a última palavra.
E antes que dessem cumprimento a sua nefanda ordem, aproximou bem a horrível carranca do rosto delicado de Baco.
— Frisou hoje cedo os lindos caracóis, menina loira? — disse o sórdido Lícabas, arreganhando a horrível dentadura, na qual se podiam perceber três dentes acavalados a disputarem o mesmo espaço. Depois, tomando sua faca, enrolou um dos cachos loiros sobre o fio, como se fosse frisá- lo, mas os fios partiram-se.
— Ora, menina, que pena! — disse. — Eu só ia fazer mais um cachinho...
Um jato de perdigotos explodiu da boca de Lícabas, como a onda esbatida que o vento impele, no inverno, sobre a costa pedregosa — mas, curiosamente, nenhuma das gotas apodrecidas foi alojar-se no rosto do jovem Baco.
— Cadê a corda, sardinhas regurgitadas pelo gato? — perguntou Lícabas, que mudava de espírito como o céu muda durante o verão abrasante.
Um boçal bem mandado surgiu carregando um rolo áspero de cordas.
— Deixa ver — disse Lícabas, esfregando um pedaço sobre a parte interna do braço.
— Não serve; traga outra! Um rolo de fios de cobre espetado surgiu, nos braços do mesmo homem. Depois de testá-lo, o vil Lícabas aprovou.
-Amarrem-no, já! Três homens fortes tomaram da corda e enrolaram Baco num abraço odioso.
Mas, coisa estranha!, tão logo terminavam de fazer os nós, eles se desmanchavam como por encanto, e a corda caía aos pés de todos, sem provocar o menor arranhão na vítima.
— Imbecis! — disse Lícabas. — Tratem de fazer um nó decente ou mandarei dar um nó nas tripas de cada um de vocês! Trinta nós foram feitos, e os mesmos trinta nós desfeitos, até que o sol caísse.
De repente, porém, o navio parou em meio ao mar. Parou, simplesmente. Ninguém sabia explicar o motivo.
— O vento cessou de todo — explicou Acetes ao capitão, temendo uma reação brutal.
— Então dêem nos remos! — ordenou Lícabas, que sabia dividir o instante das punições com o instante da ação. Os remos foram lançados com estrídulo à água, mas na mesma hora viram-se enrolados por um emaranhado de algas. Ao mesmo tempo começou a subir pelo mastro a folhagem espessa das vinhas, que se espalhou por todo o convés.
— Vejam, está chovendo! — disse um dos marinheiros, estendendo a mão.
Mas não era uma chuva normal, e sim uma chuva de vinho, que num instante cobriu todos de vermelho. Alguns, é verdade, gostaram da peça e abriam suas bocas para receber o produto da grande nuvem vermelha pairada acima do barco.
Mas quando Lícabas, que não era homem para graças, enterrou uma espada dentro da garganta do primeiro, a brincadeira acabouse ali. Baco, misteriosamente, tinha agora ramos da vinha pendurados atrás das orelhas e portava em sua mão um grande tirso, com a ponta encimada por uma enorme pinha.
Como quem rege um concerto de flautas, Baco agitava o seu cetro, com um sorriso alegre estampado no rosto — o sorriso da embriaguez divina! O convés encheu-se, também, de animais silvícolas, enormes e assustadores. Enormes felinos espalhavam-se por todo o barco — tigres, linces e um jaguar que parecia divertir-se imensamente com aquilo tudo -, o que tomou os marinheiros de pavor.
— Verdadeiramente, este rapaz é um deus ou um demônio! — exclamou um deles, lançando-se borda afora. Muitos outros o seguiram, mas tão logo alcançavam a água, viam seus corpos mudarem abruptamente para algo inumano.
Lícabas, o último que relutava, ainda, em abandonar o barco, de repente começou a perder o equilíbrio.
— Mas o que é isso? Maldição! — disse, enquanto observava seus pés unindo-se por uma estranha membrana, quase transparente. Suas pernas também foram perdendo o pêlo espesso que as recobria e tornando-se lisas como a pele de um peixe. Num último instante, antes de enlouquecer, o sórdido Lícabas chegou a achar graça daquela estranha metamorfose que se operava em si próprio.
— Estarei enlouquecendo, então? — exclamou, dando sua última gargalhada. Mas não foi de sua boca que saiu, desta vez, o infame jato, mas de uma protuberância instalada bem no alto de sua cabeça.
Lícabas, bem como todos os seus homens — à exceção do bom Acetes -, haviam se transformado em golfinhos, que tubarões ferozes perseguiam em alucinante disparada.
— Sou Baco, deus do vinho e da alegria! — disse o jovem, com os olhos refulgentes, ao timoneiro.
— Leve-me de volta e instaure um templo, em meu nome, em todas as terras por onde andar, para que se possam celebrar neles os meus sagrados ritos.
Assim se fez, e desde então Baco obrou ainda muitos e mil outros prodígios.
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Júpiter e a guerra dos Titãs

Posted by : Redação

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Não há crônica, antiga ou moderna, que refira de maneira exata todos os feitos e lances heroicos desta que foi a verdadeira primeira guerra mundial. 
Ela é demasiado antiga e perde-se na noite dos tempos. Só podemos nos basear no que dela referiram alguns comentadores tardios, como Hesíodo. 
Ainda assim, ela houve: os sinais, por tudo, são demais evidentes. A própria geologia comprova que as extintas divindades de outrora -personificações, talvez, dos elementos em estado caótico 
— se engalfinharam um dia numa luta impiedosa, revolvendo no embate o Céu, a Terra e os mares. Esta gigantesca querela teve início com a pretensão de um filho rebelde, chamado Júpiter, sobre o poder supremo que estava em mãos de uma divindade cruel e despótica, chamada Saturno. 

Mas quem foram as partes deste espantoso embate? De um lado, liderados por Saturno, estavam ele e seus irmãos, os poderosos Titãs ("filhos da Terra"). Do outro, Júpiter, o filho insubmisso, e seus irmãos, além de algumas defecções titânicas que se alistaram à causa rebelde, tais como o Oceano e o filho de Japeto, Prometeu. 
Os deuses da segunda geração, liderados por Júpiter, foram organizar seu ataque no monte Olimpo (daí serem chamados de "deuses olímpicos"), enquanto os Titãs, abrigados no monte Ótris, tramavam a sua defesa. 
Num dia incerto, que nenhum cálculo humano pode aproximar, deu-se o primeiro lance desta refrega colossal, que os anais bélicos da humanidade batizaram de Titanomaquia (ou "Guerra dos Titãs"). Uma imensa massa negra de nuvens destacou-se dos limites extremos do Olimpo e começou a marchar, num estrondo feroz de carros de guerra que rondam pelos céus. O empíreo escureceu de tal forma que o Caos parecia haver gerado de seu ventre uma segunda Noite, ainda mais negra e tétrica do que a primeira. 
De dentro desta montanha alada, da cor do ferro, partiam raios tão ofuscantes (novidade horripilante inventada pelos Ciclopes, aliados de Júpiter, que este libertara do Tártaro), que por alguns instantes brevíssimos não havia em todo o Universo a menor parcela de escuridão. Mas logo o negror da noite tombava outra vez sobre a Terra, e a alma de tudo quanto vivia agachava-se, oprimida por indizível pavor. Ocultos acima dessa nuvem prodigiosa, Júpiter e seus aliados caíram finalmente sobre seus inimigos. 
Os Titãs, contudo, bem protegidos em suas trincheiras, começaram a enterrar suas unhas duras e compridas como gigantescas pás de bronze até as profundezas do solo, para dali arrancarem pela raiz, com pavoroso estrondo, montanhas inteiras, que arremessavam em seguida contra os deuses olímpicos. 
Uma voz espantosa ecoou, vinda do alto, sobrepondo-se à massa inteira de ruídos: 
— Irmãos da nobre causa, desçamos até onde rastejam estes vermes! -disse Júpiter e, junto com seus aliados, saltou das nuvens com as vestes guerreiras, dando grandes brados de fúria. Seus escudos refulgiam na queda como tremendos sóis prateados, enquanto suas lanças, brandidas com fúria, pareciam raios retilíneos que cada qual portasse com destemor infinito. 
— Amantes da nobre verdade, recebamos estas aves de rapina que descem dos céus, tal como elas merecem! — bradou outra voz, desta vez de Saturno, encorajando os seus Titãs. Quando os dois exércitos se misturaram, um ruído mais feroz do que qualquer outro jamais escutado fez-se ouvir, então, por todo o Universo. 
A terra inteira sacudia-se em tremores, levantando-se de dentro dela imensas labaredas de fogo e de pez. Netuno, com seu tridente aceso, fazia ferver os mares, e por toda parte não havia um único bosque que não tivesse sido varrido pelo assobio endemoniado de uma tórrida ventania. Os combatentes, misturados num pavoroso atraque corporal — atirando às cegas, uns contra os outros, cutiladas, raios, rochas imensas, vapores sufocantes e dentadas -, assim estiveram por uma eternidade, até que Júpiter, temendo que a vitória estivesse pendendo para o inimigo, anunciou um novo propósito: 
— Companheiros, libertemos do Tártaro profundo os poderosos Hecatônquiros! Hecatônquiros. Esses terríveis seres haviam sido aprisionados por Saturno nas profundezas da terra e, uma vez libertos, espalhariam o terror entre as hostes inimigas. 
Júpiter, auxiliado pelos seus, desceu até as tênebras profundas e, após romper os grilhões que mantinham estas colossais criaturas presas ao abismo, subiu com elas à superfície. Uma fenda enorme rasgou-se sob o chão; imediatamente um vapor negro subiu da cratera num jato hediondo, até envolver o próprio Sol. 
Tudo estava envolto numa treva sufocante, quando todos sentiram um baque formidável sacudir o solo. Um tufão poderoso surgiu em seguida, varrendo toda a fuligem espessa e deixando à mostra, sobre a superfície, os três Hecatônquiros, postados lado a lado. 
A arte dos antigos não nos deixou nenhuma imagem do que seriam tais divindades, porém as descrições nos afirmam que se ratavam de seres "enormes como a mais alta das montanhas" e que possuíam n olhos e cinqüenta cabeças". Um urro colossal, partido das cento e cinqüenta bocas, atroou todo o Universo. As criaturas, empunhando rochedos imensos, lançaram sobre os apavorados Titãs trezentas montanhas, sepultando-os vivos sob os escombros. 
Em seguida os Ciclopes os acorrentaram com suas pesadas correntes, encerrando-os para sempre nas profundezas do Tártaro, de onde jamais tornariam a sair, vigiados pelos invencíveis Hecatônquiros. Esta, em resumo, foi a primeira batalha que o Universo conheceu, e da qual saiu vitorioso Júpiter, o novo soberano do Universo, para reinar como pai dos deuses sobre todos os homens e as demais divindades.
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Mercúrio, o deus dos pés ligeiros - Mitologia Romana

Posted by : Redação

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A cena é lírica: Maia, uma das belas ninfas do monte Cilene, está parada diante do berço.
Observa com toda a ternura o seu filho Mercúrio, que está aparentemente adormecido, com o dedinho metido na boca.
— Um digno filho de Júpiter! — diz baixinho a filha de Atlas.
Enquanto observa o filho adormecido, relembra o dia em que, nos braços do pai dos deuses, concebeu o filho numa das cavernas do monte Cilene.
Júpiter havia feito descer dos céus uma grande tormenta para abafar os amorosos ruídos de sua união com a ardorosa ninfa. Agora, ali estava, diante dos seus olhos, o produto daquela inesquecível e tempestuosa noite de amor.
Maia, na ponta dos pés, afasta-se do quarto, deixando o pequeno deus entregue aos cuidados do Sono, que vela ao seu lado. Mas tão logo a mãe se afasta, uma minúscula pálpebra lentamente se abre. Mercúrio, com o rosto parcialmente oculto pelo cobertor, estuda o ambiente.
Sim, o Sono, bem ao seu lado, está completamente adormecido.
Afastando as cobertas, o pequenino deus, ainda deitado, faz deslizar uma de suas perninhas para fora do leito. Enquanto o Sono sonha e ressona, o pequeno pé tateia o chão, à procura de sua minúscula sandália: ah!, ali está! Deslizando o resto do corpo para fora do leito, o pequeno Mercúrio está pronto para protagonizar a primeira de suas façanhas.
''Uma façanha perfeitamente memorável!", pensa o deusinho, lá no seu tatibitati divino. Já com suas sandalinhas aladas presas ao pé, Mercúrio aproxima-se da janela. A noite é cálida e estrelada — perfeita para um delicioso vôo noturno.
Dando um impulso às suas pernas, o deus menino lança-se à vastidão do espaço negro, isento de qualquer receio — porque o pequeno Mercúrio fora brindado com esta inexcedível virtude: nascera sem medo.
Pela primeira vez o filho de Júpiter corta a imensidão dos ares, levado por suas sandálias aladas. Incumbido por seu pai das mais diversas missões — na maioria das vezes urgentes e inadiáveis -, Mercúrio se notabilizará justamente por este seu atributo básico: o da irrequieta mobilidade. Nenhum deus mais ágil, mais expedito, mais voluntarioso e, ao mesmo tempo, mais disciplinado do que Mercúrio. Condutor de recados, não se limitará, porém, à função de mensageiro, sendo também condutor de almas. A ele, o mais atarefado dos deuses, caberá também a tarefa de conduzir as almas dos mortos até as margens do sinistro Aqueronte.
Por muitas vezes, assim, o veremos levar heróis e mortais pelos caminhos obscuros do Hades sombrio: será ele, por exemplo, quem conduzirá Orfeu até os braços de sua amada Eurídice para o ardoroso e fugaz reencontro.
Mas o pequeno Mercúrio também, desde cedo, já revela outra de suas inúmeras vocações. É o que veremos agora. O deus-menino, após viajar muito, já está em Piéria, local onde Apólo, o deus solar, guarda os seus rebanhos. É noite, ainda, e os animais estão abrigados em seu redil. Mercúrio, sem se deixar deter por tão mísero detalhe, abre a porteira e sozinho — daquele tamanhinho — aparta cinqüenta novilhas para si.
"Uma... duas... três... três e uma... três e duas... cinqüenta de uma vez!", contabiliza ele, lá na sua matemática infantil. Uma coisa é furtar grosseiramente, sem arte nem graça; outra é fazê-lo com a elegância do estilista. Mercúrio é isto: um esteta do furto. Por isto é padroeiro dos ladrões e também — desculpem — dos comerciantes. Mas sigamos adiante com o divino garoto, porque ele já vai longe, obrando a sua primeira façanha. Conduzindo, então, as novilhas, ele chega ao Peloponeso.
Na cauda de cada animal — e aqui está o engenho — prende uma vassoura de ramos, que vai apagando o rastro das reses. Mas isto ainda não é o bastante: o pequenino Mercúrio, sempre previdente, inverte também a posição dos cascos das novilhas, calçando igualmente as suas sandalinhas de maneira invertida, para tornar mais perfeita a ilusão.
No caminho, entretanto, cruza com um velho enxerido, que pergunta:
— Aonde vai com tantas novilhas, gracioso menino?
Mercúrio sabe que não o enganará, porque velhos metidos têm muita lábia.
 — Fique com uma delas de uma vez! — diz Mercúrio, dando seus primeiros passos na antiqüíssima arte do suborno.
— Mas não me denuncie, hein, velho?!
— Oh, não, confie em mim, gracioso menino! — diz o velho, abraçando-se à mais gorda das novilhas.
— Confie em mim! Mercúrio dá alguns passos e vira a esquina de um rochedo.
O rosto de pica-pau do velho enxerido, contudo, não abandona a sua mente:
"Oh, não, confie em mim, gracioso menino! Confie em mim!". Aquele segundo "confie em mim!" é prova bastante: ele irá denunciá-lo. Mercúrio disfarça-se de proprietário ganancioso e irado e retorna.
— Velho enxerido, não viu passar por aqui um ladrão com cinqüenta novilhas?
— Bem, não... — Dou-lhe uma novilha e mais quatro bois se me disser.
— Foi para lá, meu senhor! — grita o velho enxerido, apontando o dedo.
— Ótimo! — exclama Mercúrio, puxando seus bigodões de crina de proprietário ganancioso e irado.
— Vou já buscar a sua recompensa.
Dobra por trás do rochedo e dali mesmo esmurra a montanha até fazer desprender dela uma rocha imensa, que vai cair exatamente sobre a cabeça do velho enxerido.
— Aí está sua recompensa! — diz Mercúrio, retomando a sua fuga.
E até hoje lá está um grande rochedo, sob a forma de um velho enxerido, postado em pé para sempre sob o pó do Peloponeso.

Depois disso, Mercúrio, novamente na sua forma original, conduz as novilhas até uma caverna, perto de Pilos. Ali faz uma oferenda aos deuses e aproveita para descansar. Está nisto, quando vê o casco vazio de uma tartaruga morta.
— Que é isso? — indaga a si mesmo.
Então, sem ter o que fazer, estica indolentemente alguns nervos de boi sobre o casco e, ao dedilhá-los, descobre que deles parte um som mavioso!
Mas eis que já amanhece, e Mercúrio retorna voando para casa, indo se meter rapidamente debaixo do cobertor. O Sono, é claro, ainda sonha docemente.
O deus Apólo, por sua vez, dá logo pela falta das suas cinqüenta novilhas. Mas descobrir o autor do maravilhoso furto é que são elas! Ludibriado pelas artimanhas do menino deus, não tem outro recurso senão valer-se — oh, vergonha! — de seu próprio oráculo, em Delfos.
Irado, Apólo apresenta-se diante de Maia, a bela mãe de Mercúrio, para reclamar das traquinagens de seu pequenino garoto. Ambos correm até o berço, mas pasmem, lá está ele, adormecido.
Sua respiração está perfeitamente tranqüila, mas um ligeiro rubor de suas rechonchudas bochechas denuncia, talvez, uma recente atividade.
— É que ele está meio febril — diz a mãe, inventando qualquer coisa.
Apólo coloca a mão na testa do bebê. Não, nada de febre!
— É que ele chupou o dedinho demais — diz a mãe, inventando outra desculpa.
E assim ficariam para sempre, porque mãe, em se tratando de filho, tem justificativa para tudo. Mas Apólo não está para rodeios, e já se prepara para dar umas palmadas no garoto quando este estica os dois bracinhos para fora das cobertas e começa a dedilhar uma bela melodia na lira que inventara. Apólo congelou como uma estátua.
— Que instrumento maravilhoso é este? Os hábeis e minúsculos dedos de Mercúrio dedilham com virtuosismo a lira, enquanto ele mastiga serenamente a sua chupeta.
Apólo, esquecido das malditas novilhas, só quer saber agora de obter aquela preciosidade.
 — Vamos, dê-me esta lira e está tudo esquecido! — diz o deus, deliciado.
Mercúrio estende o objeto — afinal, poderá fazer quantas liras quiser – e expele a chupeta com uma grande risada.
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O nascimento de Vênus

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A véspera do nascimento de Vênus fora um dia violento. O firmamento, tingindo-se subitamente de um vermelho vítreo, enchera de espanto toda a Criação. Saturno, munido de sua foice, enfrentara o próprio pai, o Céu, num embate cruel pelo poder do Universo.
Com um golpe certeiro, o jovem deus arrancara fora a genitália do pai, tornando-se o novo soberano do mundo. Um urro colossal varrera os céus, como o estrondo tremendo de um infinito trovão, quando o Céu fora atingido. O fecundo órgão do deus deposto, caindo do alto, mergulhara nas águas profundas, próximo à ilha de Chipre.
Assim, o Céu, depois de haver fecundado incessantemente a Terra — dando origem à estirpe dos deuses olímpicos -, fecundava agora, ainda que de maneira excêntrica e inesperada, o próprio Mar. Durante toda a noite o mar revolveu-se violentamente.
A espuma do mar, unida ao sangue do deus caído, subia ao alto em grandes ondas, como se lançasse ao vento os seus leves e espumosos véus. Mas quando a Noite recolheu finalmente o seu grande manto estrelado, dando lugar à Aurora, que já tingia o firmamento com seus dedos cor-de-rosa, percebeu-se que as águas daquele mar pareciam agora outras, completamente diferentes.
O borbulhar imenso das ondas anunciava que algo estava prestes a surgir. Das margens da ilha de Chipre, algumas ninfas, reunidas, apontavam, temerosas, para um trecho agitado do mar:
— O mar está prestes a parir algo! — disse uma delas.
— Será algum monstro pavoroso? — disse outra, temerosa.
Mas nem bem o sol lançara sobre a pátina azulada do mar os seus primeiros raios, viu-se a espuma, que parecia subir das profundezas, cessar de borbulhar. Um grande silêncio pairou sobre tudo.
— Sintam este perfume delicioso! — disse uma das ninfas.
As outras, erguendo-se nas pontas dos pés, aspiraram a brisa fresca e olorosa que vinha do alto-mar. Nunca as flores daquela ilha haviam produzido um aroma tão penetrante e, ao mesmo tempo, tão discreto; tão doce e, ao mesmo tempo, tão provocantemente acre; tão natural e, ao mesmo tempo, tão sofisticado.
De repente, do espelho sereno das águas — nunca, até então, o mar tivera aquela lisura perfeita de um grande lago adormecido — começou a elevar-se o corpo de alguém.
— Vejam, é a cabeça de uma mulher! — gritou uma das ninfas. Sim, era uma bela cabeça — a mais bela cabeça feminina que a natureza pudera criar desde que o mundo abandonara a noite trevosa do Caos.
Um rosto perfeito: os traços eram arredondados onde a beleza exigia que se arredondassem, aquilinos onde a audácia pedia que se afilassem e simétricos onde a harmonia exigia que se emparelhassem. O restante do corpo foi surgindo aos poucos: os ombros lisos e simétricos, os seios perfeitos e idênticos — tão iguais que nem o mais consumado artista saberia dizer qual era o modelo e qual a sua réplica perfeita.
Sua cintura, com duas curvas perfeitas e fechadas, parecia talhada para realçar o umbigo perfeito, o qual acomodava delicadamente, como um encantador pingente, uma minúscula e faiscante pérola. E, logo abaixo, um véu triangular — loiro e aveludado véu -, tecido com os mais delicados e dourados fios, agitava-se delicadamente, esbatido pela brisa da manhã.
Nenhum humano podia saber ainda o que ele ocultava — seu segredo mais cobiçado, que somente a poucos seria revelado.
Algumas aves marinhas surgiram, arrastando uma grande concha, a qual depositaram ao lado da deusa — sim, era uma deusa -, para que ela, como em um trono, se assentasse. Um marulhar de peixes saltitantes a cercava, enquanto golfinhos puxavam seu elegante carro aquático até as areias da praia cipriota.
Nem bem a deusa colocara os pés na ilha, e toda ela verdejou e coloriu-se como nunca antes havia sido. Por onde ela passava, brotavam do próprio solo maços aromáticos de flores multicores, os pássaros todos entoavam um concerto de vozes perfeitamente harmoniosas e os animais quedavam-se sobre a relva com as cabeças pendidas, para receber o afago daquela mão alva e sedosa.
— Quem é você, mulher mais que perfeita? — perguntou-lhe, finalmente, a ninfa que primeiro recuperara o dom da fala.
 — Sou aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino — respondeu a deusa, com uma voz cristalina e docemente áspera, envolta num hálito que superava em delícia ao de todas as flores que seus pés haviam feito brotar.
No mesmo dia, a extraordinária notícia do nascimento de criatura tão bela chegou ao Olimpo, e os deuses ordenaram que as Horas e as Graças a fossem recepcionar. Ainda mais enfeitada pelas mãos destas caprichosas divindades, apresentou-se a nova deusa diante de seus pares no grandioso salão do Olimpo, sendo imediatamente acolhida e festejada pelos deuses.
Mas quando todos ainda se perguntavam quem seria, afinal, aquela criatura encantadora, um descuido — seria, mesmo? — pôs fim a todas as indagações. Pois o véu que a envolvia, descendo-lhe até os pés, revelara o que nenhum dos embelezamentos artificiais pudera antes realçar: a sua infinita beleza original.
— E Vênus, sim, a mais bela das deusas! — disse o coro unânime das vozes.
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Nascimento e glória de Saturno

Posted by : Redação

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Numa era muito antiga — tão antiga que antes dela só havia o caos — o mundo era governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de seres prodigiosos, chamados Titãs. Ocorre que o Céu — deus poderoso e nem um pouco clemente — irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber de seus filhos. Por isto, decidiu encerrá-los nas profundezas do ventre da própria esposa, à medida que eles iam nascendo.
— Aí ficarão para sempre, no ventre da Terra, para que nunca mais ousem desafiar a minha autoridade! — exclamou, colericamente, o deus soberano.
A Terra, subjugada, teve de segurar em suas entranhas, durante muitas eras, aquelas turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. Um dia, porém, farta de tanta tirania, decidiu a mãe do mundo que um de seus filhos deveria libertá-la deste tormento. Para tanto escolheu Saturno, o mais jovem de seus rebentos.
— Saturno, meu filho — disse a Terra, lavada em pranto -, somente você poderá libertar-me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo! O jovem e ambicioso Titã sentiu um frêmito percorrer suas entranhas.
— Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor! — disse Saturno, disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano.
A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho. "Tome e use-a da melhor maneira que puder!", disseram seus olhos, onde errava um misto de vergonha e esperança. Saturno apanhou a foice e não hesitou um instante: dirigiu-se logo para o local onde seu velho pai descansava. Ao chegar no azulado palácio erguido nos céus, encontrou-o ressonando sobre um grande leito acolchoado de nuvens.
— Dorme, o tirano... — sussurrou baixinho. Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a foice e pensou consigo mesmo: "Realmente... demasiado soturno." E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu. Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou na abóbada celestial, despertando toda a criação.

— Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? — gritou o Céu, com as mãos postas sobre a ensangüentada virilha.
— Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos — respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue. Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano, com um baque tremendo.
Em seguida, o deus ferido caiu, exangue, sobre seu leito acolchoado, sem poder dizer mais nada. As nuvens que lhe serviam de leito tingiram-se de um vermelho tal que durante o dia inteiro houve como que um infinito e escarlate crepúsculo. Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe.
 — Isto é que é filho — disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era agora o senhor inconteste de todo o Universo. Quando a noite caiu, entretanto, escutou-se uma voz espectral descer da grande cúpula côncava dos céus:
— Ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do seu próprio pai! Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo... Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou a seus pares que recomeçassem os festejos.
— Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto! — exclamou, com um riso talhado no rosto. Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficara ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno:
— Será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa? 
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Pomona e Vertuno - Mitologia Romana

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Pomona era a deusa que presidia a floração dos frutos, e seu maior prazer era fazer a guarda e proteger as árvores frutíferas.
Seu bosque, no entanto, vivia fechado à entrada de seus incansáveis cortejadores — na sua maioria faunos e sátiros que, tomados pela mais ardente paixão, queriam por todo modo possuí-la. De fato, alimentada somente pelos mais tenros frutos, a deusa dos pomares tinha um corpo invejável e uma pele perfeita.
Julgando-se em segurança, andava só por entre os troncos das suas adoradas árvores, o que fazia excitar ainda mais o desejo dos seus pretendentes. Dentre todos, o mais apaixonado, sem dúvida alguma, era Vertuno, o deus cujas atribuições mais se assemelhavam às da bela deusa: Vertuno era o deus protetor dos frutos e dos legumes.
— Nós temos tudo em comum — dizia ele a si mesmo, sem conseguir compreender por que a deusa fugia dele.
Mas Pomona não queria, definitivamente, saber de amores. E como Vertuno parecia ter mais possibilidade de vencer a sua resistência, era justamente dele que ela fugia com mais ardor. Vertuno, porém, era mestre em disfarces e, por diversas vezes, apresentou-se diante da deusa, mas esta estava sempre ocupada em podar ou fazer algum enxerto nas árvores.

Certa vez apareceu como um ceifador, pôs no chão a foice e sentou-se aos pés de Pomona, que permaneceu, absorta, totalmente envolvida com sua tesoura a cortar os galhos e a retirar os fungos acumulados, sem lhe dar a mínima atenção.
— Suas árvores estão cada vez mais belas — disse-lhe o deus, sem arrancar dela nenhuma expressão. Com os braços erguidos, ela prosseguia em sua tarefa. Noutra ocasião, Vertuno apareceu como um pescador, num disfarce infeliz.
A deusa não queria nada com pescadores e detestava esta atividade, chegando mesmo a expulsá-lo de sua presença, com um ar enfastiado. Outra vez surgiu munido de uma escada, com um longo bigode de colhedor de maçãs. Aproximando-se da deusa, que tentava inutilmente alcançar um dos frutos para colocar na cesta, ele lhe disse:
 — Deixe que eu as alcanço para você! Colocando a escada encostada ao tronco, Vertuno começou a escalar os degraus, quando sentiu a mão cálida da deusa tomar-lhe o pulso.
— Deixe que eu mesma o faço — disse ela, subindo degrau por degrau até alcançar os frutos mais distantes.
Depois de arrancar dos galhos as maçãs, ia jogando-as uma a uma a Vertuno, que, no chão, as ia recebendo. A maioria das frutas, porém, o acertava em cheio na cabeça, arrancandolhe breves gritos de dor.
— O que há com você, afinal? Não está enxergando direito? — reclamava a deusa, impaciente. — Veja, está estragando todos os meus frutos!
Se Vertuno, no entanto, tinha alguma coisa em bom estado naquele momento, era justamente a visão: cobiçava ardentemente as perfeitas formas de Pomona.
— Tome, leve de volta a sua escada — disse a deusa, ao perceber finalmente as intenções de Vertuno.
Quanto mais Vertuno persistia em seus estratagemas, mais a deusa permanecia irredutível, terminando sempre por expulsá-lo de seu bosque sagrado, com maior ou menor delicadeza. As coisas estavam nesse pé quando, um dia, uma velha encarquilhada apareceu diante de Pomona. Estava extremamente quente, e Pomona estava mais i vontade.
Um suor delicado como o orvalho brotava de sua pele clara; na poma dos pés, a deusa tentava alcançar um galho mais alto, deixando à mostra as axilas que uma minúscula penugem dourada protegia. O que nas mulheres comuns poderia parecer um desleixo, na encantadora deusa era, porém, um atributo a mais para a sua beleza. A velha — que outro não era senão o próprio Vertuno — aproximou-se lentamente, mancando em seu passo senil.
Quando chegou aos pés da deusa. sentou-se, enquanto a observava entregar-se à sua tarefa. Após algum tempo, Pomona finalmente, acordou para a presença da intrusa.
— Bom-dia, senhora — disse a deusa, estendendo a mão, de modo afável.
— Bom-dia, bela jovem! — respondeu a velha, dando um beijo na deusa, que recuou um pouco, de modo instintivo, diante daquele gesto inesperado e surpreendente.
Pomona estava podando uma vinha, e Vertuno aproveitou a ocasião para fazer uma comparação que em tudo servia aos seus objetivos:
— Está vendo como os galhos da vinha se enroscam no tronco?
— Certamente — respondeu a deusa.
— Por que não lhe segue o exemplo?
 — Como assim?
— Bem, a vinha não cresce jamais se não puder enroscar-se a um tronco forte e viril. Estive observando você desde muito tempo e percebi que foge de todos os seres que buscam unir-se a você.
— Ora, são todos uns boçais! — exclamou Pomona, lançando para trás os cabelos e retomando sua tarefa.
— Talvez nem todos o sejam — disse Vertuno, acariciando as costas da deusa com sua mão enrugada, o que renovou o espanto da moça.
— Senhora, que modos são esses? — disse Pomona, com um sorriso, tentando mostrar de modo gentil e descontraído a sua insatisfação com aquelas pequenas e desconfortáveis intimidades.
— Existe alguém que está muito acima de todos os seus outros pretendentes — disse Vertuno, sob o disfarce da velha, ignorando a advertência da deusa.
-Você sabe quem é, e somente ele merece o seu amor.
— Já sei, já sei, a senhora refere-se ao importuno Vertuno — disse Pomona, com ar de enfado.
— Sim, é ele mesmo. Ninguém mais poderá lhe fazer feliz, pois ninguém a ama mais do que ele! — insistiu a velha, abraçando o corpo que tinha à sua frente, num transporte de desejo que encheu de assombro a deusa dos pomares.
— Agora chega! — esbravejou Pomona, afastando a velha descontrolada.
De repente, porém, ela deu-se conta do que se passava:
— Então é você, novamente!
A velha lançou fora o véu que cobria a sua cabeça e disse:
— Sim, sou eu, Pomona querida, e venho mais uma vez tentar obter o seu amor!
— Por que não experimenta aparecer sob a sua própria forma, ao menos uma vez?
Às vezes as coisas óbvias não ocorrem, mesmo aos deuses. Vertuno, sabendo que a deusa não tinha olhos para ninguém, procurara nas mais diversas formas convencer a sua amada, sem dar-se conta de que talvez conseguisse seu objetivo se aparecesse diante dela como realmente era.
Desfazendo-se de seu disfarce, Vertuno surgiu diante da moça, em sua forma esplendorosa. Pomona, acostumada ao assédio dos faunos e do horrível deus Pã, ficou deslumbrada com sua beleza.
Ele aproximou-se, então, da dócil Pamona e a cobriu de beijos, que foram generosamente retribuídos.
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O rapto de Prosérpina

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Plutão, o deus dos infernos, andava inquieto com a agitação que vinha abalando os fundamentos do monte Etna, na Sicília.
De fato, o vulcão que ali existia parecia mais irado do que nunca, cuspindo fumaça e faíscas para todos os lados. Sabedor de que o interior daquelas montanhas abrigava o gigante Tifão — que fora anteriormente derrotado por Júpiter e ali acorrentado -, Plutão decidira ir ver pessoalmente o que estava ocorrendo.
Tomando a carruagem da noite, o deus subterrâneo percorria a terra, no caminho do monte Etna, quando avistou um grupo de mulheres que colhiam flores no campo. Enquanto isto Vênus, a deusa do amor, observava tudo, tendo ao lado o filho Cupido.
— Veja, meu filho — disse Vênus, pegando o braço do jovem -, parece que o deus dos infernos decidiu dar uma voltinha à luz do dia.
 — O coitado deve estar cansado de toda aquela escuridão — disse Cupido. -Deve ser horrível, afinal, ser o rei de um mundo de mortos.
De repente, Vênus, dando-se conta de algo, encostou sua boca à orelha de Cupido:
— E se lhe arrumássemos algo que o distraísse de sua solidão?
Os olhos do jovem pareceram se iluminar. Cupido pegou rapidamente o seu arco, escolhendo a flecha mais aguda de sua aljava repleta de setas.
— Já entendi, mãe... — disse, caprichando na pontaria.
Uma flecha dourada cortou o ar, indo atingir em cheio o coração do deus infernal. No mesmo instante, Plutão ficou apaixonado pela mais bela das mulheres que tinha diante dos seus olhos.
Era Prosérpina, filha de Ceres, a deusa da fertilidade e da agricultura; a jovem podia ser considerada uma digna filha de sua mãe, com seus longos cabelos da cor do trigo. Tomado por um ímpeto verdadeiramente infernal, Plutão colheu as rédeas cor de ferro que seguravam seus negros cavalos e se lançou em direção ao grupo de moças que circundavam a encantadora presa.
Assustadas com a aproximação do carro negro, todas correram em diversas direções, deixando Prosérpina desprotegida. Plutão, aproveitando o descuido, suspendeu a moça com o braço, arrebatando-a aos céus em seu carro veloz.
 Foi em vão que a filha de Ceres clamou por socorro: Plutão, mantendo-a solidamente presa em seus braços, a conduzia para cada vez mais longe. Descendo, afinal, o seu carro, o deus das trevas preparava-se para golpear o solo com seu tridente e abrir caminho para retornar ao seu mundo subterrâneo, quando a ninfa Ciana, que estava ali por perto, ainda tentou detê-los:
— Espere, cruel divindade! Deixe-a em paz!
Plutão, sem lhe dar ouvidos, fendeu a terra com um golpe poderoso de seu tridente. Um abismo abriu-se aos pés de ambos.
Antes, porém, que o raptor e sua presa entrassem pela negra passagem, Plutão, temendo que a ninfa Ciana viesse a dar com a língua nos dentes, transformou-a em uma fonte. Os cavalos relincharam, felizes de regressarem à sua escura morada, enquanto Prosérpina perdia os sentidos ao ver-se prestes a adentrar aquela escuridão sem fim.
— Vamos, você será agora a rainha dos infernos! — disse Plutão, dando um beijo na face desmaiada de Prosérpina, antes de chicotear com furor os seus cavalos da cor da noite. Ceres, no mesmo dia, foi alertada pelas amigas de Prosérpina, que lhe contaram em detalhes o rapto e o seu autor.
— Plutão?! — exclamou Ceres, incrédula. — O que fará aquele maldito à minha filha?
Desesperada, a deusa saiu a pé, do jeito que estava, em busca de Prosérpina. Percorreu a terra durante o dia inteiro, sem encontrar nem sinal da filha.
Quando a noite chegou, acendeu uma tocha e prosseguiu em sua solitária e desesperada busca. Assim que Ceres avistou Selene, a deusa da Lua, deteve o seu passo.
— Por acaso você não viu, poderosa deusa, a minha filha sendo levada num grande carro conduzido por Plutão? — perguntou, esperançosa. Infelizmente, Selene nada vira.
Durante a noite inteira Ceres percorreu a terra, iluminada apenas pelas estrelas e pela Lua, que intensificou seus raios para ajudá-la a encontrar a filha. Quando o dia amanhecia, Ceres encontrou-se com a Aurora, que já vinha adiante, precedendo o radiante carro de Febo, o deus do Sol.
— Aurora querida, perdi minha filha! — disse Ceres, em prantos. — Você, por acaso, não a viu passar num carro puxado por negros cavalos?
Também Aurora nada vira. Estava disposta a ajudar na procura, mas o Sol a impelia para a frente, não dando tempo para que continuasse sua conversa. Durante vários dias e várias noites, Ceres continuou em seu périplo inútil, esquecida de seus deveres para com a natureza.
Logo a terra começou a se tornar estéril. As águas não desciam mais do céu para regar as plantações, e a fome começou a se espalhar por tudo. Um dia, completamente desanimada, Ceres sentou-se numa pedra, curvando a exausta cabeça sobre o peito.
Assim esteve um bom tempo, abatida, quando percebeu que a seu lado uma fonte cantante respingava suas águas sobre si. Passando os olhos sobre o espelho das águas, Ceres percebeu nele o desenho do rosto de Ciana, uma das ninfas mais íntimas de sua filha. Ainda que um pouco turvada pela fonte, a imagem a encarava com indizível pena.
— Ciana, o que houve com você? — disse a deusa, sem obter nenhuma resposta, pois, com a metamorfose, a ninfa havia perdido o dom da fala. Entretanto, por alguns sinais que a deusa logo compreendeu, a ninfa fez entender que sua amiga havia sido engolida pela terra, ali, naquele local. Ceres viu confirmada essa suspeita ao divisar flutuando sobre as águas da fonte o cinto de sua adorada filha. Apanhando-o, secou-o em seu seio, mas logo o encharcou novamente, com suas lágrimas. Sem meios de poder descer até as profundezas do reino de Plutão, Ceres decidiu subir aos elevados domínios de Júpiter, pai de Prosérpina.
— Deus dos deuses, preciso de sua ajuda! — exclamou Ceres, ao mesmo tempo aflita e determinada.
— Quero que obrigue Plutão a me devolver a minha filha.
— Plutão é senhor em seus domínios... — tergiversou Júpiter, dando a entender que não queria problemas com seu irmão das trevas.
— Ele que vá para o inferno! — bradou Ceres, completamente impotente.
— Ele já está lá, querida... — disse Júpiter, sem saber o que dizer. Ceres, no entanto, não estava para graças:
— Não tenho tempo nem ânimo para seus gracejos! — rugiu.
— Então vá lá para baixo, que é seu lugar, e coloque em ordem outra vez a terra, da qual você tem se descuidado há vários meses — disse Júpiter, tentando impor sua autoridade.
 — Ela vai continuar assim, sem brotar mais um pé de couve sequer, enquanto eu não tiver minha filha de volta — respondeu, categórica, a deusa da fertilidade e da agricultura.
O grande Júpiter, ao perceber que sua esposa Juno já se aproximava para ver o que estava acontecendo, resolveu contemporizar, pois sabia que duas mulheres iradas eram demais para ele ou qualquer outro deus:
-Está bem, façamos então assim: sua filha poderá retornar para a Terra, desde que não tenha comido nada nos infernos, pois assim determinaram as Parcas. A condição parecia meio absurda, mas Ceres não tinha alternativa e, por isto, resolveu ir pessoalmente ao reino de Plutão.
Esteve longo tempo nas margens do Aqueronte, aguardando a chegada da barca de Caronte, que a transportaria até o reino das sombras. Quando o velho barqueiro se aproximou, Ceres imediatamente embarcou.
 — Vamos com calma! — disse o velho, ameaçando-a com o remo.
— Cale-se e me leve logo até a outra margem! — ordenou Ceres. Uma vez desembarcada, foi barrada por Cérbero, o terrível cão de três cabeças que guarda os portões do inferno. Mas uma mãe que procura a filha não se deixa intimidar por qualquer coisa.
Com o facho que levava numa das mãos desceu uma bordoada sobre as três cabeças do cão ao mesmo tempo, que saiu ganindo inferno adentro. Sem dar ouvido a nada nem a ninguém, foi avançando pelas regiões escuras.
A deusa avançou tanto que em breve tinha diante de si o deus infernai instalado em seu trono, tendo ao lado sua filha. Esta, enxergando a mãe, lanço-se se em seus braços, num abraço longo e emocionado. Ceres, sem poder emitir qualquer palavra, apenas a enxergava com os olhai nublados. Depois de recomposta, quis saber como ela se sentia ali.
— Bem, não é tão mal assim... — disse a filha, relanceando disfarçadamente o olhar para seu marido, que observava de longe a cena, evitando, porém, se intrometer.
— Mas como pode ser feliz aqui, nesta escuridão? — É que aqui eu sou rainha, mãe, senhora absoluta de todos estes domínios
— Mas e este seu marido terrível? — disse Ceres, lançando um olhar feroz para o deus subterrâneo, que olhou para os lados, temeroso da vingança da sogra
— Bem, ele foi um tanto intempestivo na sua maneira de se declarar para mim, reconheço — disse Prosérpina, com ar condescendente. — Mas sempre I tratou com muita atenção e delicadeza, como uma legítima rainha — completou a moça, que parecia realmente feliz com seu novo estado.
Mas sua mãe não podia suportar a ideia de tê-la para sempre longe de s por isto lhe perguntou:
— Minha filha, você já comeu algo desde que chegou aqui?
— Por quê? Pareço muito magra? — perguntou Prosérpina.
— Apenas responda — disse Ceres, ansiosa.
Prosérpina pensou por algum tempo e depois declarou:
— Bem, comi apenas uma romã que colhi nos jardins de Plutão.
Ceres quase tombou desfalecida ao chão, de tanta tristeza diante dessa terrível revelação. Abandonando momentaneamente a filha, foi falar com o deus dos infernos, para tentar reverter a situação, mas Plutão mostrou-se resoluto, recusando-se a perder a esposa. Uma terrível discussão ameaçava se instalar entre a sogra e o genro, quando Prosérpina propôs uma solução que agradaria a todos:
— Façamos assim, mãe: a metade do ano passarei aqui em meus domínios e a outra metade em sua companhia, na Terra. Que tal acha disso? Ceres e Plutão chegaram, assim, a um acordo que parecia ser a única solução consensual.
Como já estivesse na época da floração, Prosérpina seguiu com sua mãe de volta à terra, para passar sua primeira temporada, disposta a regressar dentro de seis meses, conforme o combinado.
Ceres retomou seus cuidados com a Terra, e é assim que Prosérpina alterna a sua vida: durante os meses de calor passeia pela Terra, dando vida e fecundidade a tudo, e durante os meses de frio e escuridão recolhe-se para as profundezas da terra, deixando a natureza despida de seus benefícios.
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